CBNA mostra como dados, ingredientes e precisão redefinem a nutrição animal

Painel da 36ª Reunião Anual do CBNA mostrou como dados, ingredientes, precisão, microbiota, IA e retorno econômico estão redefinindo a pesquisa em nutrição animal.

13 maio 2026

CBNA mostra como dados, ingredientes e precisão redefinem a nutrição animal

A nutrição animal já não pode ser discutida apenas a partir da formulação. Foi o que mostrou o painel “Impacto da pesquisa brasileira na produção animal”, realizado na 36ª Reunião Anual do CBNA durante a última terça-feira (12/05).

Pesquisadores de diferentes instituições mostraram que a nova agenda da nutrição animal passa também por dados de campo, variabilidade de ingredientes, digestibilidade, microbiota, inteligência artificial, bem-estar animal, custo de produção e retorno econômico.

A agriNews Brasil, que acompanhou a 36ª Reunião Anual do CBNA como media partner, reuniu, a partir das apresentações do painel, uma leitura editorial sobre o que a pesquisa brasileira já entregou à produção animal e quais perguntas passam a orientar o próximo ciclo da nutrição de aves e suínos.

O debate reuniu nomes diretamente ligados à construção e à atualização da pesquisa em nutrição animal no país, como Horácio Santiago Rostagno, professor aposentado da Universidade Federal de Viçosa e editor das Tabelas Brasileiras para Aves e Suínos; Sergio Luiz Vieira, apresentado na programação do painel como vinculado à UFRGS e com trajetória acadêmica e técnica em nutrição de aves; Everton Luis Krabbe, da Embrapa Suínos e Aves; Bruno A. N. Silva, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais; e José Henrique Stringhini, professor da Universidade Federal de Goiás.

O ponto de partida foi a própria base técnica construída ao longo das últimas décadas. Rostagno tratou da importância das Tabelas Brasileiras como ferramenta prática para nutricionistas e formuladores. Mais do que uma referência acadêmica, as tabelas foram apresentadas como instrumento de decisão para ajustar exigências, avaliar ingredientes, comparar valores nutricionais e apoiar programas alimentares mais aderentes à realidade produtiva.

A importância das Tabelas Brasileiras para a formulação foi aprofundada em reportagem especial da nutriNews Brasil. Confira aqui.

A mensagem ganha relevância porque a produção animal mudou em velocidade superior à de muitos modelos tradicionais de formulação. A evolução genética de frangos, poedeiras e suínos alterou ritmo de crescimento, eficiência alimentar, exigências por fase, composição corporal e resposta aos nutrientes.

Nesse contexto, referências nacionais atualizadas ajudam a traduzir pesquisa em aplicação industrial, especialmente quando incorporam novos ingredientes, equações, dados de digestibilidade e recomendações para diferentes níveis de desempenho.

Esse fio histórico também apareceu na apresentação de Sergio Luiz Vieira. Em sua fala, o especialista resgatou a passagem de uma nutrição mais empírica, baseada em proteína bruta e misturas menos refinadas, para uma formulação apoiada em aminoácidos essenciais, digestibilidade, energia, minerais, vitaminas, fitase e avaliação econômica.

Segundo Vieira, a indústria não deve perseguir apenas indicadores zootécnicos isolados. A formulação precisa considerar retorno econômico, eficiência real e possíveis excessos de suplementação. A trajetória da nutrição animal, nesse sentido, não se resume a colocar mais nutrientes na dieta, mas a decidir com mais precisão o que realmente sustenta desempenho, sanidade, custo e sustentabilidade.

A formulação começa antes da fábrica de ração

A apresentação de Everton Luis Krabbe, da Embrapa Suínos e Aves, ampliou o debate para fatores que começam antes da fábrica de ração. Ao tratar das perspectivas para pesquisas sobre nutrição de aves, Krabbe conectou genética, custo alimentar, lavoura, logística, política de biocombustíveis, sorgo, cereais de inverno, micotoxinas, qualidade da água, saúde intestinal e novas tecnologias.

A ideia central apresentada pelo pesquisador é que a nutrição do futuro será cada vez menos isolada da produção agrícola e das decisões macroeconômicas que definem oferta, qualidade e custo dos ingredientes. Em outras palavras, discutir formulação exigirá olhar também para o que acontece no campo, na política energética, na disponibilidade de grãos, na qualidade das matérias-primas e nas ferramentas de análise usadas pela indústria.

