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Efeito do uso de fibras dietéticas na dieta de leitões desmamados

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Dalton de Oliveira Fontes

Professor do Departamento de Zootecnia, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Dalton de Oliveira Fontes

Idael Matheus Góes Lopes

Doutorando do Programa de Pós-graduação em Zootecnia da Universidade Federal de Minas Gerais
Idael Matheus Góes Lopes

Marcelo Dourado de Lima

Mestrando do Programa de Pós-graduação em Zootecnia da Universidade Federal de Minas Gerais
Marcelo Dourado de Lima

Na suinocultura, a melhoria no aspecto nutricional é seguida de desafios, sendo alguns associados a doenças entéricas, principalmente na fase pós-desmame dos animais. Tal situação é comumente contornada com o uso de antimicrobianos, porém estes produtos estão passando por processo de retirada do mercado em diversos países. Dessa forma, a pressão pela diminuição do uso de antibióticos promotores de crescimento e inclusão de substitutos têm sido pautadas constantemente (Greese et al., 2017).

Logo, a necessidade de buscar alternativas e incluí-las aos programas alimentares visando redução no uso de antimicrobianos torna-se viável, principalmente na fase pós desmame. As fibras dietéticas vêm sendo estudadas constantemente, pois apresentam potencial para garantir melhorias na saúde intestinal dos animais, apresentando diversas características de modulação da microbiota intestinal, através dos produtos gerados pela fermentação da mesma e consequentemente podendo melhorar o desempenho animal (Jha et al., 2019).

A ineficiência do aproveitamento da fibra alimentar no intestino delgado dos suínos já é conhecida, pois apresentam em sua composição frações indigestíveis para os mesmos, não havendo enzimas capazes de sintetizá-las. Essas frações de carboidratos são classificadas de acordo com a sua solubilidade em água, sendo assim consideradas fibras solúveis ou insolúveis, devendo levar em consideração sua fermentabilidade (Shang et al., 2021).

Sendo assim, é possível observar resultados da inclusão de fibras em dietas para suínos no intestino grosso, através da sua fermentação e produção de produtos que favoreçam a saúde intestinal dos leitões. De acordo com exposto, objetivou-se através desta revisão, elencar os principais resultados e ações encontradas relacionadas a inclusão de fibra dietética na dieta de leitões na fase pós desmame.

Inclusão de Fibras em dietas de leitões desmamados

A etapa do desmame é considerada um fator estressante para os animais. Fatores como mudança na alimentação, formação de uma nova hierarquia social, mudança de ambiente além de desafio sanitário em alguns casos, são os principais responsáveis pela redução no desempenho dos leitões no pós-desmame, além de imaturidade do sistema digestivo e imunológico (Lima et al., 2020).

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As fibras aliadas ao uso de aditivos vêm sendo usadas para animais no pós-desmame, buscando diminuir uso de antibióticos e garantir maior saúde intestinal dos animais (Van Hees et al., 2020; Van Hees et al., 2019). Com o mesmo intuito de ser utilizada na dieta das fêmeas suínas, o uso de fibras na dieta de leitões desmamados visa modular a microbiota dos animais de forma que consigam expressar seu potencial genético, melhorando o desempenho.

producao-agccA produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) também é alvo de estudo quando se trata de leitões no pós-desmame, pois é a fase que mais acomete a estrutura do trato gastrointestinal dos animais, ocorrendo atrofia de vilosidades e hiperplasia das criptas. Logo, há necessidade de proporcionar saúde intestinal visando melhor absorção dos nutrientes.

Com isso, mecanismos de atuação específicos torna-se necessário, pois há uma eficiente atuação na mucosa intestinal dos animais, principalmente auxiliando na função de barreira, além de atuarem no fornecimento de energia para os enterócitos (Van Hess et al., 2020; Greese et al., 2017).

