Micotoxinas: critérios técnicos para o uso de adsorventes
A contaminação dos grãos por micotoxinas pode causar um grande impacto na saúde humana e animal, bem como perdas econômicas para a agroindústria, principalmente devido à perda do valor dos grãos e à queda no desempenho produtivo dos animais.
Em animais de produção, apenas o nível de contaminação da dieta com determinada micotoxina não determina uma situação clínica única, uma vez que a manifestação dos sinais clínicos provocados pelas micotoxinas é decorrente de múltiplos fatores. Estes fatores podem afetar de formas distintas os parâmetros zootécnicos e sanitários dos animais e, consequentemente, os sinais clínicos observados a campo podem não condizer com os laudos de análises gerados pelos laboratórios.
Com o avanço de pesquisas científicas, diversas variáveis puderam ser incluídas no desenvolvimento de um sistema mais holístico de diagnóstico das micotoxicoses, permitindo delimitar cada fator de risco, de forma que estes possibilitem a obtenção de um índice numérico. Desta forma, com base no histórico de monitoramento contínuo da ocorrência de cada micotoxina, aliado a fatores como a idade, sexo, sanidade, nutrição e manejo, é calculado o Risco Micotoxinas (RM).
As variáveis e o algoritmo utilizado para o cálculo do RM estão demonstrados abaixo:
O numerador da equação é formado pela contaminação média e pela prevalência de cada micotoxinas, a partir do número de análises efetuadas dentro de determinado período. Somado a isso, tem-se a contaminação total das micotoxinas detectadas, ou seja, em uma amostra analisada para mais de uma micotoxina, a co-ocorrência micotoxicológica aumenta o RM na dieta.
A resultante de todos esses fatores é multiplicada proporcionalmente para cada ingrediente da dieta, sua taxa de inclusão e pelo tempo de consumo, onde a última semana de consumo recebe um peso maior do que as semanas anteriores. O denominador refere-se aos fatores que influenciam a vulnerabilidade do animal. Esses fatores incluem a idade, sexo, espécie animal e, algo recém-descoberto, o impacto que as micotoxinas têm na composição nutricional da matéria prima, alterando níveis de proteína e energia. Somam-se a isso a genética e os fatores ambientais e sanitários.
As figuras abaixo exemplificam o RM para aflatoxina B1 (figura 1) e para fumonisinas B1+B2 (figura 2) em uma empresa produtora de suínos por um período de 12 meses. A linha azul representa os dados fornecidos pelo monitoramento (numerador da equação detalhada acima) e as faixas coloridas são a resultante dos indicadores de risco, determinados pelos fatores do denominador da equação. Essa composição indica a pressão do desafio ao rebanho, possibilitando a tomada de decisões que minimizem o impacto das micotoxinas no sistema produtivo de forma mais técnica e eficaz.
O emprego adequado do RM exige um fluxo mínimo de análises diárias que, posteriormente, serão agrupadas. As análises podem ser efetuadas por diversos métodos analíticos, contudo, metodologias mais rápidas, como o NIRS, fornecem informações em menor tempo. Isso possibilita uma visão geral e em tempo real sobre o risco de exposição micotoxicológica nas diversas fases de produção, antecipando o diagnóstico de problemas futuros.
Controle de micotoxinas na alimentação animal: uso de aditivos anti-micotoxinas
O tratamento da micotoxicose representa um dos maiores desafios na clínica veterinária. Quanto à utilização de aditivos anti-micotoxinas (AAMs) nas dietas, existe uma oferta muito grande de produtos disponíveis no mercado. De modo geral, os AAMs atuam como ligantes e/ou transformadores de micotoxinas, com a função de adsorver e/ou biotransformar as micotoxinas no trato gastrointestinal (TGI) dos animais, impedindo ou reduzindo a absorção desses metabólitos, sem que haja prejuízo na absorção dos nutrientes da dieta.
Existem diferentes aditivos com capacidade de diminuir a absorção das micotoxinas pelo TGI. AAMs à base de argilas, como os aluminossilicatos de cálcio e de sódio hidratados, quando incluídos na dieta fornecem consistente proteção contra a queda de desempenho produtivo e ocorrência de lesões causadas pelas aflatoxinas ou/e fumonisinas. As bentonitas de sódio ou de cálcio também têm eficiência amplamente conhecida como adsorventes de aflatoxina. Entretanto, estes produtos que normalmente apresentam resultado satisfatório como inibidores de absorção de aflatoxina, são pouco eficientes na redução dos efeitos negativos causados por micotoxinas de estruturas diferentes, como os tricotecenos, cuja principal micotoxina é o deoxinivalenol (DON).
Alguns produtos à base de leveduras e glucomananos, como betaglucanos, oligassacarídeos de parede celular de levedura e aditivos onde há uma combinação destes compostos orgânicos com inorgânicos podem apresentar capacidade de adsorver moléculas de diferentes estruturas e polaridades, reduzindo o impacto negativo causado por micotoxinas que são pouco adsorvidas pelos aluminossilicatos, como zearalenona, fumonisinas e tricotecenos. A utilização desta categoria de aditivo se torna uma estratégia importante a ser adotada pelos nutricionistas como forma de reduzir os efeitos negativos que podem ocorrer nos animais a campo, uma vez que a presença concomitante de diferentes micotoxinas na dieta é mais provável de acontecer do que uma contaminação única, pois muitos fungos micotoxigênicos produzem seus metabólitos sob condições semelhantes.
