04 maio 2022
“Uma grama de prevenção vale um quilo de cura” Benjamin Franklin (1736)
Os conceitos de prevenção e controle de doenças na aquicultura, particularmente através da modulação da microbiota de peixes, têm recebido atenção significativa. Historicamente, a aquicultura comercial depende principalmente do uso de antibióticos para combater doenças infecciosas.
No entanto, o uso indiscriminado de agentes antimicrobianos sintéticos tem sido questionado, uma vez que deu origem ao aumento de cepas bacterianas resistentes a antibióticos e resíduos de antibióticos em produtos aquáticos.
Várias classes de aditivos alimentares, como probióticos e prebióticos têm sido usados na aquicultura como alternativa aos antibióticos para melhorar o crescimento, a saúde e a resistência a doenças, modulando as respostas imunes.
Os probióticos são microrganismos vivos que beneficiam a fisiologia do hospedeiro modulando a imunidade mucosa e sistêmica, melhorando o equilíbrio nutricional e microbiano no trato intestinal. Os referidos microrganismos incluem muitas bactérias gram-negativas e gram-positivas, microalgas e leveduras, que têm sido amplamente utilizadas na aquicultura individualmente ou em combinação, sendo administradas via ração ou adicionadas à água de criação.
A manipulação da microbiota intestinal pela inclusão de probióticos na dieta visando crescimento, funções digestivas, imunidade e resistência a doenças do hospedeiro tem sido investigada em muitos peixes.
A tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) é uma espécie que tem sido cultivada em todo o mundo em sistemas extensivos, semi-intensivos e intensivos. Os desembarques anuais de tilápia do Nilo cultivadas atingiram o pico de 4,5 milhões de toneladas em 2018, colocando a espécie como o terceiro peixe mais cultivado no mundo.
A capacidade imunomoduladora atribuída aos probióticos fornecidos à tilápia do Nilo parece ser fundamental nas estratégias de manejo sanitário, uma vez que o problema mais vivenciado pela piscicultura é o aumento da incidência de doenças.
A tilápia hospeda inúmeras espécies microbianas em sua pele, ovos, brânquias e trato gastrointestinal.
A microbiota intestinal influencia marcadamente a homeostase e a digestão, modulando não apenas a fisiologia e as respostas imunes do hospedeiro, mas também a morfologia e a função do epitélio intestinal.
Os probióticos podem afetar positivamente as defesas intestinais do hospedeiro, criando um ambiente hostil para patógenos, competindo por nutrientes essenciais, bloqueando locais de adesão no epitélio e modulando as respostas imunes em níveis fisiológicos e moleculares.
Além da proteção contra patógenos bacterianos, os probióticos também podem proteger contra:
A levedura probiótica Saccharomyces cerevisiae incluída nas dietas de tilápias do Nilo, por exemplo, aumentou a resistência contra o fungo patogênico Aspergillus flavus em um nível ótimo de inclusão de 6g.kg−1 na dieta (Abdel-Tawwab et. al., 2020)
Ácidos orgânicos, ácidos graxos de cadeia curta, vitaminas, antibióticos, bacteriocinas, peróxido de hidrogênio estão listados entre as substâncias sintetizadas por probióticos que têm afetado positivamente a saúde e o bem-estar dos hospedeiros.
Os probióticos melhoram a digestibilidade da ração aumentando a secreção de enzimas digestivas, como lipase, amilases e proteases. Alta atividade da lipase foi detectada no intestino de tilápia do Nilo alimentada com três espécies de Bacillus associadas ao hospedeiro, mas nenhuma diferença observável na atividade da amilase foi registrada.
Bactérias lácticas competem com patógenos por locais de adesão no epitélio da mucosa do trato gastrointestinal em vários peixes, incluindo tilápia. Por exemplo, Leuconostoc mesenteroides inibiu o crescimento de bactérias patogênicas em tilápias do Nilo, particularmente Vibrio spp. e Mycobacterium spp.
A administração de probióticos é uma estratégia viável e sustentável para modular a imunidade da tilápia, aumentando os mecanismos de proteção da barreira intestinal e, em última análise, prevenindo o desenvolvimento de várias doenças.
Além da clara especificidade espécie-hospedeiro, fatores extrínsecos e intrínsecos como:
A forma de administração (via ração para peixes ou água de criação),
Cepa probiótica,
Dose,
Frequência e
Controle de qualidade
Podem afetar a microbiota dos peixes, gerando resultados significativamente divergentes entre os estudos com probióticos.
Por fim, os estudos de avaliação de probióticos para a tilápia do Nilo não devem se limitar ao intestino, mas também à pele e brânquias do peixe e à água de criação. A pesquisa sobre mecanismos moleculares e engenharia microbiana instruirá formas adicionais à identificar potenciais candidatos a probióticos e selecionar táticas apropriadas para prevenir e/ou tratar doenças de peixes.
Para saber mais sobre esse assunto, LEIA ARTIGO COMPLETO:
Role of probiotics on the immunity of Nile tilapia Oreochromis niloticus: a review
Fonte: Alves et. al., 2022
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