Bioinsumos e microbioma entram na conta da redução de antimicrobianos

Luiz Carlos Demattè Filho, CEO da Korin, defendeu que reduzir a pressão antimicrobiana exige gestão sistêmica de ambiente, nutrição funcional, microbioma, bem-estar e rastreabilidade.

15 maio 2026

Bioinsumos e microbioma entram na conta da redução de antimicrobianos

Bioinsumos e microbioma entraram na conta da redução de antimicrobianos na produção animal como parte de uma gestão sistêmica, não como simples substituição de aditivos. Essa foi a principal leitura técnica da palestra de Luiz Carlos Demattè Filho, CEO da Korin, durante a 36ª Reunião Anual do CBNA. Embora a apresentação tenha dialogado com o novo marco dos bioinsumos, o eixo mais amplo foi a Saúde Única, a resistência antimicrobiana, o ambiente produtivo, a produção sem antibióticos e o condicionamento microbiológico dos sistemas.

Segundo Demattè, produzir aves sem antibióticos, promotores de crescimento e anticoccidianos não depende apenas da retirada de moléculas. A transição exige uma arquitetura produtiva baseada em bem-estar animal, meio ambiente expandido, nutrição funcional e enriquecimento ou condicionamento do microbioma do ambiente. A palestra posicionou o microbioma como eixo de resiliência produtiva, imunidade, sanidade e redução da pressão antimicrobiana.

Saúde Única como prática produtiva

Os slides apresentados por Demattè relacionaram saúde humana, animal e ambiental dentro da abordagem de Saúde Única. Segundo o palestrante, o conceito ganhou novas camadas com a evolução dos estudos sobre microbioma, solo, plantas, intestino, sistema imune e saúde humana. Na produção animal, essa leitura desloca o foco do tratamento corretivo para a prevenção e para a gestão do ecossistema produtivo.

Na palestra, a microbiota intestinal foi apresentada como primeira linha de defesa, com participação na integridade da barreira intestinal, modulação de respostas imunes, estímulo à produção de IgA, ativação de macrófagos e suporte à tolerância imune. A mensagem técnica é que saúde intestinal e ambiente microbiologicamente equilibrado não são temas acessórios. Na leitura do palestrante, eles compõem a base de sistemas menos dependentes de antimicrobianos.

Resistência antimicrobiana vira risco sanitário, ambiental e econômico

Demattè também apresentou a resistência antimicrobiana como risco sistêmico. Os slides trouxeram projeção de 39 milhões de mortes atribuídas diretamente à resistência antimicrobiana até 2050 e indicaram que cerca de 73% dos antibióticos seriam destinados à produção animal, com 100 mil a 110 mil toneladas anuais em 2022/2023 e projeção de aumento de 11,5% até 2030. Esses números foram apresentados na palestra com base em estudos e relatórios citados nos slides e devem ser entendidos nesse contexto.

Outro bloco apresentado relacionou a resistência antimicrobiana a risco econômico, com referência a 1,27 milhão de mortes diretamente atribuídas, 3,68 milhões indiretamente atribuídas e potencial perda de até US$ 3,4 trilhões no PIB global até 2030. Esse recorte não transforma a produção animal em causa única do problema, mas mostra que cadeias de proteína estão cada vez mais expostas a exigências sanitárias, comerciais, regulatórias e ambientais.

Produção sem antibióticos exige sistema, não atalho

O modelo apresentado por Demattè diferenciou produção livre de antibióticos de resíduo zero. Segundo os slides, o sistema ABF pressupõe ausência de antibióticos desde o nascimento ou a eclosão, além de biosseguridade rigorosa, nutrição funcional, uso de prebióticos, probióticos e óleos essenciais, densidade reduzida, auditoria, certificação, rastreabilidade e valor agregado.

Na leitura do palestrante, esse sistema depende de condicionamento microbiológico das unidades produtivas. As imagens mostradas na apresentação associaram aplicações no ambiente ao controle de patógenos, à redução de pressão sanitária e à produção sem antibióticos. O ponto é tecnicamente importante porque tira microbioma do campo abstrato e o coloca como prática de manejo, monitoramento e governança produtiva.

Dados de Salmonella pedem atenção e cautela

Entre os dados mais fortes da apresentação, Demattè mostrou um comparativo de positividade para Salmonella entre sistema livre de antibióticos e sistema convencional. Segundo os slides apresentados pelo palestrante, a positividade total foi de 2,30% no sistema livre de antibióticos contra 14,47% a 14,5% no sistema convencional, indicando cerca de 6,3 vezes mais positividade no sistema convencional no recorte avaliado.

O dado tem grande relevância técnica, mas exige atribuição clara. Ele deve ser entendido como resultado de estudo ou levantamento apresentado por Demattè, no contexto dos sistemas comparados, e não como prova universal de superioridade de todos os modelos livres de antibióticos. Nos slides, também foram apresentadas amostragens em etapas da cadeia, como antes do alojamento, metade do alojamento, final do alojamento, abatedouro, produto final e efluentes. O palestrante destacou ainda ausência de Salmonella, E. coli e Enterococcus sp. nas seis coletas de efluentes, ponto que relacionou a impacto ambiental, tratabilidade e potencial de reuso da água.

Bioinsumos entram como avenida tecnológica, não como solução mágica

A Lei nº 15.070/2024 apareceu na palestra como pano de fundo para uma possível reorganização do desenvolvimento tecnológico em soluções biológicas. Demattè tratou os bioinsumos como categoria capaz de reconhecer produtos para uso pecuário e aquícola, controle e prevenção de patógenos no animal e no ambiente, alimentação animal, reguladores homeostáticos, melhoradores do ambiente, manejo de resíduos, revestimento funcional e novas tecnologias.

O cuidado é importante: enquanto a regulamentação e os registros não estiverem plenamente operacionalizados, não convém afirmar que qualquer solução já seja oficialmente bioinsumo apenas por ter base biológica. Para a nutrição animal, porém, a direção apresentada pelo palestrante é relevante. A possibilidade de trabalhar com comunidades microbianas, consórcios, soluções ambientais e revestimentos funcionais pode ampliar a fronteira entre aditivos, microbioma, ambiência e redução de antimicrobianos.

O retorno passa pelo ambiente produtivo

A palestra de Demattè reforça que a redução de antimicrobianos precisa ser tratada como projeto de sistema. Na avaliação do palestrante, ambiente, bem-estar, nutrição funcional, diversidade microbiana, monitoramento de fornecedores, biosseguridade e rastreabilidade formam uma mesma arquitetura produtiva. Sem essa integração, o risco é transformar bioinsumos e microbioma em discurso comercial, sem mudança efetiva de pressão sanitária.

Para a nutriNews Brasil, o ponto mais forte é justamente esse: a próxima fase da nutrição animal não será definida apenas por ingredientes ou aditivos, mas pela capacidade de manejar ecossistemas produtivos. Bioinsumos e microbioma entram na conta porque a redução de antimicrobianos depende de saúde intestinal, estabilidade ambiental e evidência mensurável.

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