Enterococcus faecalis e Enterococcus cecorum na Avicultura: Impactos, Desafios e Estratégias de Controle
Victor Dellevedove Cruz1, Patrick Roieski2,Luiz Eduardo Takano2, Fabrizio Matté2
1Departamento de Microbiologia, Universidade Estadual de Londrina (UEL); 2Vetanco Brasil
Para atender à crescente demanda por proteínas de origem animal, décadas de aprimoramento genético levaram ao desenvolvimento de frangos de corte altamente eficientes na conversão de ração em carne. No entanto, essa seleção intensiva também os tornou mais vulneráveis a doenças metabólicas e infecciosas, muitas das quais estão diretamente relacionadas ao alto desempenho zootécnico e são frequentemente classificadas como “doenças de produção”.
Diante dessa realidade, o gênero Enterococcus ganha visibilidade por estar cada vez mais causando perdas econômicas e desafios sanitários associados às aves. Essas bactérias são Gram-positivas, comensais do intestino de mamíferos e aves, incluindo as domésticas, podendo ser encontradas também em solos, águas superficiais, ambientes marinhos e até em alimentos fermentados.
Embora desempenhem um papel natural como colonizadores intestinais, sua relevância aumenta diante da problemática: enquanto coexistem harmoniosamente em condições normais, certas linhagens podem se diferenciar em agentes patogênicos oportunistas, especialmente em hospedeiros imunossuprimidos ou sob estresse, cenário comum em sistemas de produção intensiva. Essa versatilidade ecológica, aliada à capacidade de causar infecções em humanos e animais, coloca os enterococos no centro de estudos sobre saúde avícola e segurança sanitária.
O termo entérocoque foi introduzido por Thiercelin em 1899 para descrever bactérias comensais do intestino que tem capacidade de se tornar patogênicas. Inicialmente, devido a semelhanças morfológicas e bioquímicas, os enterococos foram classificados como estreptococos do grupo D e considerados parte do gênero Streptococcus até meados da década de 1980. Por muito tempo, o termo “enterococcus” foi utilizado de forma genérica para se referir a cocos Gram-positivos isolados do intestino, sem um consenso sobre sua classificação como um grupo monofilético.
Dentre as diversas espécies existentes em aves (E. avium, E. cecorum, E. durans, E. faecalis, E. faecium, E. hirae), duas se destacam na avicultura, Enterococcus faecalis (E. faecalis) e Enterococcus cecorum (E. cecorum). Isso se deve ao seu genoma altamente adaptável, que lhes confere a habilidade de adquirir, acumular e transmitir genes, como de resistência a antimicrobianos e de virulência, localizados em estruturas genéticas móveis, como plasmídeos e transposons.
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Esses microrganismos podem causar osteomielite vertebral (figura 1) , resultando em claudicação progressiva, necrose da cabeça do fêmur (figura 2), espondilite, artrite e septicemia, ou seja, distúrbios locomotores (figura 3) e infecções generalizadas.
Figura 1 – Corte sagital da coluna vertebral. Observe a compressão do abscesso vertebral na medula espinhal (Círculos amarelos). Fonte: Aitchison et al., 2014.
Figura 2 – Fêmur desarticulado, revelando exsudato fibrinonecrótico (seta) e uma grande fratura revelando necrose (n) na metáfise subjacente à placa de crescimento. Adaptado de Wideman, 2016.
Figura 3 – Paralisia dos membros como resultado da infecção por E. cecorum. Fonte: Aitchison et al., 2014.
Assim, as infecções causadas por algumas espécies de Enterococcus são consideradas multifatoriais, estando ligadas a fatores estressantes tanto ambientais (temperatura), infecciosos (Eimeria, Clostridium perfringens, vírus entéricos como adenovírus, reovírus, micotoxinas) como nutricionais que levam a desequilíbrios na microbiota do intestino e aumentar a permeabilidade das células intestinais, permitindo a translocação destas bactérias para a circulação, onde ganham acesso a outros sistemas das aves.
O gênero Enterococcus apresenta resistência intrínseca a diversos antimicrobianos, incluindo cefalosporinas, aminoglicosídeos de baixo nível, clindamicina e trimetoprima-sulfametoxazol. Além disso, pode adquirir resistência a outros antibióticos, como cloranfenicol, tetraciclinas, fluoroquinolonas, aminoglicosídeos em níveis elevados e vancomicina, o que dificulta o tratamento de infecções. Para garantir uma abordagem terapêutica adequada, é fundamental realizar o teste de suscetibilidade antimicrobiana (antibiograma), o que permite a escolha precisa dos antimicrobianos mais eficazes.
Para um diagnóstico correto, o tipo de amostra a ser coletada para o isolamento sempre dependerá dos sinais clínicos e lesões apresentados pelas aves. As amostras mais comuns incluem, amostras de órgãos (baço, ceco), swabs de pericárdio, swabs das lesões ósseas (cabeça do fêmur) e articulares (vértebras torácicas, articulação coxofemoral).
