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Da CCS à ordenha: como reduzir perdas e ganhar produtividade 

08 out 2026

Da CCS à ordenha: como reduzir perdas e ganhar produtividade 

Especialistas do 15º SBSBL destacam que controle da CCS, prevenção da mastite e eficiência dos equipamentos exigem gestão integrada dentro da propriedade

 A qualidade do leite depende de uma combinação de fatores que começa na interpretação correta dos dados do rebanho e chega à eficiência do equipamento de ordenha. Essa foi a linha que uniu duas palestras do Painel Gestão e Qualidade do Leite, nesta quarta-feira (7), durante o 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL), promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet), em Chapecó.

O médico-veterinário português Luis Pinho apresentou a palestra “Gestão da CCS em sistemas leiteiros: pontos críticos e estratégias de melhoria”, enquanto o zootecnista Gian Nascimento abordou “Performance do equipamento de ordenha: menos mastite, mais produtividade”. As duas exposições mostraram, por ângulos complementares, como reduzir mastite, controlar a contagem de células somáticas (CCS) e elevar a produtividade.

Pinho, doutor em Ciências Veterinárias pela Universidade do Porto e especialista em saúde do úbere, defendeu uma metodologia que parte da análise dos dados para identificar a origem das infecções, definir prioridades e acompanhar os resultados.

Médico-veterinário português Luis Pinho

“Em vez de fazermos uma consultoria baseada em palpites, precisamos de uma fundamentação baseada em dados, que permita tomar ações mais corretas, mais rápidas e mais eficazes”, afirmou.

Um dos principais alertas foi para a mastite subclínica. Sem sinais aparentes, ela pode reduzir a produção e permanecer despercebida por longos períodos.

“As células somáticas são talvez o prejuízo silencioso que mais ignoramos nas fazendas. Muitas vezes trabalhamos nas mastites clínicas, nos problemas que vemos, mas não trabalhamos nos problemas subclínicos”, destacou.

Além da perda produtiva, a CCS elevada pode afetar a remuneração do leite, ampliar despesas com tratamentos e descarte e comprometer o desempenho reprodutivo. Por isso, Pinho recomenda acompanhar a evolução dos animais para identificar novas infecções, casos crônicos, vacas curadas e animais saudáveis.

Outro ponto central é distinguir se a origem predominante das infecções é contagiosa ou ambiental. Nos quadros contagiosos, a atenção recai principalmente sobre rotina de ordenha e manejo dos animais infectados. Quando a origem é ambiental, alojamento, cama, higiene, ventilação e período de transição ganham maior peso.

Prevenção integrada

A estratégia apresentada pelo veterinário se apoia em quatro pilares: alojamento, rotina de ordenha, máquina de ordenha e sistema imune. Segundo ele, uma falha relevante em qualquer dessas áreas pode comprometer o resultado das demais. A prevenção, porém, precisa caminhar junto com a gestão das vacas já infectadas. Pinho ressaltou que nem todo animal deve receber o mesmo tratamento. Agente causador, fase produtiva, histórico e possibilidade de cura devem orientar a decisão entre tratar, acompanhar, antecipar a secagem ou descartar.

Essa seleção também contribui para o uso racional de antimicrobianos. “Tratar mais” não significa necessariamente obter melhores resultados. Para o especialista, diagnóstico e prevenção reduzem tratamentos desnecessários e permitem concentrar recursos nos casos com maior possibilidade de resposta.

Produtividade

No cenário internacional, Pinho considera 200 mil células por mililitro uma referência padrão para os rebanhos e afirma que trabalhar abaixo de 150 mil pode ampliar produtividade e qualidade. O desafio, porém, cresce à medida que os índices já estão mais baixos.

“Passar de 200 mil para 150 mil é muito mais difícil do que passar de 400 mil para 200 mil. Economicamente, pode até não ser viável se não houver bonificação por parte da indústria”, explicou.

Para ele, incentivos econômicos podem ser mais efetivos que a simples imposição de limites legais. Pinho também avalia que o Brasil reúne condições para ampliar sua participação no mercado internacional de lácteos nos próximos anos. Segundo ele, restrições ambientais, legislativas e de mão de obra limitam a expansão da produção europeia, enquanto o Brasil ainda apresenta espaço para crescimento. Esse avanço, no entanto, dependerá de maior produtividade associada a padrões cada vez mais exigentes de qualidade. Para o especialista, o caminho passa menos por uma solução isolada e mais por disciplina de gestão: medir, identificar a causa, corrigir e conferir se a mudança produziu resultado.

 Equipamento também pesa no resultado

Se Pinho destacou a necessidade de localizar a origem do problema, o técnico em Agricultura e Zootecnia pelo Instituto Federal do Sul de Minas Gerais, Gian Nascimento, mostrou que parte da resposta está na própria sala de ordenha. Para ele, o avanço da produtividade dos rebanhos brasileiros exige equipamentos capazes de acompanhar vacas com maior produção e maior velocidade de fluxo de leite.

Zootecnista Gian Nascimento

Na palestra “Performance do equipamento de ordenha: menos mastite, mais produtividade”, Nascimento apontou três fundamentos: vacas bem estimuladas por uma rotina adequada, vácuo suficiente e estável e pulsação compatível com o fluxo dos animais. Segundo ele, nem sempre é necessário trocar todo o sistema de ordenha; ajustes técnicos, manutenção e substituição de componentes podem produzir ganhos importantes.

A falta de manutenção preventiva foi citada como um dos principais problemas encontrados no campo. Dependendo do fabricante, as revisões podem ser recomendadas a cada 750 ou 1.000 horas de operação. Equipamentos desajustados aumentam intercorrências, desgastam as equipes e podem contribuir para novos casos de mastite.

Dados apresentados por Nascimento indicam que o equipamento pode estar relacionado a até 20% das novas infecções intramamárias. Em uma simulação com 100 vacas em lactação, duas ordenhas diárias e 30% de deslizamento de teteiras, a estimativa foi de cerca de nove novas infecções em um ano.

Prevenção com retorno

A palestra também colocou a manutenção sob a ótica econômica. Segundo os dados apresentados, a manutenção preventiva da ordenhadeira pode proporcionar retorno estimado entre três e dez vezes o valor investido. Em uma propriedade com 100 vacas em lactação e produção média de 35 litros por vaca ao dia, a simulação mostrou que um investimento equivalente a 2,5% do custo de produção representaria aproximadamente R$ 0,06 por litro.

Nascimento resumiu a meta da ordenha em três conceitos: retirar o leite de forma rápida, completa e suave, sem comprometer a saúde dos tetos. Para isso, entram em cena estímulo adequado, tetos limpos e secos, estabilidade do vácuo, proteção pós-ordenha e monitoramento de indicadores como fluxo de leite, tempo de ordenha e ocorrência de deslizamentos.

As duas palestras convergiram em um ponto: produtividade e qualidade não dependem de uma única correção. O resultado nasce da leitura dos dados, da prevenção, da manutenção e da capacidade de rever decisões sempre que os indicadores mostrarem que o caminho precisa ser ajustado.

“Quem entende esses dados produz melhor, perde menos e antecipa problemas”, sintetizou Nascimento.

Fonte: Assessoria de Imprensa – SBSBL.

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