Outra ação benéfica das fibras é a garantia da saúde dos colonócitos, os quais são afetados quando há menor digestibilidade dos ingredientes. Ademais, nutrientes como a proteína chegam até o intestino grosso gerando compostos nocivos aos animais, como as aminas biogênicas e amônia (Gao et al., 2022; Zhang et al., 2020). Neste caso, o uso das fibras promoverá simbiose, pois haverá diminuição da produção destes compostos em função da alteração do fluxo de trânsito da digesta, alterando a taxa de esvaziamento gástrico ou motilidade da mesma (Gao et al., 2019).

Ao avaliar o efeito da fibra solúvel, a qual possui uma ação de maior fermentação e maior solubilidade em suas características e insolúvel sobre a população bacteriana do cólon e a atividade da barreira intestinal em leitões desmamados, Chen et al. (2020) verificaram que animais alimentados pela dieta composta por 1% de fibra alimentar solúvel (inulina), apresentaram maior diversidade bacteriana, demonstrando influência da inclusão de fibra na microbiota colônica.

Além disso os leitões que receberam essa dieta apresentaram maior concentração de AGCC quando comparado a ração controle. Todos os tratamentos que receberam as concentrações de fibra regularam de forma positiva a expressão gênica dos compostos formadores da barreira intestinal.

Heinritz et al. (2016), avaliando a inclusão de farelo de trigo em dietas para leitões, observaram que a colonização no reto dos animais por microrganismos benéficos aumentou com a inclusão da mesma, sendo estes: Lactobacillus , Bifidobacterium , Faecalibacterium prausnitzii e a diminuição de Enterobacteriaceae.

Resultados como estes demonstram que a influência na função de barreira intestinal melhorada pode ser atribuída à modulação da microbiota intestinal, o que influencia diretamente na composição microbiana do intestino, bem como seus metabólitos influenciam beneficamente no desempenho dos animais. Outros estudos são vistos na Tabela 1.

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Outros estudos foram realizados para mensurar o efeito da fibra na microbiota dos animais em fase de desmame. Kraller et al. (2015), avaliando dietas para leitões contendo inclusão de farelo de trigo extrusado, incluído a 2% na dieta, observaram redução na incidência de Escherichia coli no cólon dos animais.

Em outra pesquisa, Wu et al. (2018), avaliando o uso de hemicelulose (xilose), observaram aumento das Bifodabacterium no ceco dos animais, demonstrando que as fibras são essenciais para esta fase na produção de suínos. A variabilidade de fontes de fibras estudadas atualmente também pode impactar na colonização dos microrganismos, pois apresentam características de fermentabilidade e solubilidade de acordo com o tipo de fibra, influenciando diretamente nos resultados obtidos.

estudo-leitoes-desmamadosEm estudo, Shang et al. (2019), evidenciaram que o uso de diferentes fontes de fibras (polpa de beterraba e farelo de trigo), reduziram as interleucinas-6 (IL-6), que possuem relação com a resposta de ativação de células inflamatórias, quando comparado com o tratamento controle.

Ademais, houve também influência sob a variedade de microrganismos benéficos na microbiota intestinal dos animais que receberam dietas contendo fontes de fibra, assim como os níveis de AGCC (acetado e butirato e AGCC totais) foram maiores nos tratamentos que continham a inclusão de fibra, além de haver aumento dos níveis séricos de IgA, IgG e IgM.

Estudos como os de Shang et al., (2019), demonstram a diversidade de efeitos benéficos os quais as fibras dietéticas podem influenciar, visando a busca por aspectos de saúde intestinal e consequentemente melhor desempenho dos animais.

Considerações Finais

As fibras na fase de desmame apresentam resultados promissores ao relacionar com a saúde intestinal dos animais, assim promovendo a busca por fontes de fibras dietéticas que apresentem efeitos benéficos e moduladores da microbiota intestinal. Além disso, é necessário a realização de mais estudos para determinar os tipos e níveis de inclusão das frações de fibra solúveis e insolúveis que consigam mitigar os efeitos da fase pós-desmame dos leitões.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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