No World Nutrition Forum, Jack Bobo relaciona a confiança na inovação aos desafios de um setor que precisa enfrentar riscos, rever estratégias de crescimento e produzir alimentos com menor impacto ambiental.
Por Priscila Beck, de Kuala Lumpur, Malásia
Demonstrar cientificamente que uma inovação funciona não garante sua aceitação pelo mercado. Para Jack Bobo, diretor-executivo do Rothman Family Institute for Food Studies, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), superar essa resistência exige construir confiança entre o setor de alimentos e a sociedade.
Essa relação, segundo ele, ganha importância quando as mudanças envolvem a maneira de produzir, os custos da atividade e as expectativas de quem consome.
“A inovação avança na velocidade da confiança”, afirmou durante o World Nutrition Forum 2026, nesta quinta-feira (22/10), em Kuala Lumpur, Malásia.
Diante de profissionais da nutrição e da produção animal, Bobo conectou a aceitação de tecnologias a uma discussão sobre o futuro dos negócios. Sua análise questionou a busca por eficiência em um ambiente de maior instabilidade e a expectativa de que os mercados continuarão recompensando o aumento da produção. Para enfrentar esses cenários, defendeu que o setor amplie sua capacidade de colaboração e de diálogo com a sociedade.
“A ciência nos diz o que podemos fazer, mas o público nos diz o que devemos fazer”, declarou.
Quando eficiência aumenta exposição ao risco
Bobo observou que as empresas historicamente buscaram extrair o máximo retorno de cada recurso. Essa lógica, afirmou, precisa ser reavaliada diante de riscos geopolíticos, eventos climáticos e interrupções nas cadeias de abastecimento.
“Em um mundo de instabilidade e turbulência, eficiência pode significar fragilidade”, afirmou.
Seu argumento é que a otimização das operações pode ampliar a exposição a perdas quando as condições mudam.
Por isso, segundo ele, a avaliação do desempenho empresarial precisa considerar também a capacidade de absorver choques e estabilizar os resultados. Na análise do especialista, decisões orientadas apenas pelo funcionamento esperado do negócio podem deixar de considerar situações que comprometem sua continuidade. A resiliência passa a ter valor justamente por ajudar a administrar esses riscos.
Sustentabilidade como proteção do negócio
A discussão levou Bobo a questionar como a sustentabilidade é apresentada dentro das empresas. Quando ela é entendida apenas como custo, argumentou, fica vulnerável aos cortes realizados em períodos de dificuldade financeira.
“Deveríamos pensar na sustentabilidade da mesma forma que pensamos na resiliência, porque resiliência é como um seguro”, disse.
O especialista citou secas e enchentes para explicar a relação entre essa proteção e a estabilidade dos retornos. Em sua leitura, a linguagem usada para discutir sustentabilidade influencia a forma como as organizações avaliam seu valor e distribuem seus custos.
Ao responder a uma pergunta sobre produção de alimentos e proteção ambiental, Bobo retomou a necessidade de compreender o que diferentes públicos esperam do setor. Enquanto profissionais da atividade falam em eficiência, inovação e ciência, outros interlocutores podem estar buscando a redução do impacto ambiental. Reconhecer essa preocupação ajuda a explicar como as soluções propostas pretendem contribuir para o mesmo objetivo.
Mercados que podem exigir outra estratégia de crescimento
Bobo também convidou o setor a olhar além do aumento imediato da demanda. Ao explorar cenários de estabilização e posterior redução populacional, questionou estratégias apoiadas na expansão contínua dos volumes produzidos.
Para ilustrar o argumento, citou a importância do mercado chinês para os setores de suínos e pescado e defendeu que essas cadeias considerem as mudanças demográficas em seu planejamento de longo prazo. “O futuro não recompensará a quantidade. Recompensará a qualidade”, afirmou, ao discutir esse cenário.
Na interpretação do palestrante, mercados com crescimento menor ou em retração exigirão maior capacidade de diferenciação. A provocação foi dirigida à maneira como as empresas se preparam para competir e gerar valor quando produzir mais pode deixar de ser suficiente para sustentar os retornos.
Essa reflexão se conecta à distinção que apresentou entre planejar para o cenário mais provável e explorar futuros possíveis. Segundo Bobo, as organizações podem se preparar para uma continuidade do passado sem perceber que o destino esperado não corresponde àquele que desejam construir.
“Precisamos parar de nos preparar para o futuro que esperamos e começar a criar o futuro que queremos”, declarou.
Confiança precisa vir antes do lançamento
A confiança aparece nessa discussão como uma condição para que as inovações propostas sejam aceitas. Na sessão de perguntas, Bobo foi questionado sobre como agir quando uma tecnologia já demonstrou resultados científicos, mas continua encontrando resistência no mercado.
Sua resposta retomou uma experiência de quando trabalhava no governo dos Estados Unidos. “Se as pessoas não confiam em você, não querem ver sua ciência”, afirmou.
“E, se confiam em você, não precisam ver sua ciência”, completou. Ainda assim, observou, “sempre começamos pela ciência, porque gostamos muito dela”.
Bobo usou o contraste para explicar como a confiança influencia a disposição do público para ouvir uma explicação científica. Sua recomendação foi construir relacionamentos antes do momento em que uma organização precisa apresentar uma inovação ao mercado.
“Precisamos construir esses relacionamentos antes de precisar deles”, disse. Na alimentação, essa tarefa envolve vínculos que ultrapassam a avaliação técnica de um produto.
Bobo lembrou que a comida reúne famílias e amigos e está associada à identidade das pessoas. Uma mudança no que se come pode, por isso, ser recebida como interferência em algo pessoal. “Se você mexe com a minha comida, está mexendo com a minha família”, afirmou.
Uma comunicação que pode criar resistência
O especialista alertou que empresas e profissionais podem contribuir para as barreiras que pretendem superar. Apresentar um problema e oferecer imediatamente uma solução, por exemplo, pode despertar desconfiança quando o público percebe uma intenção de venda.
Ao abordar o viés de confirmação, Bobo usou as próprias reações como exemplo. Diante de uma notícia sobre alimentos orgânicos que contrariasse suas convicções, disse que investigaria autores, financiamento e metodologia. Se a conclusão confirmasse o que já pensa, sua disposição para compartilhar poderia surgir antes dessas mesmas perguntas.
O exemplo foi um convite para que profissionais da ciência examinem também os próprios critérios de avaliação. Segundo ele, reconhecer esses vieses é necessário para compreender como outras pessoas interpretam informações e evidências.
Bobo também citou o conflito entre segmentos de proteínas alternativas e da produção animal para mostrar como mensagens percebidas como ameaça podem alimentar reações defensivas. Em sua análise, os envolvidos identificam os ataques que recebem, mas nem sempre percebem como contribuem para o confronto.
“Quando você nomeia um grupo ou uma organização como o vilão da sua história, automaticamente se torna o vilão da história deles”, afirmou.
Para o especialista, reduzir a polarização é necessário para enfrentar problemas que dependem de colaboração.
Ele defendeu que a comunicação apresente os desafios com contexto histórico, reconhecendo os avanços já alcançados para mostrar que novas mudanças são possíveis. Mensagens concentradas apenas em catástrofe, avaliou, podem produzir apatia.
Ao encerrar a palestra, Bobo propôs que o setor repense a maneira de envolver as pessoas nas transformações que pretende realizar. “Precisamos parar de pedir às pessoas que se sacrifiquem pelo futuro e convidá-las a abraçá-lo.”
