A produção brasileira de soja segue elevada, mas o aumento da demanda externa e interna tem reduzido a folga no mercado. O resultado é uma combinação que merece atenção da indústria de nutrição animal, preços mais firmes para a oleaginosa e para o farelo, com potencial impacto sobre o custo das rações.
A avaliação é de Rafael Silveira, analista de mercado da Safras & Mercado. Segundo ele, o Brasil atravessa um período de oferta robusta de soja e milho, mas o consumo avançou em ritmo ainda maior.
“Nós estamos sim com uma situação de oferta robusta. Só que a demanda tem crescido bastante. Então, a demanda brasileira esse ano está cerca de 5 milhões de toneladas mais forte do que tivemos no ano passado, que já foi um ano de altas exportações.”
O cenário ajuda a explicar por que uma produção elevada não necessariamente resulta em preços menores. Em agosto, a soja em Paranaguá acumulava valorização de 10,25%, segundo o Cepea.
Exportações reduzem a folga
Crédito: Magnific
A dinâmica mudou em relação ao início do ano. Após a colheita, a concentração da oferta derrubou os preços da soja e favoreceu as margens da indústria de esmagamento. Agora, com mais produto comprometido com exportações, a disputa pela soja disponível aumentou.
“Grande parte da nossa exportação já ocorreu. O Brasil já tem mais de 100 milhões de toneladas entre o que saiu e o que já tem de compromissos para ser embarcado. Então, é um volume extremamente significativo. A nossa oferta no mercado agora já é bem mais apertada.”
Na avaliação de Silveira, a demanda dos portos continua firme enquanto a indústria doméstica precisa disputar o grão. A retenção de parte da produção pelos agricultores também contribui para ampliar a distância entre compradores e vendedores.
Estoques menores ajudam a explicar a alta
Apesar da produção elevada, a relação estoque/consumo da soja brasileira para 2025/26 pode chegar a 33,5%, segundo análise do Cepea, o menor nível desde 2022/23. Para 2026/27, a estimativa inicial é de 32,3%.
O indicador mostra por que produção e preço podem caminhar em direções aparentemente contraditórias: o mercado precisa considerar não apenas quanto é produzido, mas quanto permanece disponível diante do consumo e das exportações.
Farelo entra no radar da ração
O movimento também alcança o farelo de soja. Rafael projeta exportações recordes tanto para o farelo quanto para o óleo, com prêmios elevados no mercado externo. Para aves e suínos, o efeito é direto, já que o farelo é componente importante das formulações.
Imagem: farelo de soja – Magnific
“No caso de aves e suínos e etc., quem usa ração ou farelo de soja como alimento pode ter que pagar um preço mais caro. Então existe sim essa pressão adicional sobre os custos.”
A combinação entre soja valorizada e demanda externa pelo farelo reduz a margem de manobra da indústria de alimentação animal. O impacto final, porém, depende da composição das fórmulas, dos estoques adquiridos anteriormente e da capacidade de repasse ao longo da cadeia.
Safra nova vira próximo ponto de atenção
O mercado agora começa a olhar para a produção norte-americana e, na sequência, para o plantio brasileiro da safra 2026/27. Além do clima, Rafael chama atenção para o financiamento e para os custos enfrentados pelos produtores. A valorização recente da soja melhorou as relações de troca, mas não eliminou as dificuldades para financiar a próxima temporada. O comportamento do clima durante o plantio também será decisivo, especialmente diante da possibilidade de influência do El Niño.
“Tudo isso ainda poderia colocar mais pressão na disponibilidade de soja e nos preços no ano que vem. Então é isso que o mercado está de olho agora.”
Para a nutrição animal, o ponto central é acompanhar não apenas o tamanho da próxima safra, mas quanto de soja estará efetivamente disponível para o mercado interno, o ritmo das exportações e o comportamento do farelo. Esses fatores serão determinantes para o custo das formulações nos próximos meses.
Por redação nutriNews Brasil.
