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Minerais viram ponto focal na disputa por alimentos urinários para gatos

Na palestra do XXV Congresso CBNA PET, Dennis Jewell mostrou que a formulação felina deixou de depender apenas do controle de magnésio e pH: o desafio agora é equilibrar estruvita, oxalato de cálcio e saúde renal com manejo fino de cálcio, fósforo, sódio, potássio e citrato.

Na palestra do XXV Congresso CBNA PET, Dennis Jewell mostrou que a formulação felina deixou de depender apenas do controle de magnésio e pH: o desafio agora é equilibrar estruvita, oxalato de cálcio e saúde renal com manejo fino de cálcio, fósforo, sódio, potássio e citrato.

Durante anos, a resposta nutricional à saúde urinária dos gatos foi marcada por duas frentes bem conhecidas da indústria pet: reduzir magnésio e controlar o pH urinário. Na palestra “Formulando Minerais com vistas à saúde do trato urinário dos gatos”, apresentada em 13/05 no XXV Congresso CBNA PET, Dennis E. Jewell, professor adjunto na Kansas State University, mostrou que essa lógica, embora ainda relevante para estruvita, já não é suficiente para sustentar uma formulação felina tecnicamente robusta.

O novo desafio é mais complexo, segundo ele, reduzir o risco de estruvita sem ampliar indevidamente o risco de oxalato de cálcio; modular o pH sem empurrar a urina para extremos; usar sódio e potássio como ferramentas de diluição urinária sem ignorar a carga renal; controlar fósforo não apenas pelo teor total, mas pela disponibilidade; e trabalhar a relação cálcio:fósforo como parte da arquitetura de segurança do alimento.

Para nutricionistas, formuladores e equipes de P&D, a mensagem é que a saúde urinária felina deixou de ser um claim resolvido por uma única variável. Ela exige formulação mineral de precisão.

Do controle da estruvita ao dilema do oxalato

Segundo Jewell, estruvita e oxalato de cálcio concentram a atenção quando se discute urólitos em gatos. O palestrante lembrou que, historicamente, muitos casos de estruvita estiveram associados a alimentos capazes de produzir urina com pH mais elevado e maior concentração de magnésio. Com o avanço da formulação, essa frente passou a ser melhor manejada por dietas com magnésio controlado e pH urinário moderadamente ácido.

O problema é que a solução para estruvita não encerra a discussão. Jewell ressaltou que o pH urinário mais baixo protege contra estruvita, mas pode ser fator de risco para oxalato de cálcio. A formulação, portanto, precisa evitar respostas excessivamente simples. Não basta acidificar. É necessário construir uma faixa de segurança capaz de reduzir a supersaturação para estruvita sem criar um ambiente urinário desfavorável frente ao oxalato de cálcio.

Na interpretação apresentada pelo palestrante, uma faixa de pH urinário ao redor de 6,2 a 6,4 seria preferível para uma estratégia protetiva contra estruvita, enquanto valores próximos de 6,1 já estariam no limite inferior dessa lógica. A mensagem técnica é relevante porque desloca o debate de “corrigir o pH” para “manejar o risco em múltiplas direções”.

Magnésio não pode mais ser tratado como vilão isolado

Na história da formulação urinária felina, o magnésio foi muitas vezes tratado como protagonista absoluto, sobretudo por integrar a composição da estruvita. Jewell não negou essa importância. Ao contrário, reforçou que o controle de magnésio, associado ao pH urinário adequado, é parte da solução robusta para estruvita.

Isso não significa elevar magnésio sem critério. Significa que o mineral não deve ser interpretado fora do sistema. Para o formulador, a pergunta deixa de ser apenas “quanto magnésio há na dieta?” e passa a ser “como magnésio, pH, cálcio, fósforo, sódio, potássio, volume urinário e supersaturação relativa se combinam no resultado final?”

Esse é justamente o tipo de leitura que separa uma formulação apenas adequada de uma formulação tecnicamente defensável. Em um mercado cada vez mais competitivo, no qual alimentos urinários para gatos precisam sustentar diferenciais diante de veterinários, nutricionistas e tutores informados, o equilíbrio mineral completo se torna argumento de P&D e de posicionamento.

Cálcio e fósforo entram na arquitetura de segurança renal

A discussão sobre cálcio e fósforo foi um dos pontos mais estratégicos da palestra. Jewell chamou atenção para o fato de que o excesso de fósforo altamente disponível pode ser prejudicial à saúde renal. A observação é especialmente relevante porque, na prática, não basta olhar apenas o teor total de fósforo: a fonte e a disponibilidade do mineral mudam a interpretação nutricional.

Segundo o palestrante, fontes mais disponíveis tendem a impor maior desafio ao organismo do gato. Ele contrastou, por exemplo, formas menos aproveitadas com fontes mais prontamente absorvíveis, indicando que a disponibilidade precisa ser considerada quando a indústria discute segurança renal e formulação de longo prazo.

