Microminerais essenciais na alimentação de aves e suínos: Impactos produtivos e metabólicos
A estrutura da produção brasileira de aves e suínos apresentou grande evolução nas últimas décadas.
Os avanços nas áreas de nutrição, sanidade, genética e manejo propiciaram maior competitividade no cenário mundial e melhoria da qualidade dos produtos.
A alimentação desses animais, no entanto, tem alta participação nos custos de produção (CEMIN, 2013), e para que haja um desempenho adequado e consequente otimização dos recursos econômicos empregados, é necessário que o animal receba quantidades adequadas de nutrientes.
Os minerais são divididos em macro e microminerais, em função da quantidade exigida pelo organismo.
Os microminerais também chamados de elementos traços são minerais requeridos em menores quantidades pelo organismo animal (SILVA e MARTINS, 2023), podendo-se destacar principalmente o cobre (Cu), iodo (I), ferro (Fe), manganês (Mn), selênio (Se) e zinco (Zn).
Esses nutrientes são considerados de grande importância na alimentação das aves e suínos, pois participam de uma série de processos bioquímicos, essenciais ao crescimento e desenvolvimento, destacando-se a formação óssea (BRITO et al, 2006).
COBRE
O cobre tem papel essencial para o funcionamento de enzimas, constituindo parte de seus sítios ativos e participando da síntese de enzimas antioxidantes.
Além disso, tem grande importância na formação de tecido conjuntivo como elastina e colágeno, produção de glóbulos brancos e metabolismo de outros minerais como o ferro, sendo essencial para eritropoiese (MROCZEK-SOSNOWSKA et al., 2013).
Sua absorção ocorre principalmente pelo intestino delgado e estômago, e é excretado majoritariamente via bile com mínima reabsorção pelas células intestinais o que evita sua perda excessiva (MAGAYE et al., 2012).
A suplementação necessária de cobre em suínos e aves é relativamente baixa, porém a inclusão farmacológica tem ganhado espaço, sendo utilizado amplamente como promotor de crescimento (MIRANDA e LEHNEN, 2021).
Impactos dos microminerais essenciais na alimentação de aves e suínos
De acordo com o estudo de Árias e Koutsos (2006), frangos de corte suplementados com cobre apresentaram aumento das taxas de crescimento final, melhora da conversão alimentar, redução do colesterol plasmático total e do colesterol peitoral. No entanto, níveis de suplementação acima de 375 mg/kg de cobre não demonstraram benefícios adicionais.
Pesti e Bakalli (1996) também observaram aumento das taxas de crescimento final de 4,9% em frangos de corte suplementados com 125 ou 250 mg/kg de cobre.
Já em suínos, a adição de baixos níveis de cobre à dieta durante as primeiras 4 semanas da fase de crescimento e terminação resultou em maior crescimento final e melhor eficiência alimentar (HASTAD et al., 2001).
O sulfato de cobre (CuSO₄) é a fonte mais comum de Cu na alimentação animal devido ao baixo custo quando comparado a outras formas de cobre.
• No entanto, sua biodisponibilidade é baixa, o que resulta em maior excreção e pode contribuir para impactos ambientais negativos em altas concentrações.
• Fontes orgânicas, por outro lado, tendem a ter maior biodisponibilidade e baixa excreção, embora possuam custo mais elevado e apresentem resultados menos consistentes.
O cloreto de cobre tribásico (TBCC) também é uma alternativa viável, mas CuSO₄ ainda é predominante por questões econômicas. (ABDULLAH et al., 2018, LEE et al., 2001).
Em um estudo recente realizado por Wang et al., (2019) comparando CuSO₄ e uma fonte orgânica de cobre (Cu-Met) na alimentação de frangos de corte, observou-se que as fontes orgânicas apresentaram maior biodisponibilidade com redução na excreção.
No entanto, em relação a retenção nos tecidos, não houve diferenças significativas entre as fontes de cobre nos músculos e no fígado, indicando que o Cu-Met pode ser tão eficiente quanto o sulfato de cobre em termos de deposição no músculo e retenção hepática.
