O cenário de juros elevados, câmbio favorável às exportações e possibilidade de valorização dos grãos deve manter as commodities no centro das atenções do agronegócio brasileiro nos próximos meses. Análise do Rabobank, que projeta Selic em 14% ao ano até abril de 2027 e dólar a R$ 5,35 no fim de 2026, aponta para um ambiente de maior volatilidade externa e pressão sobre custos.
As projeções estão próximas das estimativas da Safras & Mercado. Segundo Fernando Iglesias, coordenador de Inteligência de Mercado da consultoria Safras & Mercado, a expectativa é de Selic na faixa de 14% e dólar entre R$ 5,30 e R$ 5,40. Para o agronegócio, esse patamar cambial tende a favorecer a competitividade das exportações, mas os juros elevados criam um contraponto ao encarecer o crédito e limitar investimentos.
“Nós estamos imaginando uma Selic nessa faixa dos 14% também aqui no Safras & Mercado e um câmbio de R$ 5,30 a R$ 5,40 operando nessa banda”, afirma Iglesias.
Dólar favorece exportações, mas juros limitam investimentos
Na avaliação do analista, a relação entre câmbio e exportações é positiva para as principais cadeias do agronegócio. Um dólar mais valorizado melhora a conversão das receitas externas para reais e aumenta a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional.
“Essa paridade cambial é muito boa para a exportação. Então ela motiva a exportação de commodities, de grãos, de proteínas de origem animal, de algodão, entre outras commodities que nós temos aqui no país”, explica.
O benefício cambial, porém, ocorre em um ambiente de crédito restritivo. Para Iglesias, a manutenção dos juros elevados reduz o estímulo aos investimentos produtivos e pode levar empresas a priorizarem aplicações financeiras em vez de novos aportes nos negócios.
“O grande problema é que essa combinação de juros muito altos ainda acaba estrangulando a atividade econômica, torna o crédito mais caro e vai fazer com que muitos empresários Brasil afora sigam optando pela renda fixa como principal alternativa e não reinvestindo dentro do próprio negócio”, avalia.
O efeito dessa combinação chega também às cadeias de proteína animal, nas quais as decisões de compra de insumos e gestão de custos são determinantes para a rentabilidade.
Grãos entram no centro das preocupações
É nesse ponto que o comportamento de milho, soja e farelo ganha importância. Para avicultores e suinocultores, uma alta significativa dos grãos representa pressão direta sobre o custo da alimentação e pode reduzir as margens de produção.
“Para o caso da suinocultura, para o caso da avicultura, o cenário pode ficar mais dramático se nós observarmos uma alta contundente dos preços dos grãos”, afirma Iglesias.
O risco é ampliado pelas incertezas climáticas para a próxima temporada. Segundo o analista, o El Niño já está no radar do mercado e pode acrescentar volatilidade às cotações e à oferta de soja e milho.
A preocupação é especialmente relevante porque a alimentação representa uma parcela expressiva dos custos de produção de aves e suínos. Assim, movimentos persistentes nos preços dos grãos podem alterar rapidamente a relação entre custo de produção e preço de venda das proteínas.
O câmbio acrescenta uma segunda variável a essa equação. Ao mesmo tempo em que o dólar mais valorizado melhora a remuneração das exportações, ele pode contribuir para manter firmes os preços domésticos de commodities com referência internacional.
Consumo doméstico pode limitar repasse de custos
A pressão sobre as margens se torna mais sensível em um ambiente de demanda interna enfraquecida. Para Iglesias, juros elevados, endividamento e menor dinamismo econômico podem restringir o consumo brasileiro de proteínas.
“As dificuldades em torno do crescimento econômico remetem a consumo deprimido no país”, afirma.
Nesse cenário, produtores e indústrias podem encontrar maior dificuldade para repassar integralmente eventuais aumentos de custos ao consumidor. A consequência é uma pressão adicional sobre as margens, especialmente se os preços de milho e farelo avançarem mais rapidamente que as cotações das carnes.
Por outro lado, o mercado externo aparece como uma alternativa para sustentar a demanda pelas proteínas brasileiras. Iglesias mantém uma perspectiva positiva para as exportações de frango e carne suína nos próximos meses.
“Para as exportações, eu continuo vendo tanto a carne suína quanto a carne de frango ganhando cada vez mais tração nos próximos meses, ganhando cada vez mais espaço dentro dessa corrente de comércio global.”
Estoques podem reduzir exposição à volatilidade
Diante da combinação entre risco climático, juros elevados, câmbio e possíveis oscilações nos preços dos grãos, a gestão de estoques surge como uma das alternativas apontadas pelo analista para reduzir a exposição às variações do mercado.
“Tem uma estratégia muito pertinente hoje para você trabalhar, que é na composição de estoques. Se você tiver condições técnicas de fazer isso, enfim, você pode carregar estoque de um ano para o outro, tanto de soja quanto de milho, para você conseguir atravessar por esse período mais complexo dentro do mercado”, explica Iglesias.
A estratégia pode ser considerada tanto por produtores de soja e milho quanto por empresas das cadeias de aves e suínos que tenham estrutura para armazenar ou antecipar a aquisição de matérias-primas. A lógica é reduzir a exposição a compras em momentos de alta, especialmente diante da possibilidade de alterações na oferta provocadas pelo clima.
A decisão, entretanto, exige avaliação financeira e operacional. Capacidade de armazenagem, capital disponível, qualidade do produto e custo de carregamento precisam ser considerados. Com a Selic ainda elevada, manter estoques também implica custo financeiro e, portanto, não significa necessariamente que comprar antecipadamente será sempre vantajoso.
Para as cadeias de grãos e proteína animal, o cenário projetado pelo Rabobank e pela Safras & Mercado reforça a importância da gestão de risco. O câmbio pode abrir espaço para as exportações, enquanto juros, clima e preços da alimentação podem pressionar os custos. Nesse ambiente, acompanhar a formação das cotações de milho, soja e farelo e ajustar o momento de compra e venda pode ser decisivo para preservar as margens nos próximos meses.
Por redação nutriNews Brasil.
