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Suplementação concentrada a pasto: quando realmente vale a pena?

Escrito por: Daiany Iris Gomes Mezzomo - Diretora Técnica e Sócia-fundadora Do Pasto à Brasa , Rafael Mezzomo - Sócio-fundador da empresa Do Pasto à Brasa

Suplementação concentrada a pasto: quando realmente vale a pena?

 

A suplementação concentrada a pasto é uma ferramenta estratégica para mitigar os efeitos da sazonalidade das pastagens tropicais e aumentar a eficiência da bovinocultura de corte, desde que alinhada ao potencial da forragem, ao objetivo produtivo e ao retorno econômico esperado.

Este artigo discute como a oferta e a qualidade da pastagem condicionam a resposta à suplementação, como definir objetivos nutricionais — ganho adicional de peso e terminação antecipada — e como ajustar o nível de suplemento ao desempenho desejado.

Com base em evidências experimentais e meta-análises em sistemas tropicais, são apresentados os efeitos da suplementação sobre desempenho, produtividade por área, rendimento de carcaça e viabilidade econômica, além de um passo a passo prático para avaliar quando o ganho de peso efetivamente remunera a suplementação.

 

Oferta e qualidade de forragem: o ponto de partida de qualquer suplemento.

A avaliação da oferta e da qualidade da forragem é a base para qualquer decisão nutricional em sistemas a pasto. A quantificação da massa de forragem, da estrutura do dossel e da composição morfológica, associada à determinação dos teores de proteína bruta, fibra em detergente neutro e sua fração indigestível, permite estimar com maior precisão o consumo potencial, o valor nutritivo da dieta ingerida, definindo a real necessidade de suplementação (Barbero et al., 2015; Moreno et al., 2023).

Durante o período seco, a redução acentuada no teor de proteína e o avanço do amadurecimento estrutural da forragem comprometem a degradação da fibra e o metabolismo do nitrogênio, caracterizando uma limitação ruminal típica. Nessas condições, a suplementação proteica melhora a digestão da fibra, o fluxo de nitrogênio e a eficiência de uso da ureia reciclada, restabelecendo a fermentação e viabilizando o aproveitamento energético da forragem, com reflexos positivos sobre o desempenho animal (Batista et al., 2016; Batista et al., 2017; Detmann et al., 2014; Rufino et al., 2016).

Mesmo no período chuvoso, quando a forragem apresenta maior teor proteico, persistem limitações nutricionais associadas às características das pastagens tropicais. O rápido crescimento das gramíneas pode aumentar a proporção de tecidos de sustentação, reduzir a relação lâmina:colmo e limitar o acesso ao material de maior valor nutritivo, dependendo do manejo do pasto (Barbero et al., 2015; Barbizan et al., 2020).

Além disso, o aumento da matéria orgânica digestível eleva a demanda por compostos nitrogenados para sustentar a fermentação e a síntese microbiana; quando essa exigência não é atendida, ocorre desbalanço entre energia fermentável e nitrogênio disponível, reduzindo a eficiência ruminal (Detmann et al., 2024). Assim, suplementar deve ser um ajuste do ambiente ruminal: no período seco, para recuperar fermentação e nitrogênio; no período chuvoso, para sincronizar energia e nitrogênio conforme a meta de desempenho.

 

Objetivo da suplementação: ganho adicional de peso e terminação antecipada

Embora a suplementação possa, ocasionalmente, ser utilizada para evitar perda de peso em situações emergenciais, esse não deve ser o propósito central do sistema. Suplementar para “manter” o peso geralmente reflete falhas de planejamento forrageiro e gera respostas limitadas. Em condições normais de manejo, a suplementação deve ser entendida como uma estratégia para elevar o desempenho e otimizar o ciclo produtivo.

Assim, quando o objetivo passa a ser o aumento de desempenho, a suplementação concentrada torna-se uma ferramenta capaz de ampliar de forma consistente o ganho médio diário em ambas as estações do ano, ainda que com magnitudes distintas entre período seco e chuvoso. Conforme ilustrado na Figura 1 (adaptada de Almeida et al., 2022), animais com menor desempenho a pasto — condição típica da seca — apresentam resposta mais pronunciada ao suplemento, enquanto, no período chuvoso, o suplemento mantém efeito positivo, porém com incrementos mais moderados devido ao maior potencial nutritivo da forragem.

Como demonstrado por trabalho desenvolvido pelo nosso grupo de estudos, essa diferença na resposta entre estações não se limita ao ganho médio diário, mas se traduz em trajetórias de crescimento distintas ao longo do ciclo produtivo (Diniz et al.,2025), em que animais mantidos sem suplementação apresentam curva de crescimento lenta e incompatível com metas de abate precoce.

