10 set 2026
El Niño, instabilidade na produção de grãos e alta prevalência de contaminantes reforçam a necessidade de antecipar riscos que podem comprometer desempenho e eficiência alimentar
O risco das micotoxinas pode começar muito antes de a ração chegar aos animais. Em um cenário de El Niño forte, alterações nas condições de cultivo e maior volatilidade das matérias-primas, clima, disponibilidade de grãos, qualidade dos ingredientes e custo de produção passam a fazer parte da mesma equação para a cadeia de proteína animal.
Essa relação entre ambiente e produção foi apresentada por Adolfo Fontes, da área global de Inteligência de Mercado da dsm-firmenich, durante o 1º Encontro com Jornalistas da companhia, realizado nesta quarta-feira (9), em São Paulo. Segundo o cenário apresentado, a perspectiva de continuidade do El Niño até o início de 2027 adiciona incerteza ao calendário agrícola e à oferta de matérias-primas.
No Brasil, um dos pontos de atenção é o possível atraso no plantio da soja em regiões afetadas por condições mais secas. Caso isso ocorra, a janela da segunda safra de milho também poderá ser pressionada.
A preocupação não termina na disponibilidade do grão. As condições enfrentadas pela planta no campo também podem influenciar o risco micotoxicológico da matéria-prima.
Foi justamente a partir dessa conexão que Augusto Heck aprofundou, durante o encontro, a discussão técnica sobre micotoxinas.
O especialista explicou que elas são substâncias produzidas por fungos e que praticamente todo ingrediente de origem vegetal pode apresentar algum grau de contaminação. Condições ambientais favoráveis, falhas nas boas práticas agrícolas e problemas durante o armazenamento podem aumentar esse risco.
Entre as principais micotoxinas monitoradas estão aflatoxinas, fumonisinas, deoxinivalenol (DON), conhecido como vomitoxina, e zearalenona (ZEN).
A aflatoxina é conhecida pela elevada toxicidade, potencial carcinogênico e capacidade de provocar danos hepáticos. Também é resistente a processos convencionais de inativação e, segundo Heck, pode representar preocupação para a segurança dos alimentos e para o comércio quando produtos ultrapassam os limites estabelecidos.
Já a fumonisina ganhou destaque como uma das principais preocupações para a América Latina. Produzida no campo e frequentemente associada ao milho e seus coprodutos, pode afetar diferentes espécies. Nos suínos, está relacionada a problemas respiratórios, enquanto a exposição contínua a níveis menores pode comprometer órgãos e reduzir a eficiência produtiva. É justamente esse efeito silencioso que preocupa.
Segundo Heck, os casos clínicos agudos são hoje menos frequentes, em parte pelos avanços na origem e no armazenamento dos grãos. O problema, porém, pode estar “embaixo da água”: nos efeitos subclínicos que não necessariamente provocam uma doença evidente, mas roubam desempenho.
Conversão alimentar pior, menor aproveitamento de nutrientes, imunossupressão, falhas de vacinação e maior ocorrência de doenças estão entre os efeitos que podem passar despercebidos.
“O efeito subclínico é muito mais frequente, importante e negligenciado”, destacou Heck.
Para a produção animal, a consequência é direta: o animal pode precisar consumir mais ração e permanecer mais tempo no sistema para alcançar o mesmo peso. Em um mercado no qual, segundo Fontes, os grãos representam aproximadamente dois terços do custo de produção da proteína animal, uma perda de eficiência alimentar causada por uma ameaça invisível pode rapidamente se transformar em perda econômica.
A dimensão do problema aparece no World Mycotoxin Survey, levantamento da dsm-firmenich iniciado em 2004 e construído ao longo de mais de duas décadas. Na primeira metade de 2026, a análise reuniu mais de 10 mil amostras e quase 60 mil análises, abrangendo 78 países. De acordo com os dados apresentados por Heck, o Brasil e a América Latina aparecem em uma faixa de risco elevado para micotoxinas.
Na região, a fumonisina apresentou prevalência de 71%, seguida pela zearalenona, com 64%, enquanto a aflatoxina chegou a 44%. A ocorrência de múltiplas toxinas também chama atenção: oito em cada dez amostras apresentaram duas ou mais micotoxinas, segundo os dados apresentados.
A cocontaminação, portanto, não deve ser tratada como exceção. Diferentes toxinas podem aparecer simultaneamente e produzir efeitos aditivos ou, em determinadas combinações, potencializar seus impactos.
A complexidade aumenta com as chamadas micotoxinas mascaradas ou modificadas. Elas podem sofrer alterações químicas que fazem com que não sejam identificadas pelos métodos convencionais de análise, mas podem voltar à forma tóxica durante o processo de digestão do animal.
Há ainda as micotoxinas emergentes, para as quais o conhecimento científico e os parâmetros de risco ainda estão em construção. Heck relacionou o avanço das ferramentas de diagnóstico e as mudanças nas condições ambientais à maior identificação dessas ameaças.
O cenário climático também pode modificar o perfil de risco. Na apresentação, Heck chamou atenção para o que classificou como “super El Niño”, com situações de excesso de chuva em algumas regiões e seca em outras. Segundo ele, esse contraste pode favorecer diferentes grupos de micotoxinas: condições mais úmidas podem aumentar a preocupação com DON e zearalenona, enquanto temperaturas elevadas favorecem atenção para aflatoxinas e fumonisinas.
Outro desafio é que a contaminação não pode ser determinada apenas pela aparência do grão. Um milho visualmente íntegro também pode apresentar micotoxinas. Por isso, a seleção visual não substitui a análise laboratorial e o monitoramento sistemático das matérias-primas.