Entre os pontos destacados, a política de biocombustíveis aparece como uma variável estratégica. Ao aumentar a demanda por óleo e alterar a disponibilidade de farelos e coprodutos, esse movimento pode mudar a forma como a indústria interpreta fontes de proteína e energia. Krabbe também apontou o sorgo, os cereais de inverno e os coprodutos como temas que exigem mais pesquisa, principalmente em um cenário de pressão sobre milho, soja, energia dietética e qualidade de matérias-primas.

A discussão não é apenas de custo. É também de precisão. Quando a quilocaloria se torna mais disputada, ganham relevância temas como energia líquida, granulometria, qualidade de pellet, digestibilidade de cálcio e fósforo, microminerais biodisponíveis, fatores antinutricionais, micotoxinas e ferramentas analíticas como NIR, biomarcadores e inteligência artificial. Na leitura apresentada por Krabbe, a pesquisa precisa acompanhar uma cadeia em que a ração não nasce na moagem, mas na lavoura.

Da média ao animal individual

Se Rostagno e Vieira ajudam a explicar a base técnica e a evolução da formulação, a apresentação de Bruno A. N. Silva, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, levou o debate para uma fronteira mais dinâmica da nutrição de suínos. O palestrante defendeu a necessidade de superar modelos baseados apenas em médias e fases fixas, avançando para sistemas capazes de considerar o animal como um organismo complexo, influenciado por genética, ambiente, microbiota, comportamento, estado fisiológico, saúde intestinal e consumo real.

No estudo apresentado por Bruno Silva com matrizes lactantes, o ajuste dinâmico diário da dieta reduziu o consumo de ração, a ingestão de energia, proteína e lisina, além de reduzir em 11% o custo por quilo de leitão produzido na maternidade. O dado foi usado pelo palestrante como evidência do potencial da nutrição de precisão para reduzir desperdícios e aproximar a dieta da exigência real do animal, e não como promessa universal para qualquer sistema produtivo.

A palestra também trouxe temas que ampliam a agenda da nutrição de suínos: microbioma, metagenômica, imprinting de microbiota da porca para o leitão, pós-bióticos, fitobióticos, fibras funcionais, retirada de antibióticos e óxido de zinco, nutrigenômica, inteligência artificial, sensores, visão computacional, bem-estar e ética experimental. A nutrição, nessa leitura, deixa de ser apenas custo e passa a ser ferramenta de resiliência, saúde intestinal, sustentabilidade e decisão.

A genética avançou; o sistema precisa acompanhar

Na avicultura de postura, José Henrique Stringhini, professor da Universidade Federal de Goiás, mostrou como o avanço genético das poedeiras comerciais impõe novos desafios à pesquisa, à nutrição e ao manejo. A metáfora apresentada pelo professor é forte: a poedeira moderna seria uma “Ferrari”. O setor, portanto, precisa saber conduzir essa genética para transformar potencial produtivo em persistência, qualidade de casca, bem-estar, eficiência nutricional e dados confiáveis de campo.

Stringhini discutiu ciclos produtivos mais longos, produção acima de 100 semanas, importância da cria e recria, uso das Tabelas Brasileiras, variabilidade de ingredientes, frações de fibra, calcário, granulometria, solubilidade, qualidade interna do ovo, leitura de imagens e dados de granja. A mensagem é que a produção de ovos não pode depender apenas do potencial genético da ave. O sistema precisa acompanhar esse avanço com pesquisa aplicada e decisões técnicas mais refinadas.

Ao reunir essas cinco leituras, o painel do CBNA mostrou que o impacto da pesquisa brasileira na produção animal não está apenas no legado já construído. Está também na capacidade de antecipar novas perguntas:

A resposta, pelas apresentações, não será única. Ela passará por tabelas atualizadas, pesquisa aplicada, validação em granjas, laboratórios, modelos preditivos, avaliação econômica, novas ferramentas analíticas e diálogo permanente entre universidade, indústria e campo.

A nutrição animal brasileira, como mostrou o CBNA, já não cabe apenas na formulação. Ela se tornou uma área estratégica para decidir como aves e suínos serão produzidos em um ambiente de maior pressão técnica, econômica, sanitária e social.

Leia também na cobertura do CBNA

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