Consultório e feed: a nutrição de gatos vira disputa pela confiança do tutor

Palestras no XXV Congresso CBNA Pet 2026 mostraram que o avanço do mercado felino ocorre em paralelo a uma mudança na forma como responsáveis por gatos buscam, interpretam e aplicam informações sobre alimentação, saúde e produtos pet

20 maio 2026

Consultório e feed: a nutrição de gatos vira disputa pela confiança do tutor

Entre o consultório e o feed, a nutrição de gatos vira disputa pela confiança do tutor

Por redação nutriNews Brasil

O crescimento do mercado de gatos no Brasil vem acompanhado de uma mudança decisiva para a nutrição pet, ou seja, a decisão alimentar do tutor já não se forma apenas no consultório, no ponto de venda ou na recomendação técnica tradicional. Ela passa também pelo feed, pelos vídeos curtos, pelos rankings de produtos, pelos conteúdos de influenciadores e pelas narrativas que prometem traduzir ciência em respostas rápidas. Esse foi um dos eixos que atravessou o bloco de mercado e a mesa-redonda sobre comunicação ética em nutrição de cães e gatos no XXV Congresso CBNA Pet 2026.

A leitura conjunta das apresentações de Anderson Conejo, gerente de marketing para a América Latina da Symrise Pet Food, da médica-veterinária Fernanda Yamamoto, influenciadora digital, integrante da Geração Z e membro da SBNutriPet, e da médica-veterinária e comunicadora digital Carla Maion, responsável pelo perfil VetNutri®/@vet_nutri, aponta que o setor de nutrição pet precisa disputar a confiança do tutor no ambiente em que ele busca respostas antes de comprar, trocar de dieta, questionar o veterinário ou aderir a uma recomendação alimentar.

O gato como pet do estilo de vida contemporâneo

Na palestra “Alimento para gatos: perspectivas de mercado e ótica de seus responsáveis”, Anderson Conejo apresentou o avanço do segmento felino a partir de dados de mercado e comportamento de consumo. Segundo os slides atribuídos a Passport/Euromonitor, o Brasil aparece entre as maiores populações globais de gatos, com cerca de 40 milhões de animais em 2025. No universo brasileiro de pets apresentado na palestra, estimado em torno de 114 milhões de animais, os gatos representariam aproximadamente 35% dos indivíduos quando comparados ao conjunto de cães por porte e gatos.

Para Conejo, esse crescimento não pode ser lido apenas como aumento populacional. Ele estaria ligado a mudanças socioculturais, habitacionais, econômicas e digitais. O gato foi apresentado como um pet aderente ao estilo de vida contemporâneo, marcado por urbanização, moradias menores, rotinas híbridas, busca por companhia emocional, maior presença de tecnologia no cuidado e forte circulação de conteúdos nas redes sociais.

A palestra também mostrou uma tensão central para a indústria. Segundo dados apresentados por Conejo, responsáveis por gatos valorizam saúde, qualidade, naturalidade, benefícios específicos e percepção de frescor, mas parte relevante desse público apresenta maior sensibilidade a preço. No mercado brasileiro de pet food, o alimento para gatos foi apresentado com participação menor em volume do que o alimento para cães, mas com oportunidades importantes em valor, especialmente no alimento úmido, associado na apresentação à hidratação, frescor percebido e maior valor agregado.

Outro dado relevante apresentado no evento foi que a escolha da alimentação correta apareceu como um grande desafio para responsáveis por gatos. O slide citado por Conejo indicou 76% de menções a essa dificuldade. Para a nutrição pet, esse número ajuda a explicar por que o tutor busca orientação em diferentes canais e por que a comunicação técnica passa a ser parte estratégica do desenvolvimento de mercado.

Da confiança no veterinário à influência digital

A apresentação de Fernanda Yamamoto aprofundou justamente o ponto sobre o fato de que a autoridade técnica continua relevante, mas deixou de ser automática. Segundo a médica-veterinária, as novas gerações de tutores não buscam informação da mesma forma que as gerações anteriores.

A pesquisa, a comparação de opiniões e a formação de repertório sobre saúde e alimentação pet ocorrem cada vez mais em plataformas como Instagram, YouTube, TikTok, Reels e comunidades digitais.

Com base nos estudos citados em sua apresentação, Fernanda mostrou que o veterinário ainda é visto como fonte confiável por muitos tutores. Um dado apresentado em slide, de 2023, indicou que 88% dos tutores de animais de estimação concordaram que o exame físico e a conversa presencial com o veterinário são essenciais para o melhor cuidado do animal.

Ao mesmo tempo, a palestrante trouxe a leitura de que o protagonismo exclusivo do profissional passa a ser redistribuído quando tutores também recorrem à internet, a outros tutores e a influenciadores para interpretar temas de saúde e nutrição.

