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Abate cresce 54,2% em quatro anos; Malafaia aponta gargalo na cria

Pesquisador da Embrapa relaciona avanço da engorda à oferta de bezerros e destaca recuperação de pastagens, diversificação comercial e comprovação de origem como desafios da cadeia.

Por redação nutriNews Brasil

O Brasil abateu 42,7 milhões de bovinos em 2025, um crescimento de 54,2% sobre os 27,7 milhões registrados em 2021. No mesmo ano, o rebanho diminuiu 1,7%, para 234,3 milhões de cabeças, em sua segunda queda consecutiva. Para Guilherme Cunha Malafaia, pesquisador da Embrapa Gado de Corte, essa combinação expõe um gargalo: a engorda avança, mas a cria precisa fornecer os bezerros que sustentarão os próximos ciclos de produção.

A análise foi apresentada no 5º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte, em Chapecó (SC), em 6 de outubro de 2026. Na palestra sobre o futuro da carne bovina brasileira até 2040, Malafaia reuniu indicadores de produção, referências sobre a transformação tecnológica da atividade e resultados de um estudo prospectivo da cadeia.

O crescimento de 18,2% no abate de fêmeas em 2025, após anos de descarte elevado, integra o diagnóstico. Segundo o pesquisador, a saída de matrizes amplia a oferta imediata de carne, mas pode reduzir a disponibilidade futura de reposição. Enquanto as tecnologias de terminação permitem acelerar o fluxo de animais para o abate, recompor a base reprodutiva demanda anos.

Mais abates, com mudança na composição dos animais

Os dados apresentados mostram que a produção cresceu 48,2% desde 2021, impulsionada pelo volume de animais. O peso médio nacional de carcaça foi de 258,7 kg em 2025, aproximadamente 17,2 arrobas, ficando 3,9% abaixo do registrado em 2021.

Malafaia relacionou essa redução à maior participação de fêmeas e animais jovens no abate. A composição dos lotes interfere na média, portanto o indicador não demonstra, isoladamente, perda de desempenho individual dos bovinos.

Na interpretação do pesquisador, o descarte elevado de matrizes e a redução do rebanho são sinais compatíveis com uma fase de liquidação do ciclo pecuário. A oferta cresce no presente, mas a saída de fêmeas pode anteceder um período de menor disponibilidade e encarecimento da reposição.

Para quem recria e termina, o alerta aproxima o planejamento da engorda das condições da cria. Ganhos de desempenho na terminação dependem também da quantidade e da qualidade dos animais disponíveis para entrar no sistema.

Confinamento cresce e se concentra

O confinamento alcançou 9,25 milhões de cabeças em 2025, com crescimento de 16%. Para 2026, a projeção apresentada foi de 10 milhões de animais.

A expansão vem acompanhada de concentração. Segundo os dados exibidos, os 100 maiores confinadores reúnem 45% do gado confinado. O uso de software de gestão por 76% dos confinamentos foi outro indicador apresentado como evidência da transformação da atividade.

Malafaia relacionou esses resultados a tendências de intensificação, consolidação dos produtores e digitalização identificadas no estudo sobre a cadeia até 2040.

A disponibilidade de ingredientes também participa desse movimento. A apresentação trouxe uma previsão de 4,9 milhões de toneladas de DDG e DDGS — coprodutos da produção de etanol de milho utilizados na alimentação animal — para a safra 2025/26, ante 4,11 milhões na safra 2024/25. A comparação dimensiona a oferta prevista desses insumos; não estabelece uma recomendação de inclusão ou um retorno econômico para determinada dieta.

Recuperar o pasto faz parte da intensificação

O avanço da terminação no cocho convive com um desafio na base forrageira. A estimativa apresentada aponta que 60% das pastagens brasileiras, cerca de 110 milhões de hectares, têm algum grau de degradação. Malafaia associou essa condição à perda de capacidade de lotação e à maior vulnerabilidade das propriedades ao clima.

Uma revisão de Pereira, Malafaia e colaboradores, publicada na revista Animals em 2024 e utilizada na palestra, registra crescimento de 159% da produtividade entre 1990 e 2020, com 13% menos área de pastagem. O pesquisador recorreu a essa trajetória para explicar como a pecuária ampliou a produção para além da expansão territorial.

