CUNICULTURA: UM AGRONEGÓCIO SUSTENTÁVEL E LUCRATIVO, MAS CARENTE DE TECNOLOGIAS NO BRASIL

Com vasto potencial produtivo no Brasil e no mundo, a cunicultura se encontra em constante desenvolvimento pela gama de possibilidades em produtos e serviços. Compreendida como a criação racional de coelhos, de forma produtiva e econômica, oferece aos produtores a oportunidade de aproveitar o animal quase que por completo, desde a carne (produto nobre), até seus coprodutos, como a pele, dejetos (fezes e urina), sangue, cérebro, olhos e as vísceras, se apresentando uma atividade sustentável por reduzir a geração de resíduos potencialmente poluidores ao meio ambiente, além de agregar valor aos resíduos e potencializar a rentabilidade.

Atualmente, a produção de coelhos possui um nicho específico de mercado tanto para cunicultura pet (os denominados coelhos de companhia), quanto para a cunicultura de corte (produção de carne), sendo uma das poucas culturas produtivas que possui as duas vertentes muito bem consolidadas, se mostrando a mais versátil entre as espécies de produção, ainda com excelente capacidade no ramo do artesanato, pelo aproveitamento das patas, cauda e pele para a confecção de chaveiros e souvenirs.

Além disso, possui grandes participações no ramo da medicina, terapia assistida, fazendas de caça e repovoamento de áreas degradadas, sendo um animal utilizado como fonte alimentar na cadeia alimentar de animais que serão reintroduzidos em vida livre, como grandes felinos e caninos, répteis (cobras) e aves de rapina. 

Conhecido por ter um grande potencial agrícola com grandes extensões de terra, o Brasil se destaca por possuir diversas atividades zootécnicas, dentre as quais a cunicultura que, mesmo pouco difundida, quando comparada a outras espécies, está progredindo gradualmente. A produção de coelhos é uma alternativa viável, principalmente para pequenos e médios produtores, que buscam uma forma extra de garantir sua renda. 

A cunicultura é uma atividade de baixo investimento inicial, podendo ser desenvolvida em pequenos espaços, baixo investimento de manutenção, principalmente com a alimentação, por ser possível utilizar resíduos agroindustriais ou forragem produzida na propriedade, e ainda possui fácil administração, devido à docilidade e pequeno porte dos animais, com rápido retorno financeiro, por conta do rápido ciclo reprodutivo dos animais.

Além disso, é uma das poucas atividades pecuárias que poder ser desenvolvida em fazendas verticais, devido à possibilidade de cultivar coelhos em gaiolas coletivas ou parques em andares sobrepostos (Figura 1).

 

Figura 1.Produção de coelhos em criação vertical. (Arquivo próprio).

Figura 1. Produção de coelhos em criação vertical. (Arquivo próprio).

Segundo o último sendo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, realizado em 2017, a população de coelhos no Brasil foi estimada em 200.345 animais, distribuídos em 16.095 estabelecimentos, sendo o Estado do Rio Grande do Sul o maior produtor de coelho do país (Figura 2).

Figura 2.Mapa do Brasil- tamanho do rebanho de coelhos (cabeças). Fonte: Censo agropecuário (IBGE, 2017).

Figura 2. Mapa do Brasil- tamanho do rebanho de coelhos (cabeças). Fonte: Censo agropecuário (IBGE, 2017).

Contudo, esses dados não representam a quantidade real de coelhos no Brasil, visto que além de terem sido gerados há quase 10 anos, apresentam algumas inconsistências (MACHADO & CASTILHA, 2024). 

No entanto, a FAOSTAT, principal base de dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), estimou em 2019 que o Brasil abateu mensalmente 65.083 animais (FAO, 2020), sendo em 2022 produzidas 852 toneladas de carne de coelho (FAOSTAT, 2024), com consumo estimado de 4 g/habitante/ano (MACHADO & CASTILHA, 2024).

Mesmo possuindo grandes possibilidades de entrega dentro da cadeia produtiva, a cunicultura brasileira enfrenta diferentes gargalos, principalmente aqueles referentes à falta de estrutura e organização do setor, como pouco material genético, quantidade insuficiente de abatedouros distribuídos ao longo de todo território nacional, baixo processamento da carne de coelho e reduzido número de profissionais qualificados no mercado.

Contudo, para o produtor de coelhos (cunicultor), há outros pontos que se tornam relevantes para a granja e que podem, se não controlados, trazer prejuízos para a produção, como a alta mortalidade dos láparos do nascimento ao desmame, que ocorre por volta dos 35 dias de vida.

A perda de animais no período pós-parto até o desmame é o certamente o ponto mais crítico na cunicultura brasileira, pois ao nascerem os filhotes são totalmente dependentes dos cuidados maternos, desde a construção dos ninhos, que ocorre em torno de 5 dias antes do parto. Basicamente, as coelhas removem os pelos do ventre e dos membros para camuflar e aquecer os filhotes. Além disso, embora pouco frequente, a alimentação dos láparos através do leite é crucial para seu desenvolvimento durante as duas primeiras semanas de vida.