Seguindo para seu isolamento bacteriano, que pode ser feito através de testes bioquímicos e moleculares, a maioria dos enterococos são oxidase e catalase negativo, tolerante ao sal (até 6,5%), resistente a 40% de bile, esculina hidrolítico e capaz de crescer na presença de azida sódica (até 0,4%). Em geral, os enterococos são urease negativos e não produzem ácido a partir da D-arabinose eritritol, D- e L-fucose, metil-D-xilosídeo e L-xilose. Essas características metabólicas foram usadas no desenvolvimento de kits de teste comerciais.
O crescimento deste gênero ocorre entre 10°C e 45°C, com a maioria das espécies apresentando crescimento ótimo entre 35°C e 37°C. Essas bactérias são notavelmente resistentes à dessecação, e apenas três espécies são relatadas como móveis: Enterococcus gallinarum, E. casseliflavus e E. flavescens. A eletroforese em gel de campo pulsado (PFGE) é considerado o “padrão ouro” para subtipagem de enterococos e tem sido amplamente utilizado para caracterização epidemiológica molecular de surtos enterocócicos.
Para a diferenciação de cepas patogênicas e comensais, um estudo de Combar e colaboradores (2024) propõe um marcador: o gene cpsO. Os resultados sugerem que o cpsO é um bom marcador para identificar cepas patogênicas, já que esteve presente nas cepas isoladas de lesões vertebrais e articulações, podendo ser um indicativo relevante de virulência. No entanto, ele não deve ser o único critério para diferenciar cepas patogênicas e comensais. No estudo de Dolka e colaboradores (2016), foi sugerido que os genes asa1, gelE, efaA e ace (genes que facilitam a fixação da bactéria a tecidos do hospedeiro e ajudam a romper barreiras celulares e a disseminar a infecção) são os genes de virulência que podem estar envolvidos na patogenicidade do E. cecorum, especialmente em cepas isoladas de frangos de corte e matrizes.
O estudo de fatores de virulência tem grande importância, pois eles podem ser componentes estruturais, produtos metabólicos, entre outros, formando os mecanismos que a bactéria utiliza para invadir, colonizar e se multiplicar em um hospedeiro. Esses fatores permitem à bactéria sobreviver, proliferar e causar doenças, diferenciando cepas patogênicas das comensais.
Em um trabalho de Borst e colaboradores (2017), os resultados indicam que a espondilite enterocócica é uma doença multifatorial. O que diferencia as bactérias patogênicas das comensais são seus fatores de virulência, como proteínas de adesão ao colágeno, cápsula bacteriana e polissacarídeos de superfície, além de um genoma reduzido. Esse conjunto de fatores permite que E. cecorum escape das defesas imunes, consiga aderir aos tecidos do hospedeiro e persista na circulação sanguínea até atingir a coluna vertebral.
Há evidências de isolamento de Enterococcus em Alphitobius diaperinus (cascudinho) na produção de frangos de corte. Segundo Lyons (2021), esse besouro atua como um vetor mecânico de Enterococcus cecorum, bactéria responsável por surtos de espondilite enterocócica. O estudo demonstrou que, após apenas 30 minutos de contato com superfícies contaminadas, os cascudinhos foram capazes de transportar E. cecorum para outras áreas da granja, sugerindo que a alta densidade desses insetos pode contribuir para a permanência e reinfecção das aves ao longo dos lotes. Além disso, os cascudinhos podem excretar patógenos em suas fezes, comprometer a estrutura física da granja, danificando o isolamento térmico das instalações e aumentando os custos com energia.
Para controlar o cascudinho e reduzir o risco sanitário, o autor sugere a combinação de estratégias, incluindo:
- Uso de inseticidas,
- Acidificantes na cama,
- Remoção adequada da cama entre lotes,
- Controle biológico e,
- Monitoramento frequente das populações de cascudinhos.
A implementação dessas medidas pode não apenas reduzir a população de cascudinhos, mas também minimizar surtos de E. cecorum e outras bactérias, promovendo um ambiente mais seguro e produtivo para os frangos.
Uma alternativa aos tradicionais antimicrobianos para ajudar a controlar estas infecções de Enterococcus na produção avícola são os probióticos. Cepas de Bacillus foram altamente eficazes na inibição do crescimento de E. cecorum, reduzindo sua proliferação em até 85%. Esses resultados indicam que os metabólitos antimicrobianos produzidos por algumas linhagens probióticas podem atuar diretamente contra patógenos oportunistas no trato intestinal das aves, dificultando sua colonização e prevenindo o desenvolvimento de doenças como a espondilite enterocócica. Além disso, o uso de probióticos pode contribuir para o equilíbrio da microbiota intestinal, reforçar a integridade da barreira intestinal e reduzir a necessidade de antibióticos, o que é essencial para minimizar o risco de resistência antimicrobiana.
O controle de Enterococcus na produção de frangos de corte é de grande importância para prevenir doenças que comprometem a saúde das aves e a qualidade dos produtos finais. Estudos demonstram que a colonização intestinal precoce por cepas patogênicas deste microrganismo pode evoluir para infecções sistêmicas, impactando negativamente a produtividade e aumentando as taxas de mortalidade. Dessa forma, estratégias integradas que englobam a adoção de probióticos, melhorias no manejo sanitário, controle de cascudinhos e o uso de medidas de biosseguridade alinhadas aos protocolos de controle de patógenos, oferecem uma abordagem eficaz para mitigar os riscos associados a esse agente patogênico.