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É possível o uso de óleo de insetos como Nutracêutico em dietas para aves?

É possível o uso de óleo de insetos como Nutracêutico em dietas para aves?

O uso de aditivos na nutrição de aves é uma realidade em função da necessidade de melhoria no desempenho e resposta imunológica diante dos desafios sanitários. Entretanto alguns ingredientes possuem efeitos nutracêuticos, com nutrientes funcionais que podem apresentar respostas como antimicrobianos, anti-inflamatórios e imunomoduladores, favorecendo a integridade intestinal e o aproveitamento dos nutrientes ou efeito antioxidante no organismo.

Entre as novas fontes, destacam-se os insetos, especialmente a mosca soldado negra (Hermetia illucens), cujas larvas fornecem proteína e óleo ricos em ácido láurico, de elevado valor funcional (Khan et al. 2024).

Hermetia illucens: fonte promissora de ácido láurico

A Hermetia illucens (Black Soldier Fly, BSF) tem se consolidado como ingrediente alternativo sustentável para rações. Suas larvas bioconvertem resíduos orgânicos (restos vegetais, alimentos e esterco) em biomassa rica em proteína (30–60%) e lipídeos (10–57%), dos quais se extrai um óleo de alto valor nutricional, dominado por ácidos graxos de cadeia média, principalmente ácido láurico (C12:0). Esse ácido pode representar até 70 % dos lipídeos, dependendo da dieta das larvas (Kim et al. 2020a, Suryati et al. 2023).

Com alta eficiência produtiva e baixo impacto ambiental, o óleo de Hermetia illucens pode ser produzido em diferentes regiões, aproveitando resíduos locais e ocupando menos área que culturas oleaginosas. Assim, constitui uma matéria-prima funcional e sustentável, alinhada à economia circular e valorizada por suas propriedades nutracêuticas.

Propriedades nutracêuticas do óleo Hermetia illucens (OLHI) em frangos de corte

Existem várias evidências do potencial nutracêutico do OLHI em aves (tabela 1). Abaixo estão descritas as principais formas de ação no organismo das aves.

Ação Antimicrobiana

O ácido láurico possui ampla ação contra microrganismos como bactérias, fungos e alguns vírus. Ele atua diretamente na membrana das bactérias, comprometendo sua estrutura e dificultando seu funcionamento, o que pode levar à morte celular. Estudos mostram sua eficácia contra microrganismos como Staphylococcus, Streptococcus, Clostridium perfringens, entre outros (Anas et al. 2024).

Seu derivado mais ativo, a monolaurina, é ainda mais solúvel e eficaz (Suryati et al. 2023). Em dietas com óleo rico em láurico, parte desse ácido é liberada no intestino e atua diretamente onde os patógenos estão presentes. Na prática, o ácido láurico funciona como um antibiótico natural, combatendo bactérias no intestino sem gerar resistência, uma vantagem em sistemas que visam reduzir o uso de antibióticos convencionais.

Modulação da Microbiota Intestinal

A inclusão de óleo de Hermetia illucens na dieta de frangos de corte favorece o equilíbrio da microbiota intestinal. Observa-se aumento de bactérias benéficas do gênero Bacteroides e de Lactobacillus, associadas a um bom desempenho e efeitos anti-inflamatórios (Dabbou et al. 2021). A principal forma de atuação do Lactobacillus está relacionada à sua atividade metabólica, capazes de reduzir o pH intestinal por meio da produção de ácido lático. Com um ambiente mais ácido, a proliferação de microrganismos patogênicos torna-se desfavorável, dificultando sua colonização e atividade (Chen et al. 2018).  Além disso, o óleo também reduziu a presença de microrganismos indesejáveis, como Clostridium perfringens, isso é importante, pois espécies do gênero Clostridium podem produzir toxinas perigosas, associadas a inflamações, enterite necrótica e lesões intestinais (Dabbou et al. 2021).

Recentemente, em nossos estudos Sousa (dados não publicados) observou que frangos alimentados com 0,5% de óleo de Hermetia illucens apresentaram redução de 100% no escore de OPG, enquanto as aves que receberam a dieta controle negativo (sem melhorador de desempenho e sem óleo de Hermetia illucens) apresentaram redução de 83,33%, após cinco dias da inoculação com Eimeria maxima.

