Prebióticos e Probióticos

Probióticos na nutrição de cães

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Ananda Portella Félix

Zootecnista, Professora do Departamento de Zootecnia, Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Ananda Portella Félix

Taís Silvino Bastos

Doutoranda em Ciências Veterinárias pela UFPR
Taís Silvino Bastos

A saúde e o bem-estar dos animais de companhia dependem, além de diversos fatores, do equilíbrio (eubiose) da microbiota do trato gastrointestinal (TGI). Alterações nesse equilíbrio podem levar ao desenvolvimento de doenças, distúrbios gastrointestinais, alergias e estresse.

Desse modo, estratégias que auxiliem na melhora da funcionalidade intestinal dos animais de companhia, como o uso de probióticos, tornaram-se abordagens de rotina nas pesquisas relacionadas à nutrição canina.

Os probióticos são definidos como microrganismos vivos que, quando consumidos em quantidades adequadas, atuam como auxiliares no equilíbrio da microbiota do TGI do hospedeiro, controlando o desenvolvimento de microrganismos oportunistas com potencial patogênico.

Desse modo, os probióticos podem auxiliar na manutenção da eubiose e da saúde intestinal em situações adversas ao organismo que afetam o TGI, como estresse, troca abrupta de dieta, uso de antibióticos de amplo espectro, entre outros.

 

Papel da microbiota intestinal na saúde

Além disso, a microbiota intestinal fermenta compostos indigestíveis que chegam ao cólon, gerando metabólitos importantes para a função intestinal e saúde do hospedeiro.

Dentre esses metabólitos, os oriundos principalmente da fermentação de carboidratos, como os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), apresentam importância na absorção de água e eletrólitos, peristaltismo e controle da inflamação intestinal.

Já, alguns metabólitos provenientes da fermentação de compostos nitrogenados, como

Podem contribuir para processos inflamatórios, como a colite e a carcinogênese do cólon, bem como aumentar o odor fecal.

Como alguns grupos de microrganismos do TGI apresentam predileção por produzir metabólitos da fermentação de carboidratos ou proteínas, a modulação da microbiota a favor da eubiose, pode favorecer a produção de AGCC e controlar a produção de compostos putrefativos.

Os filos bacterianos predominantes identificados no microbioma intestinal de cães saudáveis são:

Figura 1. Filos e gêneros bacterianos predominantes nos segmentos do TGI de cães saudáveis.

Adaptado de Grzeskowiak et al. (2015) e Lee et al. (2022)

Vale ressaltar que cada animal tem um perfil microbiano único, dependente da

Por outro lado, as características comuns observadas na microbiota de animais com algum distúrbio intestinal ou quadros de disbiose são: redução da diversidade de microrganismos, aumento de bactérias como E. coli, Streptococcus e Clostridium perfringens e redução de Faecalibacterium, Blautia, Fusobacterium, Turicibacter e Clostridium hiranonis.

 

Benefícios e possíveis mecanismos de ação dos probióticos

Os benefícios do uso dos probióticos na nutrição canina têm sido divulgados na literatura científica (Tabela 1), principalmente nas últimas duas décadas (com o avanço das técnicas moleculares), sendo os mais comuns:

 

Tabela 1. Efeitos da suplementação de probióticos sobre a saúde de cães.

Probiótico Grupo Efeitos no grupo probiótico Referência
Mistura probiótica¹ D.R.C ↑ Taxa de filtração glomerular Lippi et al. (2017)
B. subitilis B. licheniformis C.S ↓ Compostos putrefativos Bastos et al. (2020)
B. subtilis C.S ↑ Diversidade da microbiota Lima et al. (2020)
L. rhamnosus GG D.A ↓ Indicadores de dermatite Marsella (2009)
L. sakei D.A ↓ Gravidade da doença Kim et al. (2015)
B. longum D.A ↓ Lesões cutâneas Lee et al. (2020)
S. boulardii E.C ↑ Consistência das fezes D´Angelo et al. (2018)
Mistura probiótica² D.I.I Disbiose normalizada Rossi et al. (2014)
L. acidophilus e L. johnsonii E.C Lactobacillus, ↓ diarreia Sauter et al. (2006)
L. fermentum, L. rhamnosus e L. plantarum Di.A C. perfringens e E. faecium Gómez et al. (2016)
E. faecium Di.A ↓ Diarreia aguda Nixon et al. (2019)
L. reuteri e L. bulgaricus Di.A ↑ Consistência das fezes Shmalberg et al. (2019)
L. casei Zhang, L. plantarum, B. animalis Di.A E. coli; ↑ Faecalibacterium Xu et al. (2019)

↑ = aumentou; ↓ = reduziu¹L. casei, L. plantarum, L. acidophilus, B. breve, B. infantis e S. salivarius²

L. casei, L. plantarum, L. acidophilus, L. delbrueckii bulgaricus, B. longum, B. breve, B. infantis e S. salivarius thermophilus

D.R.C = Doença renal crônicaD.A = dermatite AtópicaE.C = Enteropatias crônicasD.I.I = Doença inflamatória intestinalDi.A = Diarreia agudaC.S = Cães saudáveis

Os principais mecanismos de ação dos probióticos incluem:

 

Características dos probióticos

Como forma de garantir que os probióticos cheguem viáveis ao intestino grosso, são necessários alguns critérios, como: ser microrganismos não patogênicos ou tóxicos, possuir resistência ao pH do estômago, enzimas digestivas e sais biliares, ter capacidade de sobreviver e realizar metabolização no ambiente intestinal e resistir às condições de processamento e armazenamento até o momento do fornecimento da alimentação ao animal.

Assim, os probióticos frequentemente utilizados na nutrição canina que atendem à essas características são as bactérias pertencentes aos gêneros: Bacillus spp., Lactobacillus spp., Bifidobacterium spp. e algumas espécies de Enterococcus spp. e as leveduras (Saccharomyces spp.).

Considerações finais

As evidências científicas sugerem que os probióticos têm potencial de promover a saúde e o bem-estar de cães saudáveis ou podem ser utilizados com um agente coadjuvante no manejo de distúrbios gastrointestinais, como casos de diarreia aguda e/ou crônica e doença inflamatória intestinal.

Ademais, o uso desse aditivo pode contribuir com a redução da produção de compostos putrefativos, que são tóxicos em altas concentrações e responsáveis pelo aumento da produção de gases, odor fecal e doenças inflamatórias, como a colite.

No entanto, como o ambiente intestinal é extremamente complexo e afetado por múltiplos fatores e suas interações, ainda há necessidade de maiores estudos para melhor compreensão da efetividade de diferentes cepas de probióticos em cães com diferentes condições clínicas.

 

REFERÊNCIAS

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