Zootecnistas abordam potencialidades no uso da silagem de capim e o papel do pastejo nos sistemas leiteiros modernos
Produzir mais, com eficiência e menor custo, é um dos grandes desafios da atividade leiteira. O 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL), promovido pelo Nucleovet, trouxe aos debates o uso da silagem de capim como alternativa estratégica na alimentação de vacas leiteiras, além da importância do pastejo para a competitividade e a sustentabilidade dos sistemas modernos de produção.
A zootecnista Greiciele de Morais destacou que a produção de silagem de capim exige atenção a diferentes etapas do processo, tanto para garantir uma boa fermentação como para preservar a qualidade da forragem. As duas principais técnicas são o corte direto, utilizado especialmente com capins tropicais, e o pré-secado, em que a forragem permanece no campo por um período para perder parte da umidade antes de ser ensilada.
No sistema de corte direto, o capim é cortado e imediatamente encaminhado para a ensilagem. A técnica é comum em forrageiras tropicais, que apresentam elevada produtividade, mas também possuem grande quantidade de água. O grande desafio aqui é o alto teor de umidade, que pode dificultar a fermentação e favorecer a produção de efluentes.
O controle do Clostridium, grupo de bactérias associado a problemas de fermentação em silagens, é um dos grandes desafios nesse assunto. O excesso de umidade cria condições favoráveis à sua atuação, aumentando o risco de perdas, pois pode comprometer a conservação da forragem. Por isso, a estratégia de produção precisa considerar as características do material que será transformado em silagem.
Entre as estratégias para controlar esse problema estão a utilização de aditivos absorventes de umidade, capazes de reduzir a disponibilidade de água na massa ensilada. Outra medida sugerida pela especialista é o uso de microrganismos que favoreçam a fermentação, especialmente bactérias ácido-láticas do grupo das homofermentativas, como o Lactobacillus plantarum.
Segundo a doutora em Ciências, a escolha adequada do aditivo é fundamental para melhorar a eficiência do processo. Dados apresentados por Greicieli mostram que a combinação entre agentes capazes de controlar o excesso de umidade e bactérias que favorecem a acidificação pode contribuir para uma fermentação mais eficiente.
“Temos errado na escolha do aditivo, usando uma combinação que não está se mostrando tão eficiente e gerando silagens com problemas, com má fermentação. Usar o produto certo é fundamental para conseguir uma eficiência maior de acidificação”, ponderou.
A segunda abordagem apresentada pela doutora foi o pré-secado. Nesse sistema, o capim é cortado e permanece no campo durante um período para perder água antes de ser recolhido e ensilado.
Com a redução da umidade, o desafio trazido nesse método é outro. Se no corte direto o excesso de água representa um dos principais empecilhos, na forragem mais seca aumenta a preocupação com a deterioração da silagem. Por isso, o objetivo do pré-secado não deve ser apenas deixar a forragem algumas horas no campo, mas efetivamente alcançar um nível adequado de matéria seca antes da ensilagem.
Nesse cenário, a estratégia de aditivos também muda. Diferentemente do corte direto, em que pode ser necessário utilizar produtos com capacidade de absorver umidade, nas forragens pré-secadas podem ser utilizados aditivos combinados, que reúnem microrganismos responsáveis pela fermentação e outros voltados ao controle da deterioração.
Trata-se de uma silagem que não é simples de ser produzida e que exige multietapas. “Se a gente for comparar em relação ao milho, que não te dá problema nenhum, que ao cortar já fermenta bem, a silagem de capim sempre vai demandar mais etapas. Apesar de o manejo de capim ser mais trabalhoso, traz potencialidades importantes. Ele desempenha um papel na estratégia alimentar, na diversificação de forragem e, ainda, traz mais segurança em relação a intempéries”, concluiu a especialista.
Uso do pastejo como estratégia
O zootecnista Gabriel Menegazzi abordou o pastejo como estratégia para a produtividade e a sustentabilidade. Ele salientou que os sistemas modernos de produção de leite precisam ir além da busca por produtividade e rentabilidade e envolver uma visão integrada. Questões ambientais, bem-estar dos animais e das pessoas também passam a fazer parte das decisões dentro das propriedades. É nesse contexto que o manejo do pastejo ganha importância como ferramenta para tornar os sistemas leiteiros mais eficientes e sustentáveis.
O especialista trouxe abordagens a partir da realidade de fazendas do Uruguai. Os dados são baseados no acompanhamento das propriedades, em experimentos realizados em estação experimental, além de anuários estatísticos agropecuários.
Entre as estratégias de manejo que podem contribuir para melhorar a produtividade dos sistemas está o controle da altura do pasto. A alteração da altura residual da pastagem pode modificar a quantidade e a qualidade da forragem consumida pelos animais e, consequentemente, interferir na produtividade.
Gabriel explica que o manejo da pastagem também apresenta reflexos ambientais. Quando o animal consegue expressar melhor seu comportamento seletivo durante o pastejo, tende a consumir partes da planta com maior qualidade nutricional, ou seja, com mais proteína bruta e menor quantidade de fibra, portanto, produz menos metano durante a fermentação ruminal, o que é benéfico do ponto de vista ambiental.
O especialista também ressaltou o impacto das estratégias de manejo sobre a rotina do produtor, com o desenvolvimento de alternativas capazes de reduzir o tempo dedicado às atividades, sem comprometer a produtividade do sistema.
“Um exemplo de alternativas que temos gerado é modificar a frequência de manejo das parcelas de pastejo. Estudamos a opção de fazer uma a cada três dias, quatro dias ou a cada cinco dias, o que representaria uma redução enorme na quantidade de trabalho necessária para o manejo das pastagens. A intenção é reduzir as horas de trabalho sem reduzir a produtividade do sistema”, afirmou.
Segundo o zootecnista no Uruguai hoje é pouco comum encontrar sistemas que não usem nenhum nível de suplementação. Pelo menos no início da lactação, é recomendado o uso de suplementação para atingir níveis maiores de produtividade.
“Na prática, a nível nacional, a média das dietas são compostas por 50% pasto colhido diretamente via pastejo, 25% concentrados e 25% de reservas forrageiras como feno e silagem. Essa é a média nacional de consumo de pasto, reservas e concentrados no nível individual. O que acontece é que a partir do momento que nós aumentamos a carga dos sistemas, fazendo uma intensificação desses sistemas, naturalmente a participação do suplemento na dieta passa a ser mais alta e, portanto, a participação relativa do pasto diminui”, afirmou.
Para concluir, Gabriel enfatizou que o pastejo é um processo central.
“O pastejo é comumente subestimado, mas está diretamente ligado ao resultado econômico e à resiliência do sistema. O manejo adequado da pastagem pode influenciar a qualidade do alimento consumido, a produtividade, as emissões de metano e, ao mesmo tempo, a quantidade de trabalho necessária para manter o sistema.”