Efeito na Imunidade 

Além de atuar no intestino, o ácido láurico presente no óleo de Hermetia illucens também contribui para reforçar o sistema imunológico das aves. Isso ocorre porque, ao reduzir a presença de microrganismos patogênicos no trato intestinal, o organismo reduz a inflamação e estresse, mantendo as defesas imunes mais equilibradas e eficazes. Para confirmar esse potencial, o estudo conduzido por Lestari & Hanim, (2025) demonstrou que o óleo  aumentou a expressão dos genes ZO-1, OCLN e JAM-2, reforçando as junções estreitas do epitélio intestinal. Esse efeito contribui para uma barreira mucosa mais eficiente, reduzindo a translocação de patógenos e modulando positivamente a resposta imune das aves.

Frangos alimentados com óleo de Hermetia illucens apresentam níveis mais altos de anticorpos IgG e IgM, além de maior expressão de citocinas como IL-6 e IL-10 (Chen et al. 2022), indicando um sistema imune mais ativo e preparado para combater infecções. De forma complementar, estudos in vitro mostram que esse óleo reduz citocinas pró-inflamatórias como TNF-α, IL-6 e IL-17, e inibe a translocação nuclear do NF-κB, uma via chave da inflamação. Esses efeitos ocorrem sem comprometer a imunidade basal, sugerindo uma modulação seletiva da inflamação e contribuindo para um sistema imune mais equilibrado (Richter et al. 2025).

Resposta antioxidante

Em alguns estudos foram observados aumento na capacidade antioxidante do organismo, o que ajuda a proteger as células do sistema imune contra o estresse oxidativo (Kim et al. 2020b, Chen et al. 2022). Esse efeito se deve a presença de alguns compostos  bioativos (Rodríguez-González  et al. 2025) ou vitaminas que variam em função do substrato de criação. Em nossos estudos (Sousa, dados não publicados)  não foi detectado quantidade significativa de flavonoides, porém o óleo apresentava mais de 150mg/Kg de tocoferóis, o que proporcionou um aumento de  mais de 10% na capacidade antioxidante (DPPH) da carne  de frangos alimentados com 1% de OLHI, em comparação ao controle negativo.

 

Desafios e Perspectivas Futuras para uso do óleo de insetos HI

  1. Ponto de atenção: qualidade e padronização do óleo: o óleo pode ter variações na composição, principalmente no teor de ácido láurico, dependendo da alimentação das larvas. Isso significa que nem todo lote tem a mesma qualidade, o que exige cuidado na hora da compra e uso. Além disso, o óleo é pobre em ômega-3 e ômega-6, importantes para a saúde e desempenho das aves. Por isso, não deve ser usado como única fonte de gordura na ração, sendo necessário combiná-lo com outros óleos mais balanceados (Aslam et al. 2025b)
  2. Efeitos a longo prazo e níveis de uso: o que ainda precisamos saber: A maioria dos estudos é de curto prazo, faltam pesquisas que mostrem os efeitos ao longo prazo sobre saúde das aves, desempenho contínuo e qualidade da carne durante o armazenamento. Outro ponto importante é que ainda não há um consenso sobre a quantidade máxima segura do óleo nas diferentes fases da criação ou para diferentes linhagens. Por isso, é essencial monitorar os resultados de lote a lote.
  3. Aspectos legais, econômicos e de aceitação: O uso de óleo de insetos já é permitido em alguns países, mas ainda enfrenta diferenças nas regras e exigências legais, o que dificulta sua adoção mais ampla. Também faltam dados sobre viabilidade econômica e produção em grande escala, e o custo ainda é mais alto que o dos óleos convencionais. Mesmo sendo seguro, o uso de insetos na alimentação animal pode gerar resistência por parte dos consumidores. Por isso, comunicar com clareza os benefícios, como bem-estar animal e sustentabilidade, é fundamental para ampliar a aceitação no mercado.
  4. Mecanismos de ação e combinações com outros aditivos: Ainda não se sabe exatamente como o ácido láurico age no organismo das aves sobre a imunidade e a microbiota em nível molecular. Mais estudos são necessários para entender melhor esses mecanismos e ajustar seu uso de forma mais precisa. Também há potencial para combinar o óleo de insetos  com outros aditivos, como probióticos ou enzimas, buscando efeitos ainda mais positivos na saúde intestinal.
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