Por outro lado, a nossa hipótese inicial era de que suplementar somente na seca evitaria a restrição nutricional desse período, permitindo crescimento semelhante ao de animais suplementados o ano todo, e que suplementar apenas nas águas poderia gerar um ganho compensatório capaz de eliminar o atraso acumulado. No entanto, os resultados mostraram outra dinâmica (Figura 2).

Nos primeiros 45 dias da estação chuvosa, os animais que não receberam suplemento concentrado durante o período seco e passaram a receber concentrado na estação chuvosa apresentaram um ganho compensatório claro, crescendo mais rapidamente nas primeiras semanas; porém, esse efeito foi transitório: após a fase inicial, as taxas de ganho se igualaram às dos demais planos nutricionais, e o impulso inicial não foi suficiente para recuperar o déficit acumulado (Diniz et al. 2025).

Dessa forma, a suplementação (8 g/kg de PV) em apenas uma estação, seja na seca ou no período chuvoso, promove avanços pontuais no desempenho, porém não o suficiente para que os animais alcancem o mesmo peso na mesma idade que aqueles suplementados continuamente em ambas as estações (Figura 2).

A suplementação na seca, mesmo sob forragem de baixa qualidade, pode não alterar o ganho nas águas nem na terminação; ainda assim, maiores níveis de suplemento no período chuvoso tendem a elevar o peso de entrada no confinamento e a reduzir em 17 a 30 dias o tempo de cocho. Esses resultados reforçam que o desempenho em cada estação depende do histórico nutricional e que planos mais coerentes ao longo da recria — especialmente com maior aporte de proteína na seca e nas transições — aumentam o peso na entrada do confinamento e encurtam a terminação.

Em síntese, a suplementação deve ser planejada como estratégia contínua, alinhada à sazonalidade da forragem e a metas claras de desempenho, para acelerar a recria e antecipar a terminação, elevando a eficiência global do sistema (Sampaio et al., 2017; Roth et al., 2017).

 

Quanto fornecer? Ajustando o tipo e nível de suplementação ao ganho desejado.

 

Como discutido no tópico anterior, a sazonalidade climática tropical e subtropical altera a oferta e o valor nutritivo da forragem, determinando variações no desempenho potencial dos animais. No período chuvoso, sob manejo adequado do pastejo, pastagens de capim-Marandu mantidas entre 25 e 35 cm e com adubação anual em torno de 180 kg/ha de N:P₂O₅:K₂O associada a 160 kg/ha de nitrogênio podem sustentar ganhos próximos de 1,0 kg/dia (Reis et al., 2018). Entretanto, na maioria dos sistemas comerciais, limitações de manejo e a amplitude sazonal reduzem a estabilidade do ganho, tornando a suplementação necessária para aproximar o desempenho observado da meta previamente definida. 

Para orientar “quanto fornecer” com base em evidências, sínteses quantitativas em sistemas tropicais indicam que o ganho médio diário tende a ser maior no período chuvoso do que no período seco, refletindo o maior suporte nutricional da pastagem nas águas. Além disso, independentemente da estação, o desempenho responde ao nível de suplemento: animais sem suplemento apresentaram 0,49 kg/dia, enquanto fornecimentos entre 0,1 e 0,49% do peso vivo resultaram em 0,59 kg/dia; entre 0,5 e 0,99%, em 0,71 kg/dia; e acima de 1,0%, em 0,88 kg/dia, evidenciando uma relação dose–resposta que deve ser ajustada ao ganho-alvo e ao contexto produtivo (Tambara et al., 2021).

Outra estratégia relevante para modular a resposta produtiva em sistemas intensivos a pasto envolve a integração entre o nível de suplemento e o manejo e a fertilização da pastagem, especialmente quando diferentes alturas de dossel são adotadas como referência de manejo. Em pastagem de capim-Marandu adubada com 180 kg/ha de N:P₂O₅:K₂O (4:14:8) e 160 kg/ha de nitrogênio na forma de ureia, Barbero et al. (2015) avaliaram cenários combinando altura do dossel e suplementação concentrada: 1- dossel mantido a 15 cm com fornecimento de suplemento a 0,6 % PV; 25 cm com 0,3% PV; e 35 cm sem suplemento concentrado (Tabela 1).

Embora o ganho médio diário tenha permanecido semelhante entre os sistemas, observaram-se diferenças marcantes na taxa de lotação e, principalmente, no ganho de peso por hectare. O sistema mais intensificado sustentou maior lotação e maior produção por área, enquanto os sistemas menos intensificados apresentaram valores intermediários ou inferiores, reforçando que ajustes combinados de manejo e suplementação impactam diretamente a eficiência do sistema.

Assim, “quanto fornecer” deve ser definido como parte de uma decisão integrada, em que o nível de suplemento é ajustado ao potencial da pastagem e ao objetivo de desempenho, priorizando eficiência e produtividade do sistema.

