Por que o risco de micotoxinas no plantel reprodutor começa antes do consumo da primeira ração pelo leitão?
Na maioria das granjas de suínos, a conversa sobre micotoxinas começa e termina na fábrica de ração, no entanto,. uma investigação de campo no Sudeste Asiático sugere que essa discussão deveria começar antes: entender o que há na circulação sanguínea da matriz suína e dos leitões lactentes, que ainda não consumiram um único grama de ração.
UM PROBLEMA REPRODUTIVO QUE A ANÁLISE DA RAÇÃO NÃO CONSEGUIU EXPLICAR
Em agosto de 2024, uma granja multiplicadora de suínos no Sudeste Asiático enfrentava inúmeras e inexplicáveis ocorrências de falhas reprodutivas, sendo constatado, nas matrizes, quadros de abortos e prolapsos e, nos leitões, vulvas inchadas e prolapsos.
Clinicamente, o quadro descrito acima remete, à primeira vista, a uma ação estrogênica, possivelmente oriunda de contaminações por micotoxinas.
No entanto, uma estratégia de mitigação dessas micotoxinas já estava em uso, uma vez que o manejo nutricional aplicado na granja contava com a adição de 3 kg de adsorvente por tonelada de ração, sendo 2 kg de um detoxificante premium e 1 kg de um adsorvente à base de argila. Desta forma, teoricamente, os animais estariam protegidos, mas na prática, era uma incógnita.
Foram detectadas as seguintes micotoxinas: aflatoxina B1 a 2,1 ppb e fumonisinas abaixo de 250 ppb (fumonisina B1 a 174 ppb, fumonisina B2 a 67 ppb) (Tabela 1), resultados que, sob uma ótica convencional, seriam interpretados como de baixo risco.
Diante da suspeita da presença de micotoxinas, a resposta tradicional viria da análise da ração. A granja fez exatamente isso, e o resultado da ração foi tranquilizador.
COMO UMA TOXINA CHEGA A UM LEITÃO QUE NUNCA CONSUMIU RAÇÃO?
A transferência vertical é a passagem das micotoxinas da matriz para os leitões antes mesmo que estes entrem em contato com uma ração contaminada. Isso ocorre por duas vias, e ambas são de extrema importância para um plantel reprodutivo (Figura 2).
A primeira via é a transferência transplacentária. Quando uma matriz gestante ingere micotoxinas, certos compostos podem atravessar a barreira placentária e alcançar o feto em desenvolvimento.
Essa exposição tem sido associada a prejuízos no crescimento fetal, ao desenvolvimento de anomalias, ao desequilíbrio endócrino e à imunossupressão (Sayyari et al., 2018). Esses danos ocorrem no útero, durante a janela em que os órgãos e tecidos, especialmente os do sistema reprodutor e a competência imunológica estão em desenvolvimento.
A segunda via é lactacional. As micotoxinas ingeridas pela matriz podem ser excretadas no leite, fornecendo uma dose direta ao leitão lactente. Essa exposição precoce às micotoxinas está associada ao menor ganho de peso, comprometimento da integridade intestinal, maior vulnerabilidade a infecções e desequilíbrios hormonais (Trevisi et al., 2020).
O leitão não precisa receber o creep feeding para ser exposto as micotoxinas. A dieta da porca torna-se também a dieta do leitão por meio da ingestão do leite. Vale ressaltar que a transferência das micotoxinas da dieta pelo leite costuma ser maior em porcas do que em ruminantes.
Ambas as vias impactam a biologia do animal. Os leitões têm uma capacidade reduzida de metabolizar e eliminar micotoxinas quando comparados aos animais adultos, o que os deixam mais suscetíveis à mesma carga tóxica. Em estudos experimentais e de campo, os leitões expostos precocemente mostraram, de forma consistente, menor pesocorporal e respostas imunológicas comprometidas.
POR QUE AS PRIMEIRAS SEMANAS DETERMINAM AS FASES SUBSEQUENTES DE VIDA?
Boa parte do desempenho final de um animal é determinado pelas condições às quais ele é submetido em suas fases iniciais, quando é mais sensível.
Uma exposição subclínica que não causa danos perceptíveis em um suíno na fase reprodutiva pode trazer impactos significativos para o feto ou neonato.
A ocorrência de distúrbios endócrinos durante o desenvolvimento, a imunossupressão antes de o sistema imunológico estar amadurecido e o comprometimento da integridade intestinal nas primeiras semanas de vida, não são problemas que se resolvem facilmente apenas melhorando a qualidade da ração, eles passam a comprometer o desempenho do animal que o produtor irá criar.
É por isso que a exposição às micotoxinas no plantel reprodutivo não pode ser tratada apenas como uma questão de qualidade da ração.
É uma questão que envolve o desempenho reprodutivo e o desenvolvimento subsequente dos animais e, portanto, deve ser discutida no mesmo contexto que a fertilidade, parâmetros produtivos e reprodutivos ao parto e viabilidade dos leitões.
O PONTO CEGO AO SE ANALISAR APENAS A RAÇÃO
A análise da ração responde a uma pergunta específica: o que está presente nesta amostra, neste momento e neste lote. É uma ferramenta necessária, mas é um retrato do momento e não revela o que o animal, de fato, absorveu, metabolizou e distribuiu pelos tecidos.
A análise sanguínea responde a uma pergunta diferente e complementar: quais micotoxinas e metabólitos estão presentes no animal, quais chegaram a corrente sanguínea e, portanto, estão biologicamente ativos.