Imagem: espiga de milho (iStock).
As estratégias de mitigação começam no campo, passam pela seleção dos ingredientes e pelo armazenamento adequado e chegam à formulação da dieta.
No caso da aflatoxina, os adsorventes são uma das ferramentas utilizadas para reduzir sua disponibilidade ao animal. Para outras micotoxinas, Heck explicou que soluções baseadas em biotransformação podem utilizar microrganismos ou enzimas para modificar seletivamente a molécula e reduzir sua toxicidade.
O próximo passo, porém, é tentar identificar o risco antes que ele se transforme em problema produtivo. Entre as ferramentas apresentadas está a Mycotoxins Prediction Tool, baseada em modelos matemáticos que combinam informações meteorológicas e resultados de análises para estimar o comportamento das micotoxinas em commodities como milho e trigo.

Imagem: micotoxina (site dsm-firmenich).
No recebimento dos ingredientes, também podem ser utilizados testes de triagem, como ELISA e tiras de fluxo lateral, além de métodos analíticos mais sofisticados. E a fronteira mais recente está no próprio animal.
A análise de biomarcadores sanguíneos, associada a machine learning e inteligência artificial, busca indicar se houve exposição relevante às micotoxinas e relacionar alterações biológicas a possíveis problemas nutricionais ou de saúde.
É a mudança de uma lógica baseada apenas em perguntar “qual micotoxina está presente?” para uma investigação mais ampla: o animal absorveu a toxina? Está sofrendo algum dano? E esse dano já está comprometendo seu desempenho?
Para uma cadeia pressionada simultaneamente por clima, custo de matérias-primas e exigências de eficiência, tornar visível esse risco pode significar agir antes que a perda apareça nos indicadores produtivos.
A identificação da micotoxina, porém, é apenas uma parte do problema. A questão passa a ser saber se o animal absorveu a toxina e se essa exposição já está provocando algum dano. Foi a partir dessa perspectiva que Letícia Cardoso Bittencourt apresentou a proposta de tornar “o invisível visível”, considerando que os efeitos podem ser aditivos ou sinérgicos e variam conforme o nível de contaminação e a sensibilidade de cada espécie.

Imagem: pecuária de precisão (site dsm-firmenich).
Nesse cenário, o Verax™, dentro dos serviços de precisão da dsm-firmenich, utiliza biomarcadores sanguíneos, dados de necrópsias e machine learning para identificar alterações relacionadas à absorção de nutrientes, resposta imune e inflamatória, função hepática e lesões intestinais. Segundo a apresentação, a solução reúne mais de 40 apontamentos de necrópsias e mais de 20 biomarcadores sanguíneos, com atuação em 35 países e possibilidade de levar o diagnóstico para o campo, com coleta de sangue e avaliação de aves.
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