21 out 2026
Negociações comerciais buscam diversificar exportações, atrair investimentos e fortalecer a cooperação entre os países; conclusão do tratado ainda depende do avanço das tratativas.
A possível conclusão de um acordo de livre comércio entre o Mercosul e o Canadá pode abrir novas oportunidades para o agronegócio brasileiro, com reflexos potenciais sobre as cadeias de produção animal, o comércio de insumos e os investimentos em tecnologia. As negociações ganharam impulso durante a Brazil Week, realizada em Toronto, onde representantes do governo brasileiro e do setor produtivo discutiram caminhos para ampliar a presença nacional no mercado canadense.
O Canadá importa mais de US$ 500 bilhões em produtos por ano, mas o Brasil responde por apenas 1,3% desse mercado, segundo informações divulgadas pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). A ampliação dessa participação depende, entre outros fatores, da diversificação da pauta exportadora e das condições de acesso comercial.
Para o presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, o cenário geopolítico e as recentes tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos reforçam a importância de diversificar parceiros comerciais e cadeias de fornecimento.
“A ideia é, principalmente, acelerar, criar um bom ambiente para que o Acordo Mercosul-Canadá possa ser finalizado logo”, afirmou Müller durante a agenda bilateral em Toronto.
Em 2025, o comércio bilateral entre Brasil e Canadá somou US$ 10,4 bilhões. Apesar desse volume, as exportações brasileiras permanecem concentradas em poucos produtos: ouro e alumina representam mais de 65% das vendas nacionais ao mercado canadense, conforme os dados apresentados pela ApexBrasil.
A estratégia discutida pela delegação brasileira busca ampliar a participação de produtos de maior valor agregado, incluindo carne bovina de alta qualidade, frutas, alimentos orgânicos e produtos naturais associados à sociobiodiversidade amazônica.
Para as cadeias de proteína animal, a evolução das negociações merece acompanhamento, especialmente quanto às condições tarifárias e sanitárias que poderão ser estabelecidas para os produtos contemplados pelo eventual acordo. A abertura de mercado, entretanto, não é automática: os efeitos comerciais dependerão dos termos finais do tratado e das exigências aplicáveis a cada categoria de produto.
A complementaridade entre as economias também aparece como um dos pontos de interesse. Enquanto o Canadá é um fornecedor estratégico de fertilizantes, o Brasil tem uma posição consolidada na produção agropecuária tropical. Essa relação pode favorecer o diálogo sobre o abastecimento de insumos e a cooperação entre os dois países, embora os efeitos sobre os custos de produção ainda dependam das condições comerciais que vierem a ser negociadas.
Além do comércio agropecuário, os minerais críticos constituem outra frente de aproximação entre Brasil e Canadá. Esses recursos são importantes para tecnologias associadas à transição energética e podem ampliar as oportunidades de cooperação industrial.
A proposta brasileira é atrair investimentos não apenas para a extração mineral, mas também para o processamento e a agregação de valor no país. O Canadá, que concentra um importante polo de financiamento à mineração, é apontado pela ApexBrasil como potencial parceiro nessa estratégia.
Segundo Laudemir Müller, há interesse canadense em contribuir para o desenvolvimento de uma indústria brasileira de processamento de minerais críticos e terras raras.
A expansão dessa atividade pode fortalecer segmentos industriais e tecnológicos, mas seus desdobramentos dependerão da capacidade de atrair capital, desenvolver infraestrutura e consolidar projetos de processamento no território nacional.
A aproximação entre os países também envolve oportunidades em áreas como tecnologia aplicada à agricultura, desenvolvimento de softwares, games, economia criativa e produção audiovisual.
A ApexBrasil busca ampliar a participação brasileira nos investimentos mantidos pelo Canadá no exterior. Segundo os números divulgados pela agência, o país mantém mais de C$ 2,4 trilhões investidos fora de suas fronteiras, enquanto o Brasil recebe cerca de 1% desse montante.
Para o agronegócio, a cooperação em tecnologia pode representar uma frente a ser acompanhada, sobretudo em soluções voltadas à produção e à eficiência operacional. No entanto, a concretização dessas oportunidades dependerá de projetos específicos, parcerias empresariais e condições efetivas de investimento.
A conclusão do acordo Mercosul–Canadá permanece, portanto, como um passo ainda em negociação. Para as cadeias agropecuárias brasileiras, o avanço das tratativas poderá criar novas possibilidades comerciais, mas a dimensão dos benefícios dependerá das condições de acesso a mercado e da capacidade de transformar a aproximação diplomática em negócios.
Fonte: Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).
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