Quando o sangue das matrizes lactantes foi coletado, revelou uma ameaça por micotoxinas maior do que a ração havia indicado.
O deoxinivalenol (DON) apresentou concentração de 3,6 ppb, e o seu metabólito, DON-glicuronídeo, apresentou concentração de 12,3 ppb, uma clara evidência da exposição ao DON, que não havia sido detectado na ração (Tabela 1). A zearalenona (ZEN) foi detectada em concentrações traço, enquanto seu metabólito ZEN-glicuronídeo foi detectado a 7,2 ppb.
Os animais apresentavam uma exposição sistêmica não demonstrada na análise da ração.
O RAIO X DO PLANTEL POR MEIO DA CORRENTE SANGUÍNEA
A investigação englobou amostras de diferentes gerações. Foram amostrados e analisados ração e sangue de cinco matrizes lactantes e de seus leitões aos 15 dias de idade, antes que estes tivessem consumido qualquer ração.
No total, foram analisadas 10 amostras de sangue e uma amostra de ração. Após coletar e deixar secar uma gota de apenas 60 μL de sangue por animal em cartões FTA (Figura 1) foi possível extrair e quantificar até 36 biomarcadores diferentes de icotoxinas por LC-MS/MS. A amostra de ração foi analisada para 16 micotoxinas-chave pelo mesmo método.
Os resultados das análises de sangue dos leitões são a principal informação deste estudo e que deveriam fazer qualquer produtor refletir.
Esses leitões nunca consumiram ração, sendo sua única fonte de alimento o leite materno e, ainda assim, quatro micotoxinas diferentes foram detectadas no sangue destes animais: fumonisina B1 em quantidades traço, deoxinivalenol a 1,4 ppb, zearalenona em quantidades traço e alternariol a 1,2 ppb.
O metabólito do DON, o DON-glicuronídeo, estava presente a 6,7 ppb, e o ZEN-glicuronídeo a 2,1 ppb, confirmando, que as toxinas não estavam apenas presentes, mas estavam acometendo de forma clínica e subclínica a saúde e desempenho dos leitões (Tabela 1).
O padrão observado nos leitões pode ser correlacionado com a exposição detectada nas matrizes, de forma coerente com uma transferência da matriz para os leitões. As toxinas desses leitões não vieram da ração, chegaram pela placenta e pelo leite, exatamente as duas principais vias descritas na literatura, e ambas puderam ser observadas nessa granja.
O SINAL REPRODUTIVO ESCONDIDO NOS NÚMEROS
Quando a preocupação é a fertilidade, o principal ponto é a relação entre os biomarcadores e o quadro clínico. Os sinais reprodutivos desta granja: aborto e prolapso nas matrizes, vulvas inchadas e prolapso nos leitões, são a apresentação clássica de uma estimulação estrogênica. Duas das micotoxinas identificadas no sangue, a zearalenona e o alternariol, são compostos estrogênicos.
Os problemas reprodutivos observados poderiam, portanto, ser causados por essas micotoxinas estrogênicas detectadas no sangue.
QUAL A CONTRIBUIÇÃO DO BIOMONITORAMENTO NO SANGUE AO MANEJO REPRODUTIVO?
A contribuição prática do biomonitoramento no sangue, utilizando o programa Biomonitoring+ do Innovad Group, é que ele muda a pergunta de “o que há na ração?” para “o que chegou ao animal, e a quais animais?”.
Em um contexto de reprodução, isso significa que a matriz e sua prole podem ser avaliadas em conjunto, e que a exposição pré-natal e lactacional torna-se visível ao invés de ser apenas inferida.
A coleta de sangue em cartão FTA mantém a amostragem prática o suficiente para uso a campo, uma vez que, apenas uma gota de sangue por animal é depositada no cartão e, após secas e enviadas para análise, permitem o retorno de um perfil de 36 biomarcadores.
Nada disso substitui o controle de alimentação. A lição mais clara do caso da granja no Sudeste Asiático é que uma estratégia de mitigação estava em uso e, ainda assim, os problemas reprodutivos persistiam. Isso não serve de incentivo para abandonar o monitoramento da ração, mas sim validar se o processo existente está de fato reduzindo de forma eficaz a exposição sistêmica do animal.
Nada disso substitui o monitoramento da ração.
O biomonitoramento e a mitigação de risco não devem ser vistos como excludentes. Um reduz o risco; o outro confirma se o risco foi de fato reduzido.
REPENSAR A LINHA DO TEMPO DO CONTROLE DE MICOTOXINAS
O modelo convencional aponta que o risco de exposição a micotoxinas ocorre no momento da ingestão da ração. A evidência da transferência
vertical antecipa esse ponto de partida para as fases de gestação e lactação, antes que o animal inicie a ingestão de ração por conta própria.
Para produtores e consultores preocupados com o desempenho zootécnico, essa mudança tem uma implicação clara: o monitoramento de micotoxinas deve ser iniciado no plantel reprodutor, e não apenas na fase de crescimento e terminação, porque é a partir daí que surgirão as
consequências.
A exposição vertical a micotoxinas representa um risco significativo, uma vez que boa parte do desempenho final do animal depende das condições das fases iniciais, quando os animais são mais sensíveis. A confirmação da transferência de micotoxinas através da placenta e do leite reforça a necessidade de programas integrados de mitigação de risco e biomonitoramento nos planteis reprodutores.
Ao monitorar a exposição em matrizes e leitões, os produtores podem proteger a saúde animal e maximizar o desempenho desde o início, quando a prevenção é mais eficaz e a recuperação muitas vezes é possível.
Pare de supor. Comece a biomonitorar.