O ponto mais sensível da palestra não foi a existência das redes sociais, mas a assimetria entre quem domina a linguagem digital e quem detém a formação técnica.

Fernanda sintetizou o problema ao afirmar que há “muitos influenciadores querendo parecer experts e poucos experts dispostos a influenciar”. Para o setor de nutrição pet, a frase expõe um gargalo concreto: se especialistas, entidades e profissionais não ocupam o ambiente digital com linguagem acessível e rigor científico, outros atores ocupam esse espaço com maior velocidade.

A palestrante também alertou para o uso superficial de artigos científicos como argumento de autoridade. Segundo sua exposição, a simples apresentação de um estudo não garante interpretação correta, aplicabilidade clínica nem conclusão adequada para uma recomendação nutricional.

Esse ponto é especialmente importante em temas como alimentação natural, dieta crua, suplementação, alimentos comerciais, uso de ovos, proteínas, ômega 3 e mudanças na dieta de filhotes ou animais com necessidades específicas.

Quando a resposta rápida vira orientação alimentar

A palestra de Carla Maion levou o debate para o campo prático da desinformação em nutrição pet. A médica-veterinária partiu de exemplos de conteúdos que circulam nas redes para mostrar como rankings, listas de “melhores rações”, críticas genéricas à indústria, recomendações de alimentos extras, dietas cruas, suplementos, receitas caseiras e promessas naturais podem interferir na decisão do tutor.

Carla definiu o algoritmo de forma simples, como uma reação ao comportamento do usuário. Segundo ela, conteúdos que provocam pausa, indignação, medo, curiosidade ou sensação de “segredo revelado” tendem a ganhar alcance, mesmo quando não têm sustentação técnica. Na avaliação apresentada, a nutrição pet se tornou terreno fértil para mensagens absolutas, como “isso faz mal”, “isso está matando seu pet”, “ninguém te contou”, “eu indico” ou “eu não indico”.

A crítica da palestrante não foi à comunicação digital em si. Ao contrário, Carla defendeu que profissionais técnicos precisam ocupar as redes. O alerta foi direcionado à simplificação perigosa de temas que exigem avaliação individual, como formulação, qualidade de matéria-prima, digestibilidade, segurança, indicação clínica, palatabilidade, suplementação e uso de alimentos complementares. Segundo ela, o tutor não tem obrigação de conhecer fábrica, fonte proteica, palatabilizante ou detalhes de formulação; por isso, a responsabilidade pela orientação não pode ser transferida a conteúdos virais sem contexto.

Entre os exemplos citados, a palestrante abordou vídeos sobre dietas cruas e ancestralidade, alimentos específicos por raça, uso de sardinha, ovo, vísceras, petiscos e outros “extras” adicionados a alimentos completos e balanceados. Carla destacou que o risco não se limita à deficiência nutricional. Em sua prática clínica, segundo relatou na apresentação, também observa preocupação com excessos e alterações bioquímicas silenciosas associadas ao uso inadequado de complementos.

Mercado, ciência e reputação no mesmo feed

A convergência entre as três apresentações mostra que o desafio da nutrição de gatos não é apenas formular melhor ou desenvolver produtos com benefícios específicos. O setor também precisa explicar melhor o que faz, por que faz e para quem faz. Se o tutor tem dificuldade de reconhecer um alimento premium, se associa frescor majoritariamente à comida caseira, se busca benefícios de saúde mas é pressionado por preço, e se encontra nas redes respostas rápidas para dúvidas complexas, a comunicação passa a ser parte da cadeia de valor da nutrição pet.

Para a indústria, isso significa que claims, ingredientes, tecnologias, alimento úmido, saúde urinária, controle de peso, pele e pelagem, digestibilidade, proteína, naturalidade e sustentabilidade precisam ser comunicados com clareza técnica e sem promessas frágeis. Para nutricionistas veterinários e clínicos, significa reconhecer que a consulta não termina quando o tutor sai do consultório: muitas dúvidas serão retomadas depois, no celular, diante de conteúdos que podem confirmar, distorcer ou contradizer a orientação profissional.

Ao reunir mercado, comportamento e comunicação ética, o painel do CBNA Pet indicou que a nutrição de gatos entrou em uma fase em que ciência e influência convivem no mesmo ambiente de decisão. O avanço do mercado felino amplia oportunidades para alimentos mais técnicos, funcionais e alinhados às novas demandas dos tutores. Mas também exige que profissionais e empresas aprendam a disputar confiança no feed com a mesma seriedade com que disputam espaço no consultório, na formulação e no ponto de venda.

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