IODO
O iodo é a base para a formação dos hormônios tireoidianos triiodotironina (T3) e tetraiodotironina (T4) que regulam diversos processos metabólicos.
A deficiência de iodo na dieta resulta em diminuição dos hormônios da tireoide e pode, posteriormente, levar ao hipotireoidismo.
O iodo é absorvido de forma rápida no trato digestivo, sendo o intestino a área com maior capacidade de absorção (ANDRIGUETTO et al., 1982).
Em aves, o iodo é geralmente adicionado em concentrações de 1 a 2 mg /kg na dieta sob a forma de Ca(IO₃) ou KI, incorporado à pré-mistura mineral ou ao sal iodado. Em poedeiras, muitas vezes adiciona-se concentrações maiores para aumentar a quantidade de iodo disponível nos ovos.
No entanto, o excesso de iodo na dieta de aves pode interferir na maturação sexual e na produção de ovos, consequentemente afetando outros aspectos do metabolismo controlados pela tireoide, como a ingestão de ração, que pode diminuir, o peso dos ovos e o colesterol presente na gema, que também são reduzidos (LEESON; SUMMERS 2001, LEWIS, 2004).
Da mesma forma, em suínos, o excesso de iodo, conforme apontado por Li et al., (2012) pode levar a alterações no metabolismo, como um efeito negativo no crescimento de animais mais jovens, no entanto, quando analisado todo o período de crescimento, o desempenho e as características da carcaça não foram influenciados pelas dosagens ou fontes de iodo.
FERRO
O ferro é um elemento indispensável para a constituição da hemoglobina, apresentando papel fundamental na hematopoese, no transporte de oxigênio via hemoglobina, na utilização do oxigênio muscular e respiração celular (Andriguetto et al., 1982).
Além de atuar na síntese de DNA, na eliminação de produtos do metabolismo potencialmente tóxicos, na formação de colágeno e no sistema imunológico dos animais.
As formas do Fe no organismo incluem complexos ligados a proteínas (hemoproteínas), compostos heme (hemoglobina e mioglobina), enzimas heme (citocromos, catalase, peroxidase) e compostos não heme (flavoenzimas, transferrina, ferritina) (GONZÁLEZ e SILVA, 2019).
Impactos dos microminerais essenciais na alimentação de aves e suínos
A quantidade de ferro disponível para absorção pelo intestino depende da quantidade de Fe na dieta e da sua biodisponibilidade (DE ALENCAR, KOHAYAGAWA e DE CAMPOS, 2002).
• A deficiência deste micromineral determina, de forma variável, alterações no processo de respiração celular, com consequente prejuízo a todo organismo (SOBESTIANSKY et al., 1999; SVOBODA, et al., 2004).
• Quando o ferro está livre no soro e excede a capacidade de transporte da transferrina, pode causar danos à membrana celular, resultando em lesão vascular, hepática, choque e possivelmente a morte (SOBESTIANSKY et al., 1999).
Em suínos, Bertechini (2006), afirma que os animais em fase pré-inicial e inicial tem um maior nível absortivo de ferro, sendo de até 99% em leitões recém-nascidos, enquanto nos animais adultos esta absorção está próxima a 12%.
Para suínos recém-nascidos comumente realiza-se a suplementação de Fe via injeção intramuscular, enquanto para os adultos, especialmente aqueles criados em sistema de confinamento, que não têm acesso a fontes alternativas de ferro, como a terra, a suplementação pode ser feita via alimentação, através do fornecimento de rações contendo sulfato ferroso.
Na avicultura a suplementação de Fe é feita usualmente através de fontes de baixo custo, como o sulfato ferroso (Fe2SO4).
Embora as fontes minerais de Ca e P, como os calcários e os fosfatos, sejam ricas em Fe, a forma predominante nestes alimentos é a férrica (Fe3+), o que torna o ferro menos disponível.