Segundo Machado et al. (2021), a mortalidade de filhotes nas granjas cunículas pode variar entre 11% e 43% (em casos de centros de pesquisa e de acordo com as condições experimentais), valor elevado quando comparado a outras criações zootécnicas, como avicultura (média de 2% de mortalidade) e suinocultura (média de 5% de mortalidade). 

Principalmente nos primeiros 10 dias, os filhotes de coelhos são muito sensíveis às intempéries ambientais, pois ainda não possuem o sistema imunológico totalmente desenvolvido e encontram grandes dificuldades em manter a homeotermia corporal (MIRANDA & CASTILHA, 2020), já que possuem a temperatura de conforto térmico diferente das fêmeas.

Além disso, nascem com os olhos fechados, abrindo-os após os 10 dias de nascimento, sendo o olfato seu principal sentido nos primeiros dias de vida, o que os impede de se autodefenderem, até mesmo contra o pisoteio pela própria matriz no ato de amamentar. 

Do nascimento aos 15 dias de vida, os filhotes possuem o leite da fêmea como único e principal fonte de alimento, sendo um fluido natural produzido e liberado através das glândulas mamárias, essencial para o desenvolvimento pós-natal.

Após esse período, dão início à transição da alimentação líquida para a sólida, consumindo a ração presente no comedouro, momento em que a quantidade de leite ingerida pelos filhotes diminui e a quantidade de ração aumenta até cessar por completo no desmame. 

Dessa forma, além dos problemas relacionados ao desenvolvimento dos filhotes, complicações relacionadas às matrizes também podem ocorrer, como abortos, infanticídios e partos distócicos, além daqueles que podem impactar diretamente na sobrevivência da prole, como o desenvolvimento de algumas doenças que acometem as glândulas mamárias (metrite, mastite e mamite), a hipogalactia (produção insuficiente de leite), agalactia (ausência de produção de leite), abandono da prole e até a morte da fêmea.

Diante do exposto, desenvolver estratégias que busquem minimizar os danos causados por eventuais entraves se faz importante para que os cunicultores não tenham prejuízos em sua produção, uma vez que no Brasil a maior parte das granjas de coelhos são constituídas por pequenos e médios produtores, e ainda há um alto número de agricultores familiares que fazem o uso da cunicultura como forma de subsistência.

Sendo assim, o desenvolvimento de estratégias para a sobrevivência desses filhotes é primordial, cenário em que a compreensão da composição do leite da coelha constitui uma medida urgente para a formulação de um substituto específico para os láparos (sucedâneo). 

Com o objetivo de desenvolver uma estratégia para redução da mortalidade de láparos até o período do desmame, uma pesquisa de doutorado está sendo realizada no Centro de Estudos em Coelhos – CECO, pertencente à Universidade Estadual de Maringá – UEM, no Estado do Paraná, por meio do Programa de Pós-Graduação em Zootecnia – PPZ.

Para compreender a produção e a composição do leite das coelhas, 30 matrizes da raça Nova Zelândia Branco foram estudas, avaliando-se a produção total de leite e sua composição 1, 7, 14, 21, 28 e 35 dias após o parto. Para isso, 24h antes de cada dia da coleta, as matrizes foram separadas de suas ninhadas, permanecendo distantes dos filhotes para que não amamentassem e tivessem leite suficiente para a ordenha, realizada através de um protocolo de ordenha especialmente desenvolvido para coelhas na UEM, cuja metodologia consistia em estímulo hormonal (ocitocina), exposição aos láparos, massagens manuais e sucção mecânica.

Foi utilizado como ordenhadeira um aspirador cirúrgico de sangue e saliva (MD 100 – Medicate ®), com um tubo Falcon de 50ml acoplado à ponta da mangueira para coleta do leite. Contudo, para induzir fisiologicamente a liberação do leite, foi apresentado um láparo, que permaneceu cerca de 20 segundos em lactação para auxiliar no início da coleta.

Além disso, durante toda a ordenha, foram realizadas massagens manuais para auxiliar na sucção pelo aspirador, sendo feita a coleta em todos os pares de teto das matrizes. A figura 3 apresenta um esquema do método de ordenha.

Após a ordenha, as fêmeas foram colocadas novamente com os filhotes e mensurada a quantidade de leite consumido pelos mesmos através do método de pesar-amamentar-pesar (Ferguson et al., 1997). O resultado dessa etapa da pesquisa revelou que a produção de leite se mostra crescente até os 21 dias, decaindo em seguida (figura 4). 

Figura 4.Produção de leite de coelha da raça Nova Zelândia Branco ao longo de 35 dias de lactação.

Figura 4. Produção de leite de coelha da raça Nova Zelândia Branco ao longo de 35 dias de lactação.

No início da produção (dia 1), produziu-se em média 85ml de leite, chegando ao pico de lactação (21 dias) com uma média de 125ml de leite produzido. Ao final do período de amamentação (35 dias de lactação), a média da produção de leite foi de 37ml por fêmea, sendo que algumas fêmeas já haviam realizado o desmame precoce dos filhotes e não estavam mais produzindo leite. A figura 5 aborda alguns momentos referentes a coleta de leite e a amamentação pela fêmea.