Quando o ganho de peso remunera a suplementação? Passo a passo para fazer a conta.

 

A suplementação remunera quando o valor econômico do ganho adicional de peso, associado ao aumento da produtividade por área e/ou à antecipação do ciclo, supera o custo total do suplemento. A seguir, apresenta-se um exemplo prático, baseado em parâmetros compatíveis com sistemas de recria intensificada à pasto no período chuvoso.

 

Ganho médio diário apenas a pasto: 0,50 kg/dia
Ganho médio diário com suplementação: 0,75 kg/dia
Período de suplementação: 120 dias
Ganho adicional com suplementação: 0,25 kg/dia
Consumo de suplemento: 0,22% do peso vivo (≈ 0,6 kg/animal/dia)
Custo do suplemento: R$ 2,80/kg
Custo operacional: R$ 0,10/animal/dia
Rendimento de carcaça: 50%
Preço do boi magro (@): R$ 360,00 (considerando a arroba do boi gordo de R$ 320,00)

 

Ganho apenas a pasto em 120 dias: 0,50 × 120 = 60 kg PV
Ganho com suplementação em 120 dias: 0,75 × 120 = 90 kg PV
Ganho adicional: 90 − 60 = 30 kg PV por animal

Ganho adicional em carcaça: 30 × 0,50 = 15,0 kg de carcaça
Arrobas adicionais: 15,0 ÷ 15 = 1,00 @

Receita adicional por animal: 1,00 × 360 = R$ 360,00

Custo do suplemento: 0,6 kg × 120 dias × R$ 2,80 = R$ 201,60
Custo operacional: 0,10 × 120 = R$ 12,00
Custo total da suplementação: R$ 213,60 por animal

Receita adicional: R$ 360,00
Custo total: R$ 213,60
Resultado líquido da suplementação: + R$ 146,40 por animal

O ponto de equilíbrio ocorre quando a receita gerada pelo ganho adicional é igual ao custo diário total do plano. Neste exemplo, o custo diário do suplemento é: 0,6 × 2,80 = R$ 1,68/dia, e o custo operacional é R$ 0,10/dia, totalizando R$ 1,78/dia. Considerando rendimento de carcaça de 50% e preço de R$ 360/@, cada 1,0 kg de peso vivo adicional equivale a 0,50 kg de carcaça, ou 0,033 @; portanto, gera R$ 12,00 por kg de peso vivo (0,033 × 360). Assim, o ganho adicional mínimo necessário para remunerar o custo diário do plano é:

GMD mínimo = 1,78 ÷ 12,00 = 0,15 kg/dia.

Em 120 dias, isso representa aproximadamente 17,8 kg de peso vivo (0,15 × 120), ou 0,59 @ adicionais (17,8 × 0,50 ÷ 15).

Da pastagem ao frigorífico: como a suplementação influencia o rendimento e qualidade da carne.

A suplementação influencia a composição da carcaça principalmente por meio da deposição de gordura subcutânea, tecido de desenvolvimento tardio e altamente sensível ao balanço energético da dieta. Animais submetidos a restrições nutricionais prolongadas tendem a priorizar a deposição de tecido muscular em detrimento do adiposo, resultando em carcaças com menor cobertura de gordura (Silva et al., 2017). Essa resposta tem implicações tecnológicas relevantes, pois a gordura de cobertura atua como isolante térmico durante o resfriamento, reduz a velocidade de perda de calor e protege a carcaça contra desidratação, escurecimento e endurecimento superficial da carne.

Em contraste, planos nutricionais mais estáveis, com adequado suprimento energético e proteico ao longo das estações, favorecem maior espessura de gordura subcutânea, maior peso ao abate e melhor rendimento de carcaça, efeitos amplamente observados em bovinos Nelore sob condições tropicais. A deposição de gordura intramuscular (marmoreio), por sua vez, apresenta menor sensibilidade às variações moderadas de suplementação em sistemas a pasto, especialmente em animais zebuínos, sendo mais dependente de fatores genéticos e da duração do plano nutricional.

Apesar dos efeitos consistentes sobre rendimento e acabamento, a suplementação exerce influência limitada sobre os atributos clássicos de qualidade da carne, como pH final, força de cisalhamento e características instrumentais de cor. Em sistemas a pasto, a estabilidade da cor e a menor oxidação lipídica estão mais associadas ao perfil antioxidante da dieta forrageira do que ao nível de suplementação concentrada, contribuindo para a manutenção da qualidade visual e sensorial da carne. Assim, a suplementação em sistemas tropicais atua prioritariamente como ferramenta para aumentar o rendimento e a previsibilidade da carcaça, sem comprometer a qualidade da carne (Ramos et al., 2022).

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