Na nutrição animal, o uso de minerais quelatados, como o ferro, tem se intensificado, pois esses compostos são mais solúveis, bioquimicamente mais estáveis e protegidos contra reações e competições com outros componentes da dieta, que poderiam reduzir sua absorção (BESS, 2012).
Ao estudar o efeito da suplementação de Fe para poedeiras comerciais, Bertechini et al., (2000), não encontraram efeito significativo de diferentes níveis de Fe (0, 20, 40, 60 e 80 ppm) sobre a produção de ovos, consumo de ração, peso dos ovos e conversão alimentar, sugerindo que a dieta a base de milho e farelo de soja fornecida aos animais do experimento (com 127 ppm de Fe), forneceu níveis suficientes deste micromineral para que os parâmetros avaliados estivessem dentro do adequado.
Impactos dos microminerais essenciais na alimentação de aves e suínos
MANGANÊS
O manganês (Mn) participa do metabolismo de macronutrientes, da ativação de diversas enzimas, como as oxidorredutases, que agem contra as espécies reativas de oxigênio.
Também desempenha um papel importante na manutenção da glicemia, na produção de energia celular, na integridade óssea, na atividade digestiva e na coagulação do sangue (ASCHNER, 2005).
• Este micronutriente faz parte do contexto de imunidade nutricional, com ação antiviral ao atuar como segundo mensageiro na imunidade inata (HAASE, 2018).
• Além disso, ele atua na reprodução como cofator das enzimas que modulam a síntese de hormônios esteróides e como componente de enzima antioxidante MnSOD, que favorece a progressão do ciclo celular reprodutivo (STUDER et al., 2022).
Na avicultura são comuns problemas de estresse na estrutura óssea devido à taxa de crescimento extremamente rápida de linhagens comerciais de frangos de corte, que podem estar relacionados a deficiência de manganês.
Esses distúrbios, resultantes da deficiência do mineral, manifestam-se em grande parte como discondroplasia tibial (DT) e estresse oxidativo com altas perdas econômicas e de bem estar animal (JI et al., 2006, XIA et al., 2022).
O manganês também tem capacidade de melhora nas características da carcaça e na qualidade da carne, no experimento de Lu et al., (2006), a adição de 100 mg de Mn de MnSO4 /kg à ração de frangos de corte diminuiu as atividades da lipoproteína lipase (LPL), reduzindo o acúmulo de gordura abdominal e aumentando as atividades antioxidantes de MnSOD nos músculos das pernas.
Em um estudo realizado por Plumlee et al., (1956) com leitões desmamados, as dietas contendo 0,5 mg de Mn/kg resultaram em espessuras médias de gordura dorsal maiores do que aquelas com 40 mg de Mn/kg, demonstrando resultados similares.
Impactos dos microminerais essenciais na alimentação de aves e suínos
Este micronutriente é tradicionalmente adicionado na ração de suínos por meio de uma pré-mistura de minerais-traço, como MnSO4. Segundo Kerkaert et al. (2021), a suplementação de 16 mg/kg prejudica o crescimento e a ingestão de ração, concluindo que suplementação com mais de 8 mg/kg de Mn não melhora o desempenho.
No entanto, em outro experimento, suínos em crescimento e terminação suplementados com 25 ppm de Mn na dieta, obtiveram maior consumo médio de ração, com melhor performance de crescimento (ATOO et al., 2024).
Ainda faltam estudos sobre a influência do Mn na saúde intestinal monogástrica (BROOM; MONTEIRO; PIÑON, 2021). De acordo com Pan et al., (2018) altos níveis de manganês (20,04 + 400 mg/kg) na dieta de frango de corte resultaram em maior reprodução de Salmonella no ceco durante período inicial de proliferação, mas também promoveram benefícios como estabilização da população de Salmonella mais rápido que o grupo controle (20,04 + 40 mg/kg), além de promover proteção à integridade intestinal.
