
18 set 2026
A Embrapa entregou ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) uma Nota Técnica contendo 163 medidas que podem ser adotadas na agropecuária brasileira com objetivo de reduzir riscos de perdas causadas pelo clima. Motivado pela ocorrência do El Niño na safra 2026/2027, o documento extrapola o fenômeno e enfatiza a necessidade de ações permanentes para gestão de riscos climáticos.
Das 163 medidas propostas, 14 são transversais a todo o setor agropecuário, 139 são específicas por segmento produtivo e dez correspondem a ações viabilizadoras ou de apoio a programas de política pública.
A Nota Técnica foi produzida no âmbito do Grupo de Trabalho sobre El Niño estabelecido pelo Mapa, com participação de especialistas da Embrapa e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Cerca de 50 profissionais da Embrapa participaram da elaboração das recomendações.
“Embora motivado pelo El Niño 2026/27, o documento adota uma perspectiva mais ampla de gestão de riscos agroclimáticos, reconhecendo que grande parte das ameaças, vulnerabilidades e medidas analisadas é aplicável também a outros eventos e condições climáticas recorrentes”, afirma a presidente da Embrapa Silvia Massruhá.
O coordenador da Rede Zarc (Zoneamento Agrícola de Risco Climático) e pesquisador da Embrapa Agricultura Digital, Eduardo Monteiro, acrescenta que a nota técnica aponta para um desafio mais amplo para a agropecuária brasileira, que é a necessidade de se consolidar uma política permanente de gestão de riscos agroclimáticos. Isso inclui a capacidade de antecipar, monitorar e responder de forma organizada a secas, excesso de precipitação, ondas de calor, geadas, tempestades e incêndios.
“O principal legado desse grupo de trabalho pode ser a transição de uma lógica predominantemente reativa de gestão de crises para uma cultura permanente de antecipação, preparação, adaptação, monitoramento e aprendizagem”, analisa Monteiro.

Imagem: lavoura encharcada – iStock.
O documento apresenta o histórico de efeitos causados no Brasil nos anos com ocorrência de El Niño, bem como as projeções para este ano. Entre elas está a maior probabilidade de precipitação abaixo da média em áreas do Centro-Norte do País e acima da média na região Sul. As projeções, destaca a nota técnica, indicam aumento do risco, mas não determinam antecipadamente os impactos sobre cada região, cultura ou sistema produtivo.

Foto: Fernanda Birolo, caprino em região de seca extrema.
A nota técnica considera riscos climáticos como atraso ou irregularidade no início da estação chuvosa, chuvas abaixo da média e déficit hídrico prolongado, temperaturas elevadas, chuvas acima da média e tempestades convectivas severas. Os impactos negativos de cada um desses riscos, e positivos em alguns casos, são detalhados para as cadeias de grãos e fibras, fruticultura, silvicultura, olericultura, pastagens e pecuária, culturas industriais e aquicultura.
Após fazer a identificação dos riscos e dos impactos que podem ter nas culturas e cadeias produtivas, a nota técnica aborda o tratamento dos riscos visando a prevenção, a redução do impacto, as medidas de transferência de riscos e de aceitação do risco remanescente.
As 163 medidas recomendadas estão estruturadas de forma a indicar o risco tratado, o horizonte para implementação (imediato, curto, médio e longo prazo) e as condições para adoção.
Entre as medidas consideradas transversais, estão: monitoramento de previsões meteorológicas; uso de dados meteorológicos locais; utilização do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc); diversificação espacial e temporal da produção; adoção de sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF); avaliação constante dos riscos; elaboração de plano de contingência para eventos climáticos adversos; manutenção de infraestrutura da propriedade rural; dimensionamento da capacidade operacional; registro de eventos e impactos climáticos para melhor avaliação sobre as medidas adotadas; avaliação econômica do nível de proteção para cada risco; criação de reservas financeiras; utilização de seguro rural e outros mecanismos de transferência de risco; e capacitação de equipes.
Para cada uma das cadeias produtivas, são estabelecidas medidas específicas que passam pelo manejo do solo, escolha de cultivares, planejamento das operações, investimento em estruturas de proteção, drenagem, irrigação, entre outros. São 139 medidas.
Por fim, a nota técnica traz dez medidas viabilizadoras e de apoio a instrumentos de política pública. São ações de caráter institucional, financeiro, científico, tecnológico e de assistência técnica, cuja implementação não depende do produtor rural.
Estão elencados o fortalecimento e o aperfeiçoamento de instrumentos de avaliação de risco, como o Zarc; a ampliação de mecanismos de financiamento focados na adaptação climática; a ampliação e aperfeiçoamento de instrumentos de transferência de riscos, como o seguro rural; o fortalecimento da assistência técnica; o fortalecimento da pesquisa e a validação de tecnologias para desenvolvimento de materiais adaptados; o aperfeiçoamento de sistemas de monitoramento agrometeorológico; o fortalecimento da gestão integrada de recursos hídricos; o monitoramento das políticas e medidas de adaptação; a ampliação da capacidade nacional de prevenção, detecção e combate a incêndios rurais e florestais; e a ampliação de programas de recuperação e recomposição da cobertura vegetal em áreas vulneráveis e estratégicas para a segurança hídrica.
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