Dieta de gatos deixou de ser apenas uma discussão sobre energia, palatabilidade ou teor de gordura para se tornar um tema de precisão nutricional e formulação técnica no mercado pet food. Na palestra “Gordura na dieta de gatos: quanto e qual?”, apresentada no dia 13 de maio, durante o XXV Congresso CBNA PET – Desafios na Alimentação de Felinos, Luciano Trevizan, da UFRGS, mostrou que a presença de ômega-3 e ômega-6 no rótulo não garante, por si só, a entrega de EPA, DHA e ácido araquidônico em formas e quantidades avaliáveis para gatos.
A apresentação deslocou a discussão da simples inclusão de gordura para a avaliação de qual ácido graxo está sendo fornecido, por qual fonte, com qual biodisponibilidade e em que quantidade efetivamente consumida pelo animal. Segundo Trevizan, essa leitura é particularmente importante em felinos porque a conversão de precursores vegetais em ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa é limitada e ainda apresenta pontos sem resposta clara na literatura.
Médico-veterinário formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestre e doutor em Zootecnia pela UFRGS, Trevizan é professor associado na área de Zootecnia/Animal Science e desenvolve pesquisas relacionadas à avaliação de alimentos, ingredientes, coprodutos, fontes de lipídeos e necessidades nutricionais de cães e gatos.
Ômega-3 e ômega-6 não dizem tudo sobre a dieta de gatos
Um dos pontos centrais da apresentação foi a diferença entre declarar “ômega” e entregar ácidos graxos biologicamente relevantes. Segundo Trevizan, óleos vegetais como linhaça, camelina, canola e soja podem fornecer ALA, o ácido alfa-linolênico. No entanto, o efeito do ALA em gatos ainda permanece indeterminado. O palestrante citou a possibilidade de efeito poupador de ácido linoleico, mas ressaltou que os benefícios específicos para felinos ainda necessitam de investigação.
Na prática, uma fonte vegetal de ômega-3 não deve ser interpretada automaticamente como equivalente à entrega funcional de EPA e DHA. Trevizan mostrou que, quando o objetivo é promover incorporação tecidual desses ácidos graxos de cadeia longa, a formulação precisa considerar fontes capazes de fornecer esses compostos já alongados e dessaturados, como peixes, crustáceos e algas.
Essa distinção modifica a leitura técnica das dietas. A presença de ômega-3 pode indicar uma categoria nutricional ampla, mas não necessariamente informa qual fração corresponde a ALA, EPA ou DHA. Para a avaliação da dieta de gatos, a identidade molecular dos ácidos graxos passa a ser tão importante quanto a indicação geral de ômega-3 ou ômega-6.
ALA, EPA e DHA: por que a fonte muda a resposta nutricional
Trevizan apresentou diferentes fontes lipídicas e mostrou que elas não entregam o mesmo resultado nutricional. Óleos como milho, palma, coco, gergelim, algodão, amendoim e girassol tendem a entregar predominantemente ácido linoleico, um ômega-6. Já fontes como linhaça, camelina e canola têm perfil mais favorável de ALA, embora não entreguem EPA e DHA já prontos para utilização.
Quando a formulação busca EPA e DHA, a lógica muda. O palestrante indicou que fontes marinhas e algas entram em outra categoria porque entregam ácidos graxos já alongados e dessaturados. Peixes, crustáceos, krill e algas foram citados como fontes relevantes, com destaque para a possibilidade de algumas algas fornecerem DHA de forma separada.
Nos estudos apresentados, a suplementação com óleo de algas contendo EPA e DHA mostrou resposta dose-dependente em gatas e filhotes. De acordo com Trevizan, à medida que aumentou a inclusão dietética, houve maior acúmulo plasmático desses ácidos graxos, inclusive nos filhotes avaliados ao longo do período experimental. A observação reforça que a entrega dos compostos na forma utilizada pelo animal muda a resposta nutricional.
Ácido araquidônico: essencial para gatos, mas pouco visível no rótulo
O trecho mais provocativo da palestra envolveu o ácido araquidônico. Trevizan lembrou que gatos dependem desse ácido graxo essencial, mas destacou que, no levantamento apresentado com dietas comerciais, o ácido araquidônico não aparecia nos níveis de garantia das embalagens avaliadas.
- A informação não deve ser lida como indicação de ausência do nutriente. O próprio palestrante ponderou que fontes usuais da indústria, como farinha de carne e ossos e farinha de vísceras de aves, podem fornecer ácido araquidônico. A limitação apresentada está na dificuldade de avaliar, a partir do rótulo, quanto desse ácido graxo está sendo entregue.
Segundo Trevizan, o ácido araquidônico é essencial para gatos, mas não é expresso nos níveis de garantia. Dessa forma, o profissional que interpreta tecnicamente a dieta pode ter acesso à informação sobre ingredientes, mas não necessariamente à quantidade declarada de um ácido graxo relevante para a espécie.
Biodisponibilidade coloca a gordura no centro da formulação felina
Outro eixo importante da palestra foi a diferença entre digestibilidade e biodisponibilidade. Segundo Trevizan, a biodisponibilidade depende da fonte, da digestibilidade e da metabolização do ácido graxo no organismo. Portanto, a presença do nutriente na formulação não basta para determinar sua utilização: é preciso considerar quanto é digerido, absorvido, metabolizado e incorporado ao tecido-alvo.
Para ilustrar a discussão, o pesquisador citou estudos com cães e mink. Em cães, trabalhos apresentados indicaram digestibilidade verdadeira próxima de 99% para óleo de soja e em torno de 93% para sebo bovino. A diferença foi relacionada à menor preferência metabólica por ácidos graxos saturados de cadeia longa no processo de reesterificação e formação de quilomícrons.