A biodisponibilidade do manganês varia conforme sua forma química. Fontes inorgânicas mais solúveis, como cloreto e sulfato, são melhor absorvidas do que formas menos solúveis, como óxido e carbonato. Já as formas orgânicas, como metionina e proteinato de manganês, apresentam maior aproveitamento, pois estão ligadas a aminoácidos ou proteínas (HENRY, 1995).
O que foi reafirmado por estudos de Xia et al. (2022) e Ji et al. (2006), destacando que o proteinato de Mn é mais biodisponível que o sulfato e que a metionina favorece melhor a absorção do que a glicina.
Impactos dos microminerais essenciais na alimentação de aves e suínos
SELÊNIO
Esse mineral é de suma importância na alimentação de monogástricos, devido à sua ação antioxidante, à participação no metabolismo da tireoide, além de ser componente principal de uma das principais enzimas envolvidas na proteção antioxidante, a Glutationa Peroxidase.
Esta enzima protege os lipídios das membranas e os demais constituintes de possíveis lesões oxidativas, pois catalisa as reações que transformam o peróxido de hidrogênio em água e os hidroperóxidos de lipídios em ácidos graxos alcoólicos (MOURA, 2021).
Mou et al. (2020), estudaram o efeito da suplementação de Se sobre o rendimento reprodutivo de porcas, e concluíram que os animais suplementados com HMSeBA (Hydroxy-selenomethionine), fonte orgânica de Se, apresentaram maior número total de leitões, embora menor peso ao nascer, maior ganho médio diário (GMD) dos leitões, e um menor intervalo entre partos (IEP).
Além disso, em comparação aos animais não suplementados, as porcas que receberam HMSeBA, tiveram maior nível de glutationa peroxidase após o parto, sugerindo maior capacidade antioxidante no corpo desses animais.
Em um estudo desenvolvido por Gomes (2024), foram avaliados o desempenho e as características fisiológicas de frangos de corte suplementados com diferentes fontes de selênio (orgânica e inorgânica),
• demonstrando melhora no ganho de peso e na conversão alimentar das aves suplementadas com a fonte orgânica (selenolevedura) comparativamente as aves suplementadas com a fonte inorgânica (selenito de sódio),
• sugerindo que o tipo da fonte do Se a ser suplementado, também pode apresentar influência no desempenho dos animais.
ZINCO
É um micromineral essencial, envolvido em processos fisiológicos que desempenham funções importantes para o crescimento normal e para a saúde dos animais, como os processos de secreção hormonal, especialmente os relacionados à reprodução, crescimento e imunocompetência.
Além de atuar na formação e funcionamento de mais de 200 metaloenzimas e fatores de transcrição (cofator da RNA e DNA polimerase), é importante as células do corpo pois está envolvido direta ou indiretamente em funções metabólicas, como desenvolvimento de tecidos, imunidade e como antioxidante (CONY et al., 2024).
O zinco apresenta grande relevância no que se refere à imunidade de suínos e aves, por estar relacionado ao número e função de linfócitos no corpo desses animais.
A melhoria da integridade intestinal de leitões após o desmame associado ao óxido de zinco pode estar relacionada a diminuição da expressão de genes associados à inflamação do epitélio, que por sua vez, pode melhorar o desempenho dos animais devido a melhor absorção dos nutrientes presentes no alimento (BLANCH, 2021).
Na avicultura o fornecimento de quelatos de Zn via dieta, pode estar relacionado a ativação da resposta imune celular e humoral, atuando no aumento da resistência a infecções (BLANCH, 2021).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A suplementação de microminerais atua como estratégia importante na nutrição de monogástricos, afetando aspectos produtivos e reprodutivos destes animais, de modo que é viável economicamente sua inclusão na dieta, uma vez que os níveis requeridos são baixos, mas os efeitos significativos.
Referências sob consulta junto ao autor.
Microminerais essenciais na alimentação de aves e suínos: Impactos produtivos e metabólicos