O palestrante também apresentou sua sugestão para alimentos ótimos em saúde urinária e renal: evitar excesso de fósforo e manter a relação Ca:P acima de 1,0 e abaixo de 2,0. Essa leitura recoloca a relação cálcio:fósforo no centro da formulação felina. Ela não é apenas uma proporção regulatória ou uma conta de planilha. É parte da arquitetura fisiológica que conecta trato urinário, rim e segurança nutricional.

Sódio e potássio: diluir a urina sem perder o controle da carga mineral

Jewell também abordou o papel de sódio e potássio como ferramentas de diluição urinária. Segundo ele, íons fortes como cloreto de sódio e cloreto de potássio podem aumentar o volume de urina, porque o organismo precisa hidratar esses íons e eliminá-los. Esse mecanismo ajuda a reduzir a concentração de solutos e, consequentemente, pode reduzir a supersaturação relativa.

Nos estudos mostrados na apresentação, dietas com maior concentração de sódio foram associadas à redução da supersaturação relativa para oxalato de cálcio e estruvita. Em outro conjunto de dados, o aumento de potássio elevou a ingestão de água, aumentou o volume urinário e reduziu a densidade específica da urina. Mesmo sem mudanças extremas, Jewell destacou que a redução da supersaturação para oxalato de cálcio foi significativa.

Para equipes de formulação, a implicação é clara. Sódio e potássio não devem ser tratados apenas como nutrientes de atendimento mínimo ou máximo. Eles são alavancas funcionais, mas precisam ser usados com precisão, considerando objetivo do produto, perfil do gato, segurança renal e efeito sobre marcadores urinários.

Citrato amplia a lógica de prevenção do oxalato de cálcio

Entre as ferramentas nutricionais discutidas para oxalato de cálcio, Jewell destacou o citrato de potássio. Segundo ele, o ingrediente atua por duas vias importantes: desloca o pH urinário em direção mais alcalina e aumenta o citrato na urina, que funciona como inibidor da formação de oxalato de cálcio.

O próprio palestrante observou que esse efeito pode parecer contraintuitivo, já que seria razoável imaginar que o citrato fosse amplamente metabolizado antes de aparecer na urina. Ainda assim, segundo Jewell, a inclusão de citrato na dieta foi associada ao aumento de citrato urinário.

Essa informação é particularmente valiosa porque amplia a lógica de formulação. Reduzir risco urinário não significa apenas diminuir minerais que compõem os cálculos. Também significa favorecer condições que dificultem a cristalização. Na prática, a nutrição passa a atuar não só na concentração dos solutos, mas também na capacidade da urina de impedir que esses solutos avancem para cristais e urólitos.

A dieta ancestral ajuda a formular perguntas, não respostas prontas

Jewell também trouxe uma reflexão sobre a composição corporal de presas como ratos e camundongos, usadas como referência histórica para pensar a nutrição de gatos. Nos dados apresentados, essas presas teriam cerca de 65% de proteína, 25% de gordura, carboidrato negligenciável, cálcio entre 1,5% e 2%, fósforo entre 1% e 1,4%, relação Ca:P entre 1,1:1 e 1,4:1 e magnésio próximo de 21 mg/100 kcal.

O valor dessa comparação, porém, não está em defender uma cópia da dieta ancestral. Jewell ressaltou que a pressão seletiva histórica estava relacionada à sobrevivência, gestação, crescimento e produção de descendentes. Hoje, a nutrição pet busca outro objetivo: prolongar e enriquecer a relação entre pessoas e animais.

Essa distinção é importante para a indústria. A dieta ancestral pode ajudar a entender alguns parâmetros e hipóteses, mas a formulação moderna precisa responder a desafios que vão além da sobrevivência. Ela precisa considerar envelhecimento, doença renal, recorrência de urólitos, segurança mineral e consistência de produto ao longo da vida do gato.

O futuro da categoria urinária está no equilíbrio, não no excesso de correção

A principal contribuição da palestra de Dennis Jewell ao debate do CBNA PET foi mostrar que minerais precisam ser tratados como instrumentos de precisão. O sucesso em alimentos urinários para gatos não virá de uma única variável, mas da capacidade de equilibrar fatores que podem atuar em direções opostas.

Segundo o palestrante, uma estratégia de formulação precisa reduzir a concentração de solutos, controlar o pH, aumentar moléculas inibidoras de cristalização e, por fim, reduzir o risco de formação de cálculos. Ao mesmo tempo, precisa evitar excesso de fósforo disponível, respeitar uma relação Ca:P coerente, controlar cálcio, sódio e potássio quando a saúde renal está em pauta e reconhecer que estruvita e oxalato de cálcio respondem de formas diferentes às mesmas intervenções.

Em um mercado no qual a saúde urinária felina já não pode ser reduzida ao antigo binômio magnésio e acidificação, os minerais assumem um novo papel. Eles deixam de ser apenas componentes da fórmula e passam a ser ferramentas de decisão. E, para quem formula alimentos para gatos, essa talvez seja a virada mais importante: competir em saúde urinária passa a significar dominar a fisiologia mineral com precisão.

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