Embora Trevizan tenha ressaltado que faltam estudos específicos em gatos, ele indicou que o mink pode servir como modelo mais próximo do felino por características digestivas, como ceco e cólon mais restritos. A partir dessa aproximação, a expectativa apresentada foi de alta digestibilidade para gorduras monoinsaturadas e poli-insaturadas, enquanto gorduras saturadas, especialmente o ácido esteárico, podem apresentar maior limitação.
A forma química da gordura também importa. Na palestra, o krill foi citado como fonte de boa incorporação por trazer lipídeos em forma de fosfolipídeos. Óleo de peixe também foi apresentado como fonte disponível, enquanto formas como ésteres etílicos foram descritas como menos disponíveis em comparação com triglicerídeos e triglicerídeos purificados.
Consumo real pode mudar a entrega de EPA e DHA
A palestra também trouxe uma mensagem prática para a avaliação de dietas comerciais: o que importa é o que o animal come. Trevizan destacou que gatos podem apresentar grande variação de consumo alimentar. Alguns animais consomem próximo ao previsto pelas estimativas de peso metabólico, enquanto outros podem ingerir quantidade muito menor.
Uma dieta pode parecer adequada quando avaliada apenas por teor ou concentração, mas entregar menos EPA, DHA ou outros ácidos graxos quando o consumo real cai. Na análise apresentada, Trevizan indicou que EPA e DHA podem se tornar pontos críticos mesmo em dietas de alta qualidade quando o animal consome menos alimento ou quando a dieta tem menor conteúdo de gordura.
Essa observação é relevante para dietas voltadas a saúde de pele, suporte inflamatório, cognição, retina, desenvolvimento de filhotes ou nutrição de gatos com ingestão reduzida. Nesses casos, a avaliação precisa considerar não apenas a concentração declarada, mas a ingestão diária provável e a fonte utilizada.
Levantamento de mercado mostrou diferença entre presença de ingrediente e declaração de ácido graxo
Na parte final da apresentação, Trevizan mostrou uma avaliação de dietas comerciais para gatos. O levantamento separou dietas de alta digestibilidade e outras dietas disponíveis no mercado, observando quais informações eram declaradas sobre lipídeos, fontes de PUFAs, EPA, DHA, ALA, ácido linoleico e ácido araquidônico.
Segundo o palestrante, parte das dietas informava ômega-3 e ômega-6, mas nem sempre especificava quais ácidos graxos compunham essa fração. Nas dietas de alta digestibilidade avaliadas, uma parcela informava a presença de fontes marinhas, vegetais ou mistas. Em outras dietas, havia produtos que não informavam ingredientes capazes de explicar a origem dos lipídeos avaliados.
O dado mais sensível permaneceu no ácido araquidônico: apesar de essencial para gatos, ele não aparecia declarado nos níveis de garantia avaliados. Informações sobre EPA, DHA e somatório de EPA + DHA também apareceram de forma limitada, especialmente fora do grupo de dietas de alta digestibilidade.
A apresentação também mostrou que a presença de fontes marinhas, peixes, crustáceos ou algas na composição básica pode indicar potencial fornecimento de EPA e DHA. Ainda assim, Trevizan diferenciou a presença do ingrediente da declaração quantitativa dos ácidos graxos, ponto importante para quem precisa estimar ingestão e adequação nutricional.
A gordura como fronteira de diferenciação no pet food para gatos
A mensagem final da palestra foi menos sobre escolher uma gordura “boa” ou “ruim” e mais sobre entender a finalidade de cada fonte. Segundo Trevizan, ALA pode ter algum papel, inclusive possivelmente relacionado à preservação de ácido linoleico, mas seu efeito em gatos ainda não está determinado. Já EPA e DHA têm evidências de benefício, embora os estudos em gatos ainda sejam poucos e muitas vezes não individualizem os efeitos de cada ácido graxo.
A partir dessa leitura, dietas sem fontes marinhas, crustáceos ou algas provavelmente não entregam EPA e DHA em níveis relevantes, mesmo quando utilizam fontes vegetais de ômega-3. Já dietas que usam essas fontes podem fornecer ácidos graxos de cadeia longa, desde que a formulação considere concentração, forma química, biodisponibilidade e consumo real.
Para a avaliação técnica da dieta de gatos, a formulação lipídica passa a exigir perguntas mais específicas: qual fonte foi usada, qual ácido graxo ela entrega, quanto o animal consome e o que é possível inferir a partir do rótulo. A palestra indicou que a discussão sobre gordura em felinos precisa avançar da categoria geral de ômega para a entrega efetiva de moléculas como EPA, DHA e ácido araquidônico.
Para nutricionistas de pets, a palestra reforça que avaliar a dieta de gatos exige ir além de “gordura bruta”, “ômega-3” e “ômega-6”. O olhar técnico precisa chegar à identidade molecular dos ácidos graxos, à fonte utilizada e à quantidade efetivamente ingerida. Para empresas de pet food, o conteúdo apresentado indica que a precisão na formulação e na informação técnica pode sustentar uma comunicação mais consistente sobre alimentos para gatos.
O que fica para nutricionistas e formuladores
A palestra de Luciano Trevizan deixa cinco mensagens centrais para quem formula, avalia ou comunica dietas para gatos. A primeira é que ômega-3 e ômega-6 são categorias amplas demais para explicar sozinhas a entrega nutricional. A segunda é que ALA, EPA e DHA não devem ser tratados como equivalentes. A terceira é que o ácido araquidônico é essencial para gatos, mas pode não aparecer nos níveis de garantia. A quarta é que a fonte e a forma química da gordura influenciam digestibilidade e biodisponibilidade. A quinta é que o consumo real do animal pode alterar a entrega diária dos ácidos graxos, especialmente de EPA e DHA.
