Nutrientes

Os benefícios das fibras para a cinética do parto de fêmeas suínas – Parte II

PDF

Para ler mais conteúdo de nutriNews Brasil 3 Trimestre 2022

Bruno Bracco Donateli Muro

Médico Veterinário, Doutorando do Departamento de Nutrição e Produção Animal, FMVZ-USP
Bruno Bracco Donateli Muro

César Augusto Pospissil Garbossa

Professor do Departamento de Nutrição e Produção Animal, FMVZ - Universidade de São Paulo
César Augusto Pospissil Garbossa

Fornecimento de Energia

A espécie suína, dentre as espécies domésticas, é a que apresenta maior taxa de mortalidade perinatal, que inclui natimortos e mortes nas primeiras semanas de vida. Estima-se que 40% dessa mortalidade ocorra nas primeiras 48 horas após o nascimento (Quesnel et al., 2012), o que representa um problema econômico e de bem-estar (Mota-Rojas et al., 2016).

Este quadro tem sido associado, em parte:

  • Ao aumento na duração do parto,
  • Que por sua vez pode resultar em maior ocorrência de natimortos;
  • Diminuição da vitalidade dos leitões ao nascimento.

fibras-femeas-suinasEm um estudo recente, Feyera et al. (2018) demonstraram que a quantidade de energia disponível no início do parto é um fator determinante para a duração do parto. Fêmeas suínas que iniciam o parto com concentrações plasmáticas de glicose arterial (artéria uterina) abaixo de 3 mMol têm graves prejuízos na cinética do parto, com aumento na taxa de natimortalidade e precisam de maior assistência ao parto.

De forma prática, fêmeas que iniciam o parto dentro de 3 horas após se alimentarem têm menor duração de parto e uma menor necessidade de assistência ao parto, quando comparadas com fêmeas que iniciaram o parto após 6 horas da última alimentação.

A fêmea suína pode depletar seu estoque de energia disponível para a fase expulsiva antes mesmo do início do parto.

O aumento da atividade física direcionado para confecção de ninho (6-12 horas antes do parto), associado a intensa produção de colostro e as contrações rítmicas e involuntárias do miométrio e da musculatura abdominal são altamente dependentes de energia e podem resultar na depleção dos estoques de glicogênio e tornar as fêmeas parturientes mais susceptíveis às variações da concentração de glicose plasmática.

  • Nesse contexto, a inclusão de fibra nas dietas de transição pode contribuir para o metabolismo energético da fêmea parturiente e, consequentemente, melhorar a cinética do parto.

fibrasDe forma prática, Feyera et al. (2017) encontrou uma diminuição do número de natimortos e na mortalidade dos leitões devido à baixa vitalidade em porcas alimentadas com uma dieta de transição rica em fibras.

fibrasOs AGCC provenientes da fermentação das fibras solúveis podem ser uma importante fonte de energia no periparto, além de auxiliarem na manutenção das reservas de glicose.

Fibras solúveis também estão relacionadas a uma maior captação de energia pós-prandial pelo trato gastrointestinal e a uma estabilização dos níveis de glicemia interprandial, o que é de extrema importância em rebanhos onde não é possível alimentar a porca parturiente mais de duas vezes ao dia.

Ressalta-se, no entanto, que durante a fase expulsiva do parto, o útero utiliza apenas glicose e triglicerídeos como fonte de energia para as intensas contrações.

Sendo assim, especula-se que os benefícios da fibra estejam relacionados ao metabolismo energético da fêmea antes do parto e, portanto, grandes benefícios no processo de parto podem ser alcançados com uma dieta contendo fontes de fibras no pré-parto associadas a fontes de glicose e triglicerídeos para serem utilizadas como energia prontamente disponível imediatamente antes e/ou durante o parto.

Constipação

A constipação é um problema grave que pode atingir cerca de 70% das fêmeas parturientes do rebanho.

A constipação causa:

constipacao-patologia

Em um passado recente, a restrição alimentar (jejum) da fêmea suína na data prevista do parto era um manejo comumente utilizado para evitar a constipação durante o parto. No entanto, com os resultados de estudos recentes que demonstraram a importância da disponibilidade energética para otimizar a cinética do parto, novas diretrizes para o manejo alimentar da fêmea parturiente têm sido utilizadas.

fibras-intestinoFeyera et al. (2018) propôs que a fêmeas sejam alimentadas oito vezes ao dia de modo a otimizar as características de cinética do parto. No entanto, essas novas diretrizes podem aumentar a possibilidade de ocorrência de constipação da fêmea durante o parto.

