11 set 2026
Estudo do Rabobank mostra que juros elevados encarecem o crédito rural, mas o risco financeiro depende da combinação entre custo da dívida, preços agrícolas, insumos e capacidade de geração de caixa
A Selic pode parecer distante da rotina de uma fábrica de rações, de uma granja ou de uma empresa que compra milho e farelo de soja. Mas seus efeitos chegam à cadeia por diferentes caminhos: encarecem o financiamento, alteram decisões de compra e estoque e, com alguma defasagem, podem aumentar a pressão sobre a capacidade de pagamento dos produtores.
Essa é uma das principais conclusões do estudo “Além do Plano-Safra: Crédito Rural sob Aperto Monetário”, do Rabobank. A análise mostra que o impacto da política monetária sobre o agro não é uniforme e depende, principalmente, do perfil do tomador e da fonte de financiamento.
Quando o juro sobe, o primeiro impacto aparece no custo do dinheiro
Segundo o levantamento, as taxas do crédito rural acompanham os ciclos de alta da Selic, movimento observado especialmente entre 2021 e 2023 e novamente entre 2024 e 2025. Em determinados momentos, as taxas para pessoas jurídicas chegaram a se aproximar ou superar 14% ao ano.
Mas há uma diferença importante entre os perfis de tomadores. Embora as empresas tenham registrado movimentos mais intensos em alguns períodos, a análise econométrica aponta uma resposta mais consistente das pessoas físicas aos choques inesperados da Selic.
Isso está relacionado ao acesso maior das empresas a linhas direcionadas, recursos subsidiados e diferentes fontes de financiamento, enquanto produtores pessoa física ficam mais expostos às condições do mercado.
O estudo encontrou, para pessoas físicas, coeficiente de 0,76 na resposta da taxa de crédito após três meses e de 0,73 em 12 meses. Já a inadimplência aumenta aproximadamente 0,11 ponto percentual nos horizontes de seis e 12 meses.
O dado ajuda a entender uma característica importante do ciclo de crédito: o aperto monetário não necessariamente reduz imediatamente as concessões. Primeiro, ele encarece as operações. Depois, com defasagem, pode comprometer a capacidade de pagamento.
Para as pessoas jurídicas, a transmissão é mais limitada. O relatório identifica avanço de 0,37 ponto percentual nas concessões após seis meses, sem evidência consistente de aumento da inadimplência. A participação de linhas direcionadas e subsidiadas, vinculadas ao Plano Safra e outras políticas de crédito, funciona como amortecedor.
É aqui que a análise ganha relevância para a cadeia de nutrição animal. O Rabobank destaca que juros altos, isoladamente, não explicam a inadimplência rural. A renda gerada pelas commodities pode compensar o custo financeiro. Quando preços de soja e milho estão firmes, o produtor tem maior capacidade de absorver juros elevados. Quando as cotações recuam e os custos permanecem altos, a pressão sobre o caixa aumenta.
O ciclo de 2024–2025 ilustra esse movimento: preços de soja e milho recuaram em relação aos picos anteriores, enquanto os custos dos fertilizantes ainda estavam em processo de normalização. A combinação de receita comprimida e crédito caro coincidiu com uma alta mais evidente da inadimplência, especialmente entre pessoas físicas.
Para fabricantes de rações, fornecedores de insumos e empresas ligadas à produção de proteína animal, acompanhar somente a Selic é insuficiente.
O custo do crédito pode influenciar compras, formação de estoques, capital de giro e momento de aquisição de milho, farelo de soja, premixes e outros ingredientes. Além disso, o risco financeiro de um parceiro não depende apenas da cotação da commodity, mas também da estrutura de seu passivo e do acesso a linhas direcionadas.
Outro ponto merece atenção: a pressão pode chegar com atraso. O estudo identifica efeitos mais claros sobre a inadimplência das pessoas físicas entre seis e 12 meses após o choque monetário.
Na fotografia de maio de 2026, a inadimplência chegava a 7,51% entre pessoas físicas, contra 0,80% entre pessoas jurídicas. Nas operações de mercado, a diferença era ainda maior: 13,39% e 0,92%, respectivamente.
A principal mensagem do Rabobank é que o crédito rural continua sensível à política monetária, mas de forma heterogênea e moderada. Para a nutrição animal, isso significa ampliar o olhar: juros, preços de milho e soja, custos dos insumos, clima, origem do crédito e geração de caixa precisam ser analisados em conjunto.
No agro, o risco raramente nasce de uma única variável. Ele ganha força quando juros elevados encontram commodities em queda, insumos caros e menor capacidade de pagamento. É nessa combinação que o custo financeiro deixa de ser apenas uma variável macroeconômica e passa a interferir diretamente na operação da cadeia de proteína animal.
Fonte: RAbobank – com adaptações da nutriNews Brasil.
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