Nutrição Animal

Potencializando a saúde intestinal e o desempenho de leitões pós-desmame

Para ler mais conteúdo de nutriNews Brasil 2º Trimestre 2026

Gustavo Cordero

Miliane Alves da Costa

Potencializando a saúde intestinal e o desempenho de leitões pós-desmame com uso de Levedura Viva

Poucos momentos da vida do leitão concentram tanto risco quanto o desmame. O animal sai de uma dieta líquida e passa, de uma hora para outra, à ração sólida. Some-se a isso a separação da mãe e a mudança de ambiente, e o resultado costuma ser visível no cocho: o consumo cai, o desempenho desaba e a microbiota intestinal entra em desequilíbrio, abrindo espaço para diarreias.

Diante de tudo isso, manter o intestino estável virou prioridade nutricional, sobretudo num cenário em que os antibióticos promotores de crescimento deixaram de ser uma opção de rotina.

É nesse terreno que as leveduras vivas ganharam espaço. Elas modulam a microbiota, ajudam na fermentação e dão ao animal mais fôlego para atravessar o estresse do período. O detalhe que as separa dos derivados inativos é simples: a levedura viva continua metabolicamente ativa. Ela consome oxigênio dentro do trato gastrointestinal e, ao fazer isso, prepara o terreno para que bactérias benéficas anaeróbias se instalem.

Gonzalez-Ortiz et al. testaram exatamente essa combinação. Foram 180 leitões desmamados, dietas à base de sorgo, 42 dias de acompanhamento, e três programas em comparação: uma dieta controle, uma com xilanase (16.000 BXU/kg) e uma terceira somando a essa enzima a levedura viva Vistacell® (1 kg/t, cuja concentração do produto é de 2×1010 UFC/g).

O retrato geral é de melhora consistente quando os dois aditivos andam juntos. Ao fim do estudo, os leitões que receberam xilanase e levedura pesavam mais e converteram melhor que o controle. O ganho diário também foi maior, com diferença mais nítida logo nas primeiras semanas após o desmame.

No ganho médio diário a leitura é a mesma. Na fase inicial de crescimento (23 a 65 dias de idade), os animais com levedura ganharam 422 g/dia, contra 402 g/dia do controle (P<0,01). São cerca de 18 g/dia a mais que a xilanase isolada e 20 g/dia acima do controle.

Continua después de la publicidad.

A conversão alimentar conta a mesma história. A xilanase levou o índice de 1,819 para 1,740; com a levedura, caiu para 1,698 (P<0,05). Comparando direto controle e grupo com levedura, a diferença também foi significativa (P<0,01).

Talvez o dado mais expressivo do trabalho seja outro: a queda na incidência de diarreia.

A xilanase isolada reduziu a ocorrência de forma modesta. Já a entrada da levedura cortou a incidência pela metade em relação ao controle, e em torno de 43% frente ao tratamento que só usava xilanase (P<0,05).

No mesmo experimento, Gonzalez-Ortiz et al. verificaram que a levedura amplificou as mudanças que a xilanase provocava na microbiota intestinal, conforme o gráfico a seguir.

O que se viu no íleo foi uma reorganização ecológica: o ambiente passou a favorecer as bactérias benéficas e a hostilizar os grupos indesejáveis. No controle, a comunidade estava fragmentada. Lactobacillaceae já respondia por 54% da microbiota, mas Clostridiaceae ainda ocupava perto de 20%. Sobrava nicho ecológico para grupos bacterianos pouco eficientes no aproveitamento dos carboidratos fermentáveis que ficam disponíveis depois do desmame.

A xilanase deu o primeiro empurrão nesse equilíbrio. Ao quebrar os arabinoxilanos, a enzima libera oligossacarídeos que servem de substrato preferencial para certas fermentadoras, com destaque para os Lactobacillus. O resultado: Lactobacillaceae subiu de 54% para 64% e Clostridiaceae recuou para cerca de 10%.

A associação com a levedura, porém, foi muito além. Se ela agisse apenas como nutriente ou probiótico convencional, o esperado seria um acréscimo discreto sobre o que a xilanase já tinha feito. Não foi o que aconteceu. Lactobacillaceae saltou de 64% para 79%, enquanto Clostridiaceae caiu de 10% para apenas 6%.

Esse salto dificilmente se explica só por nutrição extra para as bactérias boas. O mais provável é que a levedura tenha mexido nas condições ambientais do ecossistema, dando vantagem a uns grupos e tirando espaço de outros.

Os trabalhos de Cordero e colaboradores oferecem uma pista. Ao contrário de um aditivo inerte, a levedura viva segue ativa no trato digestivo e consome o oxigênio do lúmen. Com menos oxigênio, o potencial redox do ambiente cai, e isso beneficia anaeróbios e microaerófilos como os Lactobacillus, ao mesmo tempo que dificulta a vida de grupos mais tolerantes ao oxigênio.

A questão não é apenas ter bactérias boas presentes. É garantir um ambiente que dê a elas vantagem competitiva. Por esse ângulo, a levedura age um passo antes da própria microbiota: muda o ambiente intestinal e, com isso, reescreve as regras ecológicas que definem quem prospera.

O número de 79% de Lactobacillaceae merece um olhar à parte. Quando uma única família responde por quase quatro quintos da microbiota ileal, o que se tem é uma comunidade fortemente direcionada e especializada na função.

Lactobacillaceae costuma significar mais ácido lático, pH luminal mais baixo, menos enterobactérias, menos brecha para patógenos e mais estabilidade diante de desafios sanitários. Em outras palavras, a microbiota cumpre melhor seu papel de barreira biológica contra agentes nocivos.

A queda de Clostridiaceae também pesa do ponto de vista ecológico. A família reúne espécies benéficas, neutras e potencialmente patogênicas, e os dados não permitem dizer quais delas recuaram. O que dá para afirmar é que houve perda real de espaço, de cerca de 20% no controle para 6% na associação de xilanase e levedura. Como a microbiologia intestinal é, no fundo, uma disputa por nutrientes e nichos