Saúde urinária felina sai do bebedouro e entra na formulação
A saúde urinária felina foi apresentada por Dennis Jewell, dos Estados Unidos, como um dos pontos mais estratégicos da nutrição de gatos, não apenas porque a espécie tende a beber pouca água, mas porque sua própria eficiência em conservar água pode aumentar a concentração urinária e favorecer condições associadas à formação de cristais e cálculos. A abordagem foi feita durante a palestra “Água do alimento, balanço hídrico e a saúde renal de gatos”, realizada no dia 13/05, dentro da programação do XXV Congresso CBNA PET.
O ponto de partida da apresentação foi a biologia do gato. Segundo Jewell, a espécie tem uma capacidade muito eficiente de manter água corporal, característica compatível com um histórico evolutivo associado a ambientes áridos e ao consumo de presas com alto teor de umidade. Em um contexto de vida livre, no qual pequenos roedores, aves e insetos poderiam fornecer parte relevante da água necessária, essa adaptação representaria uma vantagem. No ambiente doméstico, porém, quando a dieta pode ter baixa umidade e a ingestão hídrica depende de comportamento voluntário, essa mesma eficiência passa a exigir atenção nutricional.
Na leitura apresentada pelo palestrante, o “custo” dessa adaptação é o aumento potencial do risco urinário. Jewell descreveu uma sequência fisiológica em que a maior concentração de solutos na urina eleva a gravidade específica urinária; com a continuidade desse processo, cristais podem se formar; e, quando a capacidade protetiva da urina é superada, esses cristais podem evoluir para cálculos na bexiga ou nos rins. Entre os cálculos discutidos estiveram os de oxalato de cálcio e os de estruvita, avaliados por indicadores como supersaturação relativa urinária e testes específicos de risco.
Saúde urinária felina sai do bebedouro e entra na formulação
Um dos pontos mais provocativos da palestra foi a relativização de uma recomendação frequente no manejo de gatos sobre melhorar a apresentação da água para estimular o consumo. Jewell apresentou estudos que compararam diferentes formas de oferta, incluindo água parada em tigela, água circulante e água em fonte com queda livre.
Jewell ponderou que isso não invalida experiências individuais de tutores que percebem maior interesse de determinados gatos por fontes ou formas específicas de água. Mas, do ponto de vista dos dados apresentados, a mudança na apresentação da água não se mostrou uma estratégia suficientemente consistente para alterar marcadores urinários de risco.
A mensagem relevante é que a hidratação felina não pode ser tratada apenas como uma questão de acessório, comportamento ou manejo doméstico. Ela entra no campo da formulação.
Quando a água está no alimento, o efeito muda
A parte mais forte da apresentação veio dos estudos com diferentes teores de umidade no alimento. Jewell mostrou que alimentos com alta umidade, especialmente acima de 70% na matéria oferecida, podem aumentar a ingestão total de água e reduzir marcadores associados ao risco urinário.
Em um estudo com gatos alimentados com diferentes dietas em desenho quadrado latino, foram comparadas dietas secas, dietas secas com adição de 50% de água, dietas secas com maior teor de proteína e gordura, e alimento enlatado. O resultado apresentado foi que a ingestão total de água só aumentou de forma expressiva com o alimento enlatado, que levou a 158 ml de ingestão total de água, frente a 115 ml na dieta seca e 114,5 ml na dieta seca com 50% de água.
Outro estudo discutido por Jewell avaliou dietas com diferentes níveis de umidade: 6,3%, 25,4%, 53,2% e 73,3%. Segundo os slides apresentados, o alimento com 73,3% de umidade foi o que conseguiu elevar a ingestão total de água e reduzir a gravidade específica urinária, a supersaturação relativa de estruvita e a supersaturação relativa de oxalato de cálcio.