A pesquisa científica já demonstrou a eficácia de diversos AAMs, sejam eles sintéticos, naturais ou modificados pela adição de compostos enzimáticos ou biológicos. No entanto, um número importante de produtos ainda não atende os critérios mínimos de eficácia, sendo, portanto, necessário um controle dos mesmos. Para que um AAM seja comercializado no Brasil, este deve ser devidamente registrado no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). A lei brasileira para aditivos é uma das mais rígidas do mundo e se torna uma garantia de que os produtos disponíveis no mercado passaram por critérios técnicos rigorosos e, portanto, oferecem eficácia e segurança. Em termos práticos, o registro somente é obtido após a realização de um teste in vivo que demonstre a eficácia do produto por meio de parâmetros de desempenho zootécnico ou de demais parâmetros relevantes para o uso específico do aditivo.
Também é recomendada a realização periódica de ensaios in vitro que comprovem a capacidade de adsorção do produto bem como, sua periodicidade atesta a repetibilidade do processo de produção, confirmando sua identidade. Também vale ressaltar que para o registro e comprovação da eficácia de um AAM é importante que os estudos sejam conduzidos com foco no objetivo principal do produto para cada categoria animal.
Nos últimos anos, ferramentas de gestão como o RM tem se tornado importantes aliadas dos profissionais da agroindústria, especialmente os nutricionistas, para uma utilização mais eficiente e sustentável dos AAMs. A tomada de decisão baseada em um histórico de análises se torna muito mais segura e econômica, uma vez que uma menor dose de AAM precisa ser utilizada quando o RM for baixo, por exemplo. Por outro lado, quando o RM está alto, pode-se aumentar a dose do aditivo ou até mesmo utilizar um produto com maior eficácia comprovada para determinada toxina, o que diminuirá o impacto negativo das micotoxinas a campo.
Impacto do risco das micotoxinas e da utilização de aditivos anti-micotoxinas no custo da ração
Avaliações de rotina conduzidas nos últimos anos com a utilização do algoritmo do RM para segregar diferentes silos e armazéns de milho já demonstraram que a inclusão de AAM em dietas com diferentes graus de risco pode causar um grande impacto no custo final da formulação de rações. No controle realizado em 2024 no sul do Brasil, 94 unidades de armazenamento de milho de uma agroindústria produtora de frangos de corte foram avaliadas utilizando o RM. Informações sobre a composição nutricional do milho, níveis e ocorrência de contaminação micotoxicológica foram preditas por NIRS. Dietas para quatro fases de produção (pré-inicial, inicial, crescimento e final) de frangos de corte foram então formuladas com base nos resultados obtidos de cada silo e com a taxa de inclusão de AAM requerida com base no RM. Com isso, foi possível estimar o custo (R$/ton) de produção total de ração para um frango de corte criado até os 42 dias de idade.
O custo do AAM empregado foi de R$22/kg e, neste cenário, um silo com milho que requeria 0,3% de inclusão de AAM na dieta proporcionou uma fórmula R$ 44,00 mais cara do que outros silos que requeriam 0,1% de inclusão de AAM. Assim o silo que apresentou menor média de custo de ração para a vida de um frango de corte apresentou um custo médio de R$ 1.374/ton e o silo de maior custo foi de R$ 1.487/ton, uma diferença de R$ 108/ton de ração.
Considerando que, a partir de um silo de milho com capacidade de 3.000 toneladas, produz-se cerca de 5.000 toneladas de ração para frangos de corte, a diferença total para produzir 5.000 toneladas de ração é de R$ 540.000 na comparação dos dois silos. No cenário desta empresa, essa diferença foi estimada em 85 milhões de reais no período de um ano. É importante destacar que a diferença de custo entre os silos se deve não apenas a inclusão do AAM na dieta, mas também a concentração de nutrientes e na qualidade do milho, que também influenciaram o custo final das fórmulas abrangidas pelo sistema.
Conclusão
O conjunto de esforços conduzidos nos últimos anos, articulados em distintas frentes de investigação e aplicação, resultou em sistemas capazes de integrar informações de toda a cadeia produtiva. Esses sistemas permitem não apenas a identificação precoce de fragilidades, mas também intervenções direcionadas nos pontos críticos responsáveis por perdas econômicas relevantes. A abordagem proposta neste artigo técnico extrapola a análise isolada de variáveis e oferece uma perspectiva crítica sobre as soluções voltadas à sustentabilidade do agronegócio e da produção animal, dialogando com ciência, tecnologia e gestão estratégica.
Por fim, os principais benefícios da ferramenta de gestão aqui apresentada são:
- Tomada de decisão em tempo real: monitoramento contínuo de fábricas e lotes de ração, permitindo ações imediatas e assertivas;
- Gerenciamento de silos: mapeamento preciso dos grãos armazenados, possibilitando o direcionamento estratégico de matérias-primas com diferentes níveis de contaminação, otimizando o uso de AAMs e reduzindo perdas financeiras;
- Transparência e integração: a democratização da informação amplia a capacidade de técnicos e colaboradores tomarem decisões fundamentadas, substituindo práticas de responsabilização setorial por uma gestão compartilhada de resultados.
Referências sob consulta junto ao autor