Por isso, uma formulação de dieta de transição que incorpore ingredientes funcionais que atendam as necessidades da fêmea no periparto se faz necessária.

Além dos benefícios supracitados da inclusão de fibras para o metabolismo energético da fêmea parturiente, esses ingredientes também podem contribuir de maneira significativa na prevenção de constipação.

fibras-transito-gastrointestinal

Assim como os efeitos sobre o metabolismo energético, os benefícios na prevenção da constipação dependem das propriedades físico-químicas da fibra.

Se por um lado a inclusão fibras solúveis e altamente fermentáveis contribui de maneira mais efetiva para o metabolismo energético, as fibras insolúveis podem assumir o protagonismo quando o objetivo é prevenir constipação

A capacidade de reter moléculas de água permite que as fibras insolúveis:

Aumentem a maciez das fezes, o que, por sua vez, diminui a probabilidade de constipação.

fibrasAs fezes moles podem impedir o bloqueio físico do canal de parto e permitir a rápida passagem dos leitões durante o parto (OLIVIERO et al., 2009). Além disso, as fibras insolúveis aumentam a taxa de passagem no trato gastrointestinal, diminuindo a probabilidade de absorção de endotoxinas bacterianas (lipopolissacarídeos), que podem influenciar as alterações endócrinas associadas ao parto, resultando em inércia uterina (PELTONIEMI et al., 2019).

Considerações Finais

fibras-suinas

As necessidades nutricionais da fêmea suína mudam rapidamente durante o período de transição, portanto, dietas específicas podem trazer resultados melhores para esse período.


As fibras podem ser uma ferramenta muito importante nessas dietas.
No entanto, as fibras pertencem a um grupo de nutrientes com características bastante heterogêneas e com funções distintas de acordo com suas propriedades físico-químicas.

Portanto, para se obter máxima eficiência do uso de fibras nas dietas de transição, com especial atenção para a cinética do parto, é interessante combinar fibras com diferentes propriedades e funções no metabolismo.

Referências Bibliográficas

DA SILVA, C. L. A., VAN DEN BRAND, H., LAURENSSEN, B. F. A., BROEKHUIJSE, M. L., KNOL, E. F., KEMP, B., SOEDE, N. M. Relationships between ovulation rate and embryonic and placental characteristics in multiparous sows at 35 days of pregnancy. Animal 10, 1192–1199, 2016.

BJÖRKMAN, S., OLIVIERO, C., KAUFFOLD, J., SOEDE, N. M., PELTONIEMI, O. A. T. Prolonged parturition and impaired placenta expulsion increase the risk of postpartum metritis and delay uterine involution in sows. Theriogenology 106, 87–92, 2018

CHOCT, M. (2015). Fibre-Chemistry and functions in poultry nutrition. In LII Simposio Científico de Avicultura, Málaga (Vol. 28, pp. 113-119).

LANGENDIJK, P., & PLUSH, K. (2019). Parturition and its relationship with stillbirths and asphyxiated piglets. Animals, 9(11), 885.

ALGERS, B., UVNÄS-MOBERG, K. Maternal behavior in pigs. Hormones and behaviour 52, 78–85, 2007

PELTONIEMI, O. A. T., BJÖRKMAN, S, OLIVIERO, C. Parturition effects on reproductive health in the gilt and sow. Reproduction in domestic animals 51, 36–47, 2016

VAN KEMPEN, T. Supplements to facilitate parturition and reduce perinatal mortality in pigs. Recent advances in animal nutrition, v. 1, p. 317 – 330, 2007

FEYERA, T., HØJGAARD, C. K., VINTHER, J., BRUUN, T. S., THEIL, P. K. Dietary supplement rich in fiber fed to late gestating sows during transition reduces rate of stillborn piglets. Journal of animal science, v. 95, p. 5430–5438, 2017

FEYERA, T., PEDERSEN, T. F., KROGH, U., FOLDAGER, L. AND THEIL, P. K. Impact of sow energy status during farrowing on farrowing kinetics, frequency of stillborn piglets, and farrowing assistance. Journal of animal science. v. 96, p. 2320–2331. 2018

CARNEVALE, R. F., MURO, B. B. D., CARNINO, B. B. et al. Does glycemic concentration of the parturient sow affect farrowing kinetics? In: Proceedings of international pig society congress. 620, 2020

THEIL, P. K., H. JORGENSEN, A. SERENA, J. HENDRICKSON, AND K. E. B. KNUDSEN. Products deriving from microbial fermentation are linked to insulinaemic response in pigs fed breads prepared from whole-wheat grain and wheat and rye ingredients. British journal of nutrition, v. 105, p. 373–383, 2011.

