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Futuro da pecuária será medido em carbono e Brasil prevê descarbonização

Estudo apresentado na FAO projeta redução de até 60% das emissões da pecuária de corte até 2050, enquanto novas ferramentas de mensuração e certificação reforçam a competitividade da carne brasileira nos mercados internacionais

A delegação brasileira apresentou, em junho 2026, na sede da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma, uma resposta contundente baseada em ciência para os desafios climáticos e de segurança alimentar.

Durante a Quarta Sessão do Subcomitê de Pecuária do Comitê de Agricultura (COAG), a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), em parceria com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) e a Missão do Brasil em Roma — representação diplomática coordenada pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) —, lançou internacionalmente o estudo “Trajetórias de Descarbonização da Pecuária de Corte no Brasil – 2025 a 2050”, desenvolvido pelo Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro).

A demanda por proteína animal aumenta, os três blocos que controlam 70% do rebanho global registram quedas históricas: o Mercosul opera em seu nível mínimo de 6 anos, a América do Norte enfrenta o menor rebanho em 70 anos e a União Europeia, o menor em 30 anos.

Na contramão da retração externa, o Brasil se consolidou com o maior rebanho comercial do planeta (192,6 milhões de cabeças em 2024), mostrando que o crescimento produtivo coexiste com a preservação. O país utiliza apenas 30,2% de seu território para a agropecuária, mantendo 66,3% da vegetação nativa preservada — sendo que 33,2% está resguardada por lei dentro das propriedades rurais privadas. Esta atuação conjunta entre a produção eficiente e a diplomacia ambiental tem sido um pilar defendido pelo MRE em fóruns multilaterais para fortalecer a cooperação internacional.
 

Mais produção, menos área – o modelo que sustenta a descarbonização da pecuária 

O desacoplamento entre área e produção na pecuária de corte brasileira já é um histórico consolidado. Entre 2004 e 2024, a produção nacional de carne bovina disparou mais de 240%, enquanto a área total de pastagens encolheu 11% (reduzindo de 181 para 160 milhões de hectares). Esse salto gerou o chamado “efeito poupa-terra”, que poupou 397 milhões de hectares — área que teria sido necessária se o país mantivesse os mesmos índices de produtividade de 1990.

A pesquisadora da FGV Agro, Camila Estevam, detalhou os dados técnicos do estudo que traduzem esse ganho de eficiência em metas climáticas:

“O primeiro grande resultado do modelo matemático foi mostrar que as tendências que o setor já executa reduzem em até 60% as emissões absolutas até 2050. Quando olhamos para a intensidade de carbono, a redução chega a 80% no cenário de referência, baixando de 80 kg para 16 kg de CO2 equivalente por quilo de carne. Nos cenários mais ambiciosos com o Plano ABC+, a intensidade cai 92,6%, chegando a apenas 5 kg. Isso acontece porque o carbono fixado no solo pela ILPF e pela recuperação de pastagens atua diretamente na remoção dessas emissões.”
 

O estudo comprova que no cenário mais arrojado de mitigação, o Brasil conseguirá estabilizar sua produção em patamares elevados (18,2 milhões de toneladas de carcaça em 2050) reduzindo a área necessária de pastagens em mais 35%, amparado pelo aumento de 31% no peso médio da carcaça do animal abatido (que saltará de 211 kg para 277 kg).
 

Sustentabilidade precisa de números: as ferramentas que podem validar a carne de baixo carbono

Se a descarbonização tende a se consolidar como um dos principais diferenciais competitivos da pecuária brasileira, a capacidade de medir e comprovar os resultados alcançados será igualmente decisiva. Nesse contexto, pesquisas apresentadas durante o SETAC Europe 36th Annual Meeting, realizado em Maastricht, na Holanda, em maio de 2026, reforçam a importância de ferramentas capazes de transformar avanços ambientais em indicadores confiáveis para produtores, indústrias e mercados consumidores.

Entre os trabalhos apresentados está a Calculadora Pecuária de Baixo Carbono, desenvolvida para estimar a pegada de carbono da produção brasileira de carne e leite. A ferramenta combina metodologias do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) com avaliação de ciclo de vida, permitindo quantificar tanto as emissões quanto às remoções de gases de efeito estufa ao longo da cadeia produtiva. A proposta é apoiar iniciativas como os programas Carne Baixo Carbono e Leite Baixo Carbono, além de subsidiar estratégias de mitigação e processos de certificação ambiental.

Outro avanço destacado pelos pesquisadores foi a construção de inventários harmonizados para diferentes sistemas de produção pecuária em pastagens. A metodologia reúne revisão científica, modelagem computacional e validação por especialistas para caracterizar sistemas extensivos, semi-intensivos e intensivos. Ao todo, foram desenvolvidos 25 inventários contemplando diferentes tipos de pastagens e estratégias de manejo, criando uma base técnica mais robusta para a comparação de resultados e a padronização de métricas ambientais.

Segundo os autores, a disponibilização desses dados pode aumentar a transparência metodológica dos estudos, fortalecer programas de certificação e ampliar a credibilidade das informações apresentadas pelo setor aos mercados internacionais. Em um cenário em que consumidores, importadores e órgãos reguladores exigem cada vez mais evidências concretas de sustentabilidade, medir corretamente as emissões passa a ser tão importante quanto reduzi-las.

Os trabalhos apresentados no evento mostram que a transição para sistemas produtivos de menor impacto ambiental depende não apenas da adoção de tecnologias mitigadoras, mas também do desenvolvimento de métricas capazes de demonstrar seus resultados. Nesse sentido, a combinação entre inovação tecnológica, ciência de dados e metodologias padronizadas pode desempenhar papel central na consolidação da pecuária brasileira como referência global em produção sustentável.

Fontes: ApexBrasil e Embrapa (com adequações da redação agriNews)

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