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Soja STS amplia manejo de herbicidas, mas exige atenção na sucessão de culturas

01 out 2026

Soja STS amplia manejo de herbicidas, mas exige atenção na sucessão de culturas

Levantamento da Embrapa identificou 62 cultivares com a tecnologia entre 423 avaliadas; característica pode dificultar o controle da soja voluntária em trigo, feijão, milho e algodão

Por Redação nutriNews Brasil

A escolha da cultivar de soja pode continuar produzindo efeitos sobre o manejo mesmo depois da colheita. É o que ganha relevância a partir de um levantamento realizado pela Embrapa Soja entre 2021 e 2026, que identificou 62 cultivares, de um total de 423 avaliadas, com alterações genéticas associadas à tolerância aos herbicidas do grupo das sulfonilureias.

O número equivale a cerca de 15% das cultivares analisadas. A característica é conhecida como Soja Tolerante às Sulfonilureias (STS) e amplia as possibilidades de manejo de plantas daninhas na cultura.

Mas há um efeito menos evidente: quando a soja STS se torna voluntária na cultura seguinte, as mesmas sulfonilureias que podem ser utilizadas sobre a soja tolerante deixam de ser ferramentas eficientes para eliminá-la.

Imagem: Embrapa Soja.

A questão coloca a genética da cultivar dentro de uma decisão mais ampla: não apenas como manejar a soja plantada, mas também como lidar com o que permanece no sistema após a colheita.

62 cultivares, diferentes empresas e grupos de maturação

A pesquisa conduzida pelas equipes de Plantas Daninhas e do Laboratório de Genética Molecular e Seleção Assistida da Embrapa Soja analisou cultivares comercializadas em diferentes regiões brasileiras.

Por meio de genotipagem, os pesquisadores avaliaram alterações nos genes Als1 e Als2, associadas à tolerância às sulfonilureias. Das 423 cultivares analisadas, 62 apresentaram pelo menos uma dessas alterações.

O levantamento não aponta concentração da tecnologia em uma determinada empresa, grupo de maturação ou região. Segundo Hugo Soares Kern, do Núcleo de Comunicação Organizacional da Embrapa Soja, a característica STS pode estar presente em cultivares de diferentes empresas e grupos de maturação, sem apresentar um padrão definido. Isso é relevante porque mostra que a tecnologia não está restrita a um determinado perfil de cultivar ou fornecedor.

Imagem criada ela IA, de acordo com as informações dispostas pelo texto.

“A intenção desses primeiros resultados é monitorar novas cultivares disponíveis no mercado com periodicidade, atualizando os resultados anualmente”, afirma o pesquisador Rafael Mendes, da Embrapa Soja.

Onde está a vantagem da tecnologia STS?

Para entender o impacto da característica, é preciso separar alguns conceitos:

Tolerância significa que a cultivar possui capacidade genética de suportar a exposição a determinados herbicidas sem apresentar os mesmos danos esperados em uma planta sensível.

Fitotoxicidade, por sua vez, é o dano provocado pelo herbicida à planta, podendo aparecer como amarelecimento, necrose, deformações ou atraso no crescimento.

É justamente essa diferença que permite ampliar as opções de manejo.

“Enquanto a soja pode sofrer severas perdas de produtividade ao entrar em contato com os herbicidas do grupo das sulfonilureias, as cultivares STS possuem tolerância inerente a essas substâncias”, explica Fernando Adegas, da Embrapa Soja.

Segundo o pesquisador, a tecnologia também representa uma alternativa ao uso exclusivo do glifosato e pode contribuir para o controle de plantas daninhas de difícil manejo.

“A tecnologia STS permite o controle eficaz de plantas de difícil manejo, que apresentam resistência a outros produtos no campo.”

A vantagem, portanto, está em ampliar o conjunto de ferramentas disponíveis ao produtor. Mas a tecnologia não deve ser interpretada como uma estratégia isolada de controle.

O ponto que aparece depois da colheita

É na sucessão de culturas que surge uma das principais implicações práticas da tecnologia. A soja voluntária, também chamada de soja “tiguera” ou “guaxa”, nasce a partir de grãos que permanecem no campo após a colheita. Quando aparece em trigo, feijão, milho safrinha ou algodão, passa a competir com a cultura implantada e precisa ser controlada.

