Formulação deixou de ser só matriz nutricional
A busca por retorno real na nutrição animal deixou de caber em uma única conta de formulação. No último dia da 36ª Reunião Anual do CBNA, as palestras acompanhadas pela nutriNews Brasil reforçaram que fórmula, fábrica, mercado, microbioma, bioinsumos e dados precisam conversar para que a nutrição gere resultado produtivo, sanitário e econômico.
A cobertura dos dias anteriores [confira o que foi pauta no dia 01 e no dia 02] já mostrou como dados, ingredientes e precisão estão redefinindo a nutrição animal e quanto lucro pode se perder entre a matriz nutricional e a ração que chega ao animal. O fechamento técnico do evento avançou a partir desse ponto: não basta formular melhor se o sistema não consegue executar, medir e interpretar a resposta biológica.
Essa leitura apareceu de formas diferentes nas apresentações de Vitor Hugo Cardoso Moita, da ADM Nutrição Animal; Leopoldo Malcorra de Almeida, da Seara; Luiz Carlos Demattè Filho, CEO da Korin; e Aaron Cowieson, da dsm-firmenich/DSM. Em comum, os quatro conteúdos deslocaram a discussão do insumo isolado para o sistema.
Segundo os palestrantes, o resultado da nutrição depende de condições de mercado, disponibilidade de ingredientes, qualidade de processo, microbioma, saúde intestinal, biomarcadores, controle de qualidade e capacidade de transformar dados em decisão.
Formulação deixou de ser só matriz nutricional
Na palestra sobre formulação de dietas para suínos em diferentes mercados, Moita mostrou que a mesma lógica nutricional não se sustenta de forma idêntica no Brasil, nos Estados Unidos, na União Europeia e na Ásia. De acordo com os dados apresentados pelo palestrante, a disponibilidade de milho e soja, o peso da exportação, a estrutura de esmagamento, o acesso a coprodutos, a logística e o custo efetivo de uso dos ingredientes mudam a dieta possível em cada região.
Segundo Moita, a alimentação representa, em geral, de 60% a 70% do custo de produção no Brasil, o que torna a formulação decisiva para a margem. Mas a palestra reforçou que custo por tonelada de ração não pode ser lido sozinho. Conversão alimentar, ganho de peso, idade de abate, remuneração de carcaça, sanidade, qualidade de ingredientes e capacidade de execução no campo entram na mesma conta. Esse recorte será aprofundado na matéria da suínoBrasil “Formulação de suínos virou geopolítica de ingredientes, logística e margem”.
Fábrica, pellet e campo entram na mesma conta
Na avicultura, Leopoldo Malcorra de Almeida levou a discussão do retorno para dentro da fábrica de ração, mas sem limitar o tema à produtividade industrial. Segundo o palestrante, moagem, expansão e peletização interferem em consumo, desperdício, conversão alimentar e funcionalidade gastrointestinal. A apresentação mostrou que a busca por pellet visualmente adequado, duro ou com baixo percentual de finos precisa preservar a microestrutura da dieta, especialmente o tamanho das partículas que chegam ao trato gastrointestinal da ave.
De acordo com os dados apresentados, a ração peletizada elevou o consumo em 10,8% em um dos exemplos comparativos com ração farelada. Ao mesmo tempo, Leopoldo alertou que finos podem aumentar ao longo da cadeia, ou seja, o que sai da peletizadora não necessariamente é o que chega ao comedouro.
A matéria específica da aviNews Brasil, “A partícula que ninguém vê: microestrutura do pellet pode decidir consumo, moela e retorno em frangos”, desenvolve esse ponto a partir da relação entre macroestrutura, microestrutura, moela, pH, desperdício e payback.
Microbioma e bioinsumos ampliam a noção de retorno
O retorno também foi discutido por uma chave sanitária e ambiental na palestra de Luiz Carlos Demattè Filho. A apresentação, associada ao debate sobre bioinsumos, teve como eixo mais amplo a Saúde Única, a resistência antimicrobiana, a produção sem antibióticos e a gestão do microbioma nos sistemas produtivos.
Segundo Demattè, reduzir antimicrobianos não significa apenas trocar um aditivo por outro, mas redesenhar ambiente, nutrição funcional, bem-estar, monitoramento e condicionamento microbiológico das unidades produtivas. Os dados mostrados pelo palestrante sobre Salmonella, sistemas livres de antibióticos e produção convencional devem ser lidos com atribuição e cautela, sem generalização para todos os modelos produtivos.
Ainda assim, o conteúdo reforça uma mudança de lógica, em que o retorno da nutrição pode aparecer também na redução da pressão antimicrobiana, na estabilidade sanitária, na rastreabilidade, na qualidade ambiental e na capacidade de acessar mercados mais exigentes. Esse recorte será tratado na matéria da nutriNews Brasil “Bioinsumos e microbioma entram na conta da redução de antimicrobianos na produção animal”
Dados não valem sem interpretação técnica
Na palestra de Aaron Cowieson, o tema da inteligência artificial ganhou aplicação concreta ao ser associado a biomarcadores sanguíneos, metagenômica, metabolômica, microbioma e saúde óssea em frangos. No trecho registrado da apresentação, Cowieson mostrou que IA e machine learning podem ajudar a integrar dados que, isoladamente, não explicam problemas complexos de campo. O ponto forte não foi uma promessa genérica sobre tecnologia, mas a possibilidade de conectar cálcio ionizado, fósforo, Enterococcus, BCO, FHN, TD, lactato, microbioma e desempenho.
Segundo os dados apresentados por Cowieson, o cálcio ionizado foi tratado como biomarcador mais refinado para determinadas leituras de saúde esquelética em frangos do que o cálcio total. A matéria específica da aviNews Brasil “Cálcio total não basta: IA coloca cálcio ionizado no centro da saúde óssea de frangos” aprofunda essa leitura com a cautela necessária, já que o início da palestra não foi registrado e os exemplos devem ser atribuídos ao palestrante e aos casos apresentados.
O novo ROI é sistêmico
O fio condutor do último dia do CBNA foi a passagem de uma nutrição centrada apenas no nível formulado para uma nutrição dependente de sistema. Na leitura dos palestrantes, o retorno real exige saber de onde vêm os ingredientes, como eles variam, o que a fábrica faz com a dieta, o que chega ao comedouro, como o animal responde, quais sinais metabólicos aparecem e que tipo de dado sustenta a decisão.
Para a nutriNews Brasil, esse fechamento consolida uma mensagem editorial relevante: precisão nutricional não é apenas reduzir custo, adotar uma tecnologia ou incluir um novo aditivo. É construir um sistema em que formulação, processo, mercado, microbioma e dados sejam interpretados em conjunto. O que o CBNA mostrou, no conjunto das apresentações, é que o retorno da nutrição animal será cada vez menos uma conta estática e cada vez mais uma capacidade de integração.
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