Figura 5.À esquerda, a ordenhadeira coletando leite. Ao centro, dois tubos de leite coletado. À direita, fêmea amamentando os filhotes após a ordenha (Arquivo próprio).

Figura 5. À esquerda, a ordenhadeira coletando leite. Ao centro, dois tubos de leite coletado. À direita, fêmea amamentando os filhotes após a ordenha (Arquivo próprio).

Em estudos anteriores, a composição do leite de fêmeas da mesma raça foi avaliada (Tabela 1), indicando aproximadamente 14,44% de gordura, 10,77% de proteína, 1,92% de minerais, 2,09% de lactose e 1.694,22 Kcal/L de energia bruta, além da estratificação dos minerais. Dessa forma, o leite da coelha se mostra extremamente gorduroso e proteico e pobre em lactose quando comparado a outras espécies de interesse zootécnico, se apresentando 3 vezes mais rico em gordura e proteína e 2 vezes mais pobre em lactose que o leite bovino (Maertens et al., 2006), o que garante um desenvolvimento inicial acelerado aos filhotes.

Tabela 1.Composição média do leite da coelha Nova Zelândia Branco ao longo da lactação (35 dias).

Tabela 1. Composição média do leite da coelha Nova Zelândia Branco ao longo da lactação (35 dias).

Para todas as análises 5 fêmeas foram utilizadas, sendo coletado o leite nos dias 1, 7, 14, 21 e 28 dias de lactação e realizada uma média.

Para que o desenvolvimento de um sucedâneo seja efetivo, outros fatores devem ser avaliados, como a quantidade de leite consumida diariamente pelos filhotes. Dessa forma, outro estudo foi realizado, no qual 10 ninhadas com 8 filhotes foram submetidas ao aleitamento controlado.

Esse método de aleitamento consiste em separar a fêmea dos filhotes e direcionar apenas para amamentar, sendo reservadas 2 gaiolas por fêmea: uma para a instalação do ninho e outra para a separação da matriz dos filhotes.

Após o parto, os láparos receberam o colostro (primeiras 72 horas) e em seguida a fêmea foi retirada da gaiola, sendo colocada diariamente no período da manhã para amamentar durante 10 minutos, uma vez ao dia, até que os láparos atingissem 35 dias de vida. A partir dos 16 dias de vida, foi acrescentada a ração ao comedouro dos láparos (300g por dia). Os resultados do consumo de leite e ração estão expressos na figura 6.

Figura 6.Consumo de leite, ração e ganho de peso diário de láparos da raça Nova Zelândia Branco do nascimento ao desmame (35 dias de vida) sob condições de aleitamento controlado.

Figura 6. Consumo de leite, ração e ganho de peso diário de láparos da raça Nova Zelândia Branco do nascimento ao desmame (35 dias de vida) sob condições de aleitamento controlado.

Observa-se que os animais nasceram com média de 54g e terminaram o período experimental com média de 536g. Além disso, houve aumento na quantidade de leite ingerida pelos filhotes até os 20 dias de lactação, registrando-se o consumo de 40g de leite ingerido por filhote.

A partir desse ponto, houve uma diminuição do consumo de leite pelos filhotes, chegando ao final do período experimental (35 dias) com consumo médio de 10g de leite/dia. Contudo, nota-se que a transição da alimentação líquida para a sólida se deu a partir de 17 dias de vida, momento em que os animais começaram a consumir a ração diretamente no comedouro.

Essas informações permitirão definir o padrão de ingestão alimentar dos láparos, além dos dados referentes à produção e composição do leite das coelhas, oportunizando o desenvolvimento de uma fórmula artificial do leite da coelha, algo ainda inexistente no Brasil, e que poderá resultar na amamentação artificial de coelhos (Figura 7), especialmente direcionada para os animais órfãos ou cujas mães apresentem produção de leite insuficiente.

Figura 7.Filhote de coelho sendo amamentado artificialmente com mamadeira para cães e gatos (Arquivo próprio).

Figura 7. Filhote de coelho sendo amamentado artificialmente com mamadeira para cães e gatos (Arquivo próprio).

Os próximos passos da pesquisa  em desenvolvimento na UEM serão a determinação da composição de micronutrientes, como aminoácidos, vitaminas, ácidos graxos e microminerais, buscando definir todos os constituintes presentes no leita da coelha, para o desenvolvimento de um sucedâneo completo, capaz de ser produzido em escala comercial, utilizando como base o substituto de leite humano sem lactose.

 

CUNICULTURA: UM AGRONEGÓCIO SUSTENTÁVEL E LUCRATIVO, MAS CARENTE DE TECNOLOGIAS NO BRASIL

🔒 Contenido exclusivo para usuarios registrados.

Regístrate gratis para acceder a este post y a muchos más contenidos especializados. Solo te llevará un minuto y tendrás acceso inmediato.

Iniciar sesión

Regístrate en nutriNews

REGISTRARME