Ícone do site nutriNews Brasil, Informações nutrição animal

Micotoxinas deixam de ser ameaça invisível e entram no radar da produção animal

Dados de monitoramento mostram pressão elevada de fumonisinas e zearalenona na América Latina, enquanto novas ferramentas buscam identificar não apenas a contaminação da ração, mas também seus efeitos sobre o animal

Por redação nutriNews Brasil.

As micotoxinas já não podem ser tratadas apenas como um problema de qualidade dos ingredientes. Para a produção de aves, suínos e aquicultura, o desafio está migrando para uma etapa anterior, de identificar o risco antes que ele apareça no desempenho dos animais.

Esse foi um dos principais pontos apresentados pela dsm-firmenich durante o 1º Encontro com Jornalistas, realizado nesta quarta-feira (9), em São Paulo. O evento reuniu especialistas da companhia para discutir tendências do mercado de monogástricos, cenário de matérias-primas e, principalmente, os impactos das micotoxinas sobre saúde, produtividade e rentabilidade.

“Temos como objetivo hoje não só falar dos riscos, mas como o uso da tecnologia de precisão pode antecipar os possíveis riscos, através de informação e Ciência”, explicou Luiz Magalhães, presidente da dsm-firmenich Latam.

A abordagem ganha relevância diante da dimensão do monitoramento realizado pela companhia. A edição mais recente do World Mycotoxin Survey, referente ao primeiro semestre de 2026, analisou 10.410 amostras, 59.180 análises e 78 países, permitindo comparar níveis de contaminação, regiões de risco e padrões de co-contaminação.

O problema não está apenas na toxina, mas na combinação

Entre as principais micotoxinas monitoradas estão aflatoxinas, fumonisinas (FUM), deoxinivalenol (DON) e zearalenona (ZEN). Cada uma apresenta mecanismos e efeitos distintos, mas o desafio para a produção animal está também na ocorrência simultânea de diferentes contaminantes.

Na América Latina, a fumonisina permanece entre os principais pontos de atenção. Levantamentos anteriores da dsm-firmenich apontaram presença da toxina em 71% das amostras da América Central e do Sul, reforçando o peso do milho e de seus derivados na gestão do risco regional.

No Brasil, dados do levantamento de 2024 mostraram fumonisinas em 69% das amostras de milho analisadas, com média de 1.044 ppb entre as amostras positivas. A zearalenona apareceu em 22% das amostras brasileiras naquele recorte.

Segundo relatório apresentado por Augusto Henk, gerente de risco para micotoxinas LATAMdsm-firmenich, o cenário muda conforme o país, a matéria-prima e as condições climáticas. Na Argentina, por exemplo, o mesmo levantamento registrou presença de fumonisinas em 81% das amostras de milhoMais do que apontar qual toxina aparece com maior frequência, o dado chama atenção para um fenômeno que preocupa a nutrição animal, a co-contaminação tende a ser a regra, e não a exceção.

Clima amplia a imprevisibilidade do risco

O ambiente em que os grãos são produzidos e armazenados também entrou no centro da discussão. Durante o encontro, Adolfo Fontes, Diretor de Inteligência de Negócios da dsm-firmenich – direto da Holanda – relacionou os cenários de El Niño, alternância entre excesso de chuva e períodos de seca e maior frequência de extremos climáticos às mudanças no risco das matérias-primas.

Augusto complementou as observações de Fontes, ao explicar o que as mudanças climáticas extremas podem causar, na prática. Segundo Henk, o problema começa ainda no campo.

“Estresse hídrico, seguido por condições favoráveis ao desenvolvimento de fungos, pode criar condições para a produção de micotoxinas. Depois da colheita, armazenamento inadequado pode acrescentar outra etapa de risco.”

Para a indústria de alimentação animal, isso significa que a qualidade do ingrediente precisa ser acompanhada de maneira dinâmica, especialmente em um mercado no qual milho, soja e outros componentes da formulação sofrem simultaneamente com preços, disponibilidade, clima e logística.

Quando o animal come, mas não converte

Um dos aspectos mais relevantes da discussão foi justamente o efeito subclínico das micotoxinas, ou seja, efeitos submersos à ponta do iceberg.

Nem toda contaminação provoca sinais evidentes de intoxicação. Em níveis capazes de passar despercebidos visualmente, as toxinas podem estar associadas a alterações de desempenho, pior conversão alimentar, comprometimento intestinal, imunossupressão e respostas menos eficientes à vacinação.

Nos suínos, considerados particularmente sensíveis, o impacto pode ser expressivo. Fumonisinas, por exemplo, estão associadas a problemas respiratórios graves, enquanto a zearalenona apresenta especial importância para fêmeas reprodutoras e eficiência da reprodução. A própria dsm-firmenich destaca que a exposição pode ocorrer tanto com manifestações clínicas quanto por redução subclínica do desempenho.

É justamente nesse ponto que o custo deixa de estar apenas no ingrediente contaminado. O prejuízo pode aparecer no animal que consome a ração, mas não transforma aquele consumo em ganho produtivo.

A nova fronteira: descobrir o que a ração não revela

A pergunta apresentada pela equipe da dsm-firmenich durante o encontro resume o desafio: como tornar o invisível visível?

A resposta apresentada passa pela combinação de análise de ingredientes, dados produtivos, biomarcadores e inteligência artificial.

Imagem: dsm-firmenich

O Verax™, serviço de precisão da companhia, utiliza biomarcadores sanguíneos, dados de produção e observações de necropsia para identificar alterações de saúde e nutrição antes que determinados problemas se tornem evidentes clinicamente. A ferramenta utiliza algoritmos de machine learning para transformar diferentes conjuntos de dados em recomendações para o produtor.

Na prática, a proposta muda a lógica da intervenção: em vez de esperar a queda de desempenho para investigar a causa, a tecnologia busca encontrar sinais anteriores de que o animal está sendo afetado.

Para Letícia Cardoso Bittencourt, gerente de precision services para a América Latina e consultora Verax™ da dsm-firmenich, esse movimento também muda a própria gestão das micotoxinas. A mitigação passa por seleção e armazenamento adequados dos grãos, monitoramento analítico, uso direcionado de aditivos, adsorção de determinadas toxinas e biotransformação de outras, porém com uma nova camada: prevenção baseada em dados e diagnóstico do impacto real sobre o animal.

O resultado é uma mudança de paradigma. Em um cenário de clima mais instável, matérias-primas voláteis e maior pressão por eficiência, controlar micotoxinas pode significar muito mais do que retirar uma toxina da ração. Pode significar antecipar uma perda antes que ela apareça nos indicadores da granja.

Sair da versão mobile