AGYEKUM, A. K., NYACHOTI, C. M. Nutritional and Metabolic Consequences of Feeding High-Fiber Diets to Swine: A Review. Engineering, v. 3, p. 716-725. 2017

DEN BESTEN, G., VAN EUNEN, K., GROEN, A. K., VENEMA, K., REIJNGOUD, D. J., BAKKER, B. M. The role of short-chain fatty acids in the interplay between diet, gut microbiota, and host energy metabolism. Journal of lipid research, v. 54, p. 2325- 2340, 2013.

SAKATA, T., INAGAKI, A. Organic acid production in the large intestine: implication for epithelial cell proliferation and cell death. Piva, A., Bach Knudsen, K.E., Lindberg, J.E. The Gut Environment of Pigs. Nottingham University Press, Nottingham, p. 85–94, 2001.

SERENA, A., JØRGENSEN, H., BACH KNUDSEN, K. E. Absorption of carbohydrate-derived nutrients in sows as influenced by types and contents of dietary fiber. Journal of animal science, v. 87, p. 136–147, 2009.

MCRORIE, J. W., MCKEOWN, N. M. Understanding the physics of functional fibers in the gastrointestinal tract: an evidence-based approach to resolving enduring misconceptions about insoluble and soluble fiber. Journal of the academy of
nutrition and dietetics, v. 117, p. 251-264, 2017

BLACKWOOD, A. D., SALTER, J., DETTMAR, P.W., CHAPLIN, M. F. Dietary fibre, physicochemical properties and their relationship to health. The journal of the royal society for the promotion of health, v. 120, p. 242-247, 2000.

MOLIST, F., VAN OOSTRUM, M., PÉREZ, J. F., MATEOS, G. G., NYACHOTI, C.M., VAN DER AAR, P. J. Relevance of functional properties of dietary fibre in diets for weanling pigs. Animal feed science and technology, v. 189, p. 1–10, 2014.

BACH KNUDSEN, K. E., HANSEN, I. Gastrointestinal implications in pigs of wheat and oat fractions. 1. Digestibility and bulking properties of polysaccharides and other major constituents. British journal of nutrition, v. 65, p. 217– 232, 1991

CHO, S. S., PROSKY L., DREHER, M. Complex carbohydrates in foods. Marcel Dekker, Inc., p.10-15, 25, 26, 327, 329, 340-344, 1999

SPILLER, G.A. CRC Handbook of Dietary Fiber in Human Nutrition, 3 ̊ Edição. CRC Press LLC., pág.3-5, 40, 391. 2001 TAMBURINI, S., SHEN, N., WU, H. C., CLEMENTE, J. C. The microbiome in early life: implications for health outcomes. National medicine, v. 22, p. 713–722, 2016

PLUSKE, J.R., KIM, J.C., MCDONALD, D.E., PETHICK, D.W., HAMPSON, D.J. Non-starch polysaccharides in the diets of young weaned piglets. In: Varley, M.A., Wiseman, J. (Eds.), The Weaner Pig: Nutrition and Management. CABI publishing, Wallingford, p. 81–112, 2001

MCRORIE J. Evidence-based approach to fiber supplements and clinically meaningful health benefits, part 1: What to look for and how to recommend an effective fiber therapy. Nutrition today, v. 50, p. 82-89, 2015

Alltech rp
agriNews FM pt
Itpsa nutri br 0722
Banner Evento ESG Simposio Leite Integral
MAIS SOBRE Nutrientes

ESCUTE A REVISTA EM agriFM

agriFM

SE UNA A NOSSA COMUNIDADE NUTRICIONAL

Acesso a artigos em PDF
Mantenha-se atualizado com nossas newsletters
Receba a revista gratuitamente em versão digital

DESCUBRA
AgriFM - O podcast do sector pecuário em espanhol
agriCalendar - O calendário de eventos do mundo agropecuárioagriCalendar
agrinewsCampus - Cursos de formação para o setor pecuário.