Sergio Luiz Vieira afirmou que nutrição animal precisa rever excessos de suplementação e priorizar retorno econômico.
Sergio Luiz Vieira afirmou que nutrição animal precisa rever excessos de suplementação e priorizar retorno econômico.
A nutrição animal avançou ao aprender a suplementar melhor. Agora, uma das próximas fronteiras pode estar em aprender a evitar excessos. Essa foi uma das principais provocações da palestra de Sergio Luiz Vieira durante o painel “Impacto da pesquisa brasileira na produção animal”, realizado na 36ª Reunião Anual do CBNA.
A agriNews Brasil acompanhou o evento como media partner. Apresentado na programação do painel como vinculado à UFRGS e com trajetória acadêmica e técnica na nutrição de aves, Sergio Luiz Vieira fez uma leitura histórica e crítica da evolução da formulação de rações. O eixo da apresentação foi mostrar como a pesquisa transformou a nutrição animal de uma prática mais empírica, baseada em proteína bruta e misturas pouco refinadas, em uma ciência aplicada apoiada em aminoácidos, digestibilidade, energia, minerais, vitaminas, enzimas e retorno econômico.
A palestra resgatou marcos importantes da avicultura e da nutrição, como o papel da vitamina D para viabilizar o confinamento, o avanço da soja como ingrediente proteico, a entrada dos aminoácidos sintéticos, o uso de computadores para formulações simultâneas e a consolidação de conceitos como lisina de referência, proteína ideal e digestibilidade dos nutrientes.
Segundo a abordagem apresentada, a evolução da nutrição caminhou junto com a genética. À medida que a dieta permitiu melhor crescimento, a seleção genética avançou para animais com maior capacidade de produção de carne, especialmente carne de peito no frango de corte. Essa trajetória tornou a formulação mais precisa, mas também mais dependente de decisões econômicas bem calibradas.
Um dos eixos centrais da apresentação foi a passagem da proteína bruta para uma compreensão mais refinada dos aminoácidos essenciais. A indústria deixou de buscar apenas níveis mais altos de proteína e passou a trabalhar com relações entre aminoácidos, disponibilidade, digestibilidade e eficiência de deposição de tecido.
Esse movimento abriu caminho para a proteína ideal e para a lisina como referência na deposição proteica. Para a nutriNews Brasil, esse é um ponto fundamental: a formulação moderna não se consolidou por adicionar nutrientes indiscriminadamente, mas por compreender relações, limitações e respostas biológicas.
Sergio Luiz Vieira também fez uma provocação sobre a busca por indicadores zootécnicos isolados. A frase mais forte da palestra, segundo a transcrição, foi a ideia de que a escolha não é a conversão, mas o retorno econômico. O alerta é relevante porque a melhor conversão alimentar nem sempre representa a decisão mais rentável, dependendo do custo dos ingredientes, da resposta animal e do objetivo produtivo.
A apresentação discutiu energia, óleo e conversão alimentar, além da influência de ambiente, temperatura e outros fatores sobre a resposta. Também abordou poedeiras, lembrando que elas não respondem da mesma forma que frangos de corte. Em aves de postura, consumo, energia e proteína seguem uma lógica própria, ligada à produção de ovos, persistência e dinâmica de consumo ao longo do ciclo.
Ao deslocar o foco da conversão para o retorno econômico, Vieira reforçou que a nutrição precisa ser avaliada como decisão de sistema. O objetivo não é apenas melhorar um número técnico, mas gerar resultado biológico e financeiro coerente com o contexto de produção.
O trecho mais provocativo da palestra tratou de minerais, vitaminas, fitase, carboidrases e suplementações acima do necessário. Sergio Luiz Vieira chamou atenção para o risco de transformar margens de segurança em excesso permanente. Segundo sua avaliação, alguns níveis usados na prática comercial deveriam ser revistos à luz da pesquisa, do custo, da excreção mineral e da resposta real dos animais.
A crítica não significa rejeitar suplementação. Pelo contrário: a palestra reconhece o papel da suplementação na evolução da nutrição animal. O alerta é que, depois de aprender a suplementar, a indústria precisa aprender a suplementar com mais critério. Isso envolve revisar doses, interpretar condições de desafio, entender disponibilidade dos nutrientes e não tratar toda recomendação como regra universal.
O tema tem implicações econômicas e ambientais. Excesso de minerais e vitaminas pode elevar custo, aumentar excreção e distanciar a formulação daquilo que a pesquisa demonstra como necessário. Com fitase, por exemplo, a discussão envolve não apenas uso, mas dose, matriz nutricional, contexto da dieta e limites de resposta.
A palestra também trouxe uma reflexão sobre o posicionamento científico do Brasil. Sergio Luiz Vieira afirmou que o país aparece em posição relevante no cenário global de publicações na área de produção animal e agricultura, mas observou que ainda há desafios relacionados ao impacto internacional dessas publicações. O ponto reforça uma tensão presente em todo o painel do CBNA: como transformar produção científica em influência técnica, industrial e econômica.
Na formulação de rações, essa transformação já ocorreu em muitos níveis. A pesquisa permitiu avançar em aminoácidos, digestibilidade, energia, enzimas e modelagem. Agora, segundo a leitura apresentada, o desafio é usar esse conhecimento para tomar decisões mais inteligentes, menos automáticas e mais orientadas a retorno real.
A análise geral sobre como o painel do CBNA reposicionou a agenda da nutrição animal está disponível na nutriNews Brasil. Confira aqui.
A base técnica das Tabelas Brasileiras e seu papel na formulação serão aprofundados em reportagem específica da nutriNews Brasil. Confira aqui.
Ao revisitar a evolução da nutrição animal, Sergio Luiz Vieira mostrou que a área avançou quando deixou de formular por intuição e passou a formular por relação, disponibilidade, digestibilidade e resposta econômica. A próxima etapa, como indicou sua palestra no CBNA, pode exigir um refinamento ainda maior: não apenas saber o que suplementar, mas quando, quanto, por que e com qual retorno.
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