O problema se agrava quando essa soja voluntária também possui a característica STS. De acordo com Hugo Kern, a soja voluntária já representa um desafio dentro dos sistemas de produção. Quando a planta é STS, porém, as opções de controle ficam ainda mais restritas.

O pesquisador cita situações específicas: no trigo, utiliza-se metsulfuron para o manejo, enquanto no feijão pode ser empregado etoxisulfuron. Segundo a Embrapa, essas moléculas não são eficientes para controlar a soja voluntária STS dentro dessas culturas.

A consequência é direta: uma característica que amplia as opções de manejo dentro da soja pode reduzir as alternativas disponíveis para eliminar a soja que sobra no campo depois dela.

A cultivar escolhida hoje pode mudar o manejo de amanhã

Por isso, a presença ou ausência da tecnologia STS precisa entrar no planejamento da sucessão. Segundo a Embrapa, se o produtor utilizar uma cultivar STS, o programa de manejo da soja voluntária na cultura seguinte deve ser planejado considerando a ineficiência das sulfonilureias sobre essas plantas.

A escolha da cultivar pode, inclusive, exigir uma avaliação antecipada das alternativas disponíveis na cultura subsequente. Se não houver opções adequadas para controlar a soja voluntária STS em determinado sistema, a própria escolha de uma cultivar não STS pode entrar na estratégia de manejo.

Quanto maior o número de grãos deixados na área, maior o potencial de emergência de soja voluntária posteriormente. No caso de materiais STS, essa população pode se tornar ainda mais difícil de manejar. A recomendação da Embrapa, portanto, começa antes da aplicação de qualquer herbicida: conhecer a característica da cultivar e reduzir as perdas na colheita.

STS não significa abandonar a rotação de mecanismos de ação

Outro ponto destacado pela Embrapa é que a tolerância da soja às sulfonilureias não deve levar à dependência desse único grupo químico. A tecnologia STS pode ser uma ferramenta adicional, mas continua inserida em um cenário de pressão de seleção de plantas daninhas resistentes.

“Toda biotecnologia é bem-vinda, mas ela é uma das ferramentas dentro de um conjunto de práticas de manejo”, ressalta Hugo Soares Kern.

Segundo o pesquisador, mesmo quando a soja é tolerante às sulfonilureias, seria imprudente utilizar apenas esse grupo de herbicidas, tanto pelo risco de seleção de resistência quanto pelo espectro de controle limitado.

A orientação é combinar diferentes estratégias, incluindo bom manejo da cultura, presença de palha, prevenção da entrada de propágulos na área, monitoramento, controle de plantas nas bordaduras e rotação de ferramentas químicas.

O que o produtor precisa saber antes de escolher uma STS?

O levantamento da Embrapa transforma uma informação genética em uma variável de manejo. Saber que uma cultivar possui a tecnologia STS não significa que ela seja necessariamente mais produtiva ou agronomicamente superior.

O estudo não faz essa comparação. O que a característica determina é a resposta da planta às sulfonilureias e, consequentemente, parte das possibilidades de manejo disponíveis ao produtor.  A tecnologia STS não termina na lavoura em que a soja foi plantada. Seus efeitos podem se estender à cultura seguinte.

Genética que chega ao manejo

Ao analisar geneticamente 423 cultivares e identificar 62 com alterações nos genes associados à tolerância, a Embrapa cria uma referência para uma decisão que pode depender não apenas das características produtivas do material, mas também de sua interação com o manejo do sistema e genotipagem:

Imagem criada ela IA, de acordo com as informações dispostas pelo texto.

Já os genes Als1 e Als2 são os pontos do material genético nos quais os pesquisadores identificaram alterações associadas à tolerância. É essa informação que permite diferenciar, geneticamente, cultivares STS e não STS e, para o produtor, identificar o herbicida que pode ser utilizado sobre uma soja STS não necessariamente será uma ferramenta para controlar essa mesma soja quando ela nascer voluntariamente na cultura seguinte.

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