Para a próxima etapa, destacou a recuperação de pastagens e a integração com lavouras. Em sua avaliação, a receita agrícola pode ajudar a viabilizar a recuperação da fertilidade. A adoção, porém, depende das condições da propriedade e da capacidade de financiar e conduzir a transição.

Genética precisa alcançar a base reprodutiva

A inseminação atingiu 22,8% das matrizes de corte em 2025, ante 13% em 2018, um avanço de 9,8 pontos percentuais. Apesar do crescimento, mais de três quartos das matrizes permanecem fora da técnica. O indicador expressa adoção da inseminação, não a taxa de prenhez dos rebanhos.

Malafaia apresentou a genética entre as ferramentas para aproximar a produção média dos resultados de sistemas mais tecnificados. Como referência dessa fronteira, mostrou carcaças de 24 a 25 arrobas em sistemas com recria intensiva e terminação no cocho.

Esse desempenho pertence aos sistemas apresentados e não constitui uma expectativa universal. A palestra não detalhou dieta, duração da terminação e manejo que permitissem reproduzir o resultado por meio de uma recomendação única.

Na proposta do pesquisador, tecnologia e nutrição precisam avançar junto com a gestão da cria, para assegurar bezerros em volume e qualidade.

Concentração das vendas amplia a exposição comercial

O desafio também aparece no destino das exportações. Segundo a apresentação, a China respondeu por 53,2% do valor exportado em 2025. Essa participação se refere à receita das exportações, não à destinação de toda a produção brasileira. O slide informa que 34% da produção foi exportada naquele ano.

Nas respostas às perguntas do público, Malafaia ressaltou que a concentração em um comprador assegura volume de vendas, mas também amplia a exposição a mudanças nas condições comerciais. Defendeu a diversificação dos mercados e associou essa possibilidade à transparência e à garantia dos processos de produção.

Na avaliação do pesquisador, comprovar como a carne foi produzida ajuda tanto a conquistar compradores quanto a preservar o acesso aos mercados. A relevância de um destino comercial também precisa considerar o valor dos produtos vendidos, além da quantidade adquirida.

Ao discutir as exigências europeias, Malafaia avaliou que padrões adotados por esse mercado podem se disseminar para outros compradores. Trata-se de sua leitura sobre a evolução das condições comerciais, não de uma previsão de que todas as exigências serão reproduzidas.

Antecipar tendências exige preparar os processos

O estudo prospectivo apresentado foi desenvolvido em 2020, publicado em 2021 e utilizou o método Delphi, com 153 especialistas em duas rodadas. O trabalho identificou dez megatendências, incluindo bioinsumos e baixo resíduo, origem e transparência, digitalização e consolidação dos produtores.

Na palestra, Malafaia confrontou essas tendências com sinais observados até 2026. O exercício chama atenção para o intervalo entre reconhecer uma mudança e dispor de estrutura para responder a ela. Identificação dos animais, registros e mecanismos de comprovação exigem preparação.

Essa análise não significa que o estudo tenha previsto uma medida regulatória específica. Seu papel é orientar a discussão de possibilidades e probabilidades para a cadeia.

No campo ambiental, Malafaia diferenciou os protocolos Carne Carbono Neutro e Carne Baixo Carbono, da Embrapa. O primeiro considera a neutralização do metano entérico do rebanho pelo carbono acumulado nas árvores dos sistemas integrados. O segundo trabalha com a redução da intensidade de emissões por manejo de pastagens e boas práticas, sem exigir componente florestal.

O pesquisador apontou certificação, custo de auditoria e dificuldades para chegar ao mercado entre os entraves à adoção. A existência de um protocolo, portanto, não assegura por si só remuneração adicional ao produtor.

Assistência e crédito precisam chegar a quem produz os bezerros

Para Malafaia, ampliar a adoção tecnológica exige enfrentar um ciclo de baixa escala, margens estreitas e falta de recursos para recuperar pastagens. A dificuldade de oferecer garantias ao crédito pode manter o produtor nessa condição.

Entre os caminhos apresentados estão financiamento associado à assistência técnica e à gestão, mecanismos de microfinanças apoiados no histórico de pagamento e formação digital e financeira.

A inclusão desses produtores se conecta ao abastecimento da cadeia. Na análise de Malafaia, a próxima etapa da pecuária depende de combinar eficiência produtiva, gestão da cria e origem comprovada. Levar condições de investimento às propriedades que fornecem os bezerros integra esse esforço.

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