04 Feb 2021

Aves alimentadas com larvas de mosca têm redução nos problemas locomotores

Frangos alimentados com larvas vivas mostram um comportamento mais natural e desenvolvem pernas mais saudáveis. Isso foi demonstrado por pesquisas […]

Aves alimentadas com larvas de mosca têm redução nos problemas locomotores

Frangos alimentados com larvas vivas mostram um comportamento mais natural e desenvolvem pernas mais saudáveis. Isso foi demonstrado por pesquisas realizadas na Wageningen University & Research (WUR).

Estudos indicam que a maioria dos frangos de corte exibem algum grau de claudicação, e desses, 30% a 50% apresentam mobilidade reduzida (gait score* > 3). O ambiente comercial de criação de frangos de corte pode reduzir os níveis de atividade das aves e, portanto, aumentar a ocorrência de problemas locomotores. Vários estudos indicam que o incentivo à atividade desde o alojamento pode auxiliar o desenvolvimento ósseo e até mesmo aumentar os níveis de atividade ao final da produção.
Outro fator que impacta a locomoção e o bem-estar das aves é a umidade da cama e a concentração de amônia. Um dos benefícios de se aumentar a atividade das aves é a redução do tempo em que elas permanecem descansando e em contato com a cama, reduzindo assim, a propensão à dermatite de contato; e também ao fato de que ao se movimentarem os animais tendem a revolver e facilitar a secagem da cama, o que resulta em menor umidade e amônia, reduzindo queimadura dos coxins plantares.


Uma maneira de estimular a movimentação das aves é a alimentação com larvas vivas de mosca soldado negra, que é o objeto do estudo abordado pelos pesquisadores da WUR.

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Durante a pesquisa, as aves foram alimentadas com larvas vivas da mosca soldado negra (Hermetia illucens) em diferentes quantidades e em diferentes horários do dia. A quantidade fornecida foi de 5% e 10% da ingestão estimada de matéria seca da dieta, e disponibilizada para consumo duas e quatro vezes ao dia.

Pernas mais saudáveis


Os resultados obtidos pelos pesquisadores neste estudo da WUR demonstraram não só um aumento da atividade das aves, que se movimentaram mais ao se alimentarem das larvas, mas se mantiveram em alta atividade por até 30 min após as larvas serem oferecidas.
Outro resultado importante foi a diferença significativa no gait score, sendo encontrados maiores valores no grupo controle em comparação com as aves alimentadas com 5% de larvas duas vezes ao dia, e 10% de larvas, duas e quatro vezes ao dia.
Além disso, as queimaduras de jarrete foram significativamente menores nos grupos alimentados com 10% de larvas.

Desempenho das aves

Em relação ao peso final das aves, os autores observaram que não houve diferença entre o grupo controle e os tratamentos com as aves que consumiram larvas. Deste modo, o desempenho das aves não foi afetado pela maior movimentação ou pelo consumo em si das larvas. Em estudos prévios, alguns autores observaram que a ingestão de 5% de larvas teve efeito neutro ou positivo no ganho de peso de frangos, enquanto dietas com 10 a 15% de larvas resultaram em reduzido ganho de peso.

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O estudo concluiu que ao facilitar o comportamento de forrageamento, pelo estimulo com larvas vivas, o fornecimento de insetos pode beneficiar o bem-estar e reduzir os problemas de saúde das pernas.

Em conversa exclusiva com a nutriNews Brasil, o Dr. Ipema, que conduziu o estudo, acrescentou algumas informações. Ao ser perguntado sobre o uso das larvas vivas de mosca soldado negra na produção comercial em alta densidade o pesquisador respondeu:
Espero que o uso de farinha de larvas incorporada na ração de frangos seja fácil de se usar no futuro. Usar larvas inteiras vivas ou mortas será um pouco mais desafiador, embora, certamente seja possível. Se pesquisas futuras indicarem o efeito benéfico da alimentação com larvas no bem-estar de frangos mantidos em densidades maiores, isso pode ser motivo para as empresas se interessarem pelo seu uso
O pesquisador também pontuou a necessidade de legislação específica para o uso de larvas na alimentação animal. Porém ele destaca que mais pesquisas são necessárias para tirar conclusões claras sobre o efeito das larvas no desempenho, saúde e bem-estar dos frangos de corte.
Um dos pilares da avicultura industrial é a biosseguridade, e a introdução de larvas vivas nos galpões gera preocupações sanitárias, sobre esse assunto, o Dr. Ipema esclareceu que as preocupações com contaminação dependerão muito do tipo de substrato usado no cultivo da larva, larvas cultivadas em esterco são mais propensas a problemas sanitários em relação a larvas cultivadas em resíduos da alimentação humana.
Em relação ao interesse da melhora do ganho de peso em frangos de corte, o pesquisador esclareceu que:

Aumentar a frequência de fornecimento de larvas pode reduzir o impacto negativo na taxa de crescimento de frangos, provavelmente porque os frangos comerão menos larvas de uma vez, e isso os torna menos saciados e, portanto, mais propensos a continuar comendo sua ração regular. Reduzir a porcentagem de larvas pode ter efeitos semelhantes, embora isso provavelmente também diminua os benefícios de bem-estar para os frangos, pois reduz as oportunidades de forrageamento. Para aplicação comercial, é importante encontrar um bom equilíbrio entre os efeitos no desempenho e no bem-estar”.


E quais seriam os próximos passos? Uma vez que esse campo de pesquisa é novo e ainda não se tem validado seu uso comercial, o Dr. Ipema diz:
As próximas etapas envolveriam fazer pesquisas sobre o fornecimento de larvas em granjas comerciais. Além disso, seria bom fazer estudos comparativos dos efeitos da alimentação das aves com a inclusão de larvas como ingrediente da dieta ou como larvas inteiras vivas. Provavelmente faremos esses estudos no futuro, embora atualmente estejamos investigando se larvas vivas também podem ser usadas como alimento e enriquecimento para suínos”.

Artigo na integra: Provisioning of live black soldier fly larvae (Hermetia illucens) benefits broiler activity and leg health in a frequency – and dose – dependent manner
*gait score é uma medida de deficiência locomotora desenvolvida na Universidade de Bristol, Inglaterra e tem sido amplamente utilizada na avaliação de problemas locomotores. Nesse método, é atribuída uma nota relacionada com a habilidade da ave caminhar sobre uma superfície, sendo elas: 0 – sem problema; 1- move-se rápido, mas apresenta pequena deficiência; 2 – move-se rápido, mas apresenta deficiência; 3 – move-se rápido, mas apresenta deficiência maior; 4 – move-se com muita dificuldade e 5 – quase não se move, se arrasta com as asas.

Por: Márcia G. L. Cândido

Fonte: Wageningen University & Research (WUR)

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