A interpretação técnica mais importante desse bloco é que não basta “molhar” parcialmente a dieta para garantir o mesmo efeito de um alimento realmente úmido. O gato compensa parte da água presente no alimento reduzindo o consumo voluntário no bebedouro. O ganho aparece quando a umidade da dieta passa a ser suficientemente alta para, pela própria ingestão calórica, promover maior entrada total de água no organismo.
Jewell destacou que dietas úmidas têm desafios práticos, como custo, conveniência e deterioração mais rápida. Ainda assim, para gatos com risco urinário, a alta umidade foi apresentada como uma das estratégias nutricionais mais consistentes.
Sódio e íons fortes: ferramenta útil, mas não isenta de perguntas
A palestra também avançou sobre o papel dos íons fortes, especialmente sódio, potássio e cloreto, na modulação da ingestão de água, volume urinário e supersaturação urinária. Jewell explicou que esses íons, ao serem absorvidos e excretados, alteram a osmolalidade e podem favorecer maior ingestão de água e maior produção urinária.
Jewell também apresentou um estudo de segurança de longo prazo, com gatos alimentados por até cinco anos com dietas de diferentes concentrações de sódio: 0,102 g/100 kcal no grupo controle e 0,326 g/100 kcal no grupo elevado. Segundo os dados apresentados, não houve efeito negativo observável. O palestrante também indicou, porém, que o efeito de diluição urinária pode não se manter com a mesma força ao longo do tempo.
Esse ponto desloca o tema de um debate simplista sobre “mais ou menos sódio” para uma avaliação mais sofisticada sobre objetivo nutricional, tempo de uso, condição do animal, marcadores urinários e segurança. Na palestra, os íons fortes aparecem como ferramenta possível, mas não como solução isolada ou automática para todos os cenários.
Água viscosa: uma solução fisiológica ainda pouco explorada
Outro ponto incomum e altamente interessante da palestra foi a água viscosa. Jewell explicou que gatos bebem de forma diferente de cães e humanos, ou seja, eles tocam a língua na água e capturam a coluna líquida que se forma. A hipótese testada foi que, ao aumentar a viscosidade da água, seria possível aumentar a quantidade de líquido capturada a cada lambida.
Jewell observou que não sabia se havia empresas comercializando esse tipo de solução, mas classificou a estratégia como uma forma fisiológica interessante de aumentar o consumo de água. Esse é um dos achados com maior potencial de inovação, porque abre espaço para a inovação em produtos além da fórmula tradicional do alimento seco ou úmido.
PUFA entram na conversa sobre rim e urina
A apresentação também conectou ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa à saúde urinária de gatos. Em estudo citado por Jewell, 12 gatos foram avaliados em desenho crossover com dois alimentos. A dieta teste continha níveis superiores de ácido araquidônico, EPA, DPA e DHA em relação ao alimento controle.
Jewell ponderou que ainda não está claro se o efeito se deve especificamente ao DHA, ao EPA, ao ácido araquidônico ou a uma propriedade mais ampla dos ácidos graxos poli-insaturados sobre membranas e função renal. Ainda assim, a mensagem técnica é de que os PUFA podem ter papel além da pele, pelagem, inflamação ou cognição, entrando também na discussão sobre urina, hidratação e risco de cálculos.
Formulação felina precisa olhar para umidade, minerais, pH e supersaturação relativa
Ao final da palestra, a solução proposta por Jewell não foi uma única tecnologia, mas um conjunto de caminhos nutricionais: alimentos com umidade superior a 70%, maior ingestão de água por vias fisiológicas, uso criterioso de íons fortes, aumento de ácidos graxos poli-insaturados, redução da supersaturação relativa urinária, controle dos componentes minerais e ajuste do pH urinário de acordo com o tipo de cálculo.
Em um mercado cada vez mais competitivo, falar em saúde renal de gatos exige ir além do apelo comercial. A palestra de Jewell mostrou que o diferencial pode estar justamente na capacidade de transformar fisiologia, umidade, minerais, PUFA e comportamento ingestivo em soluções nutricionais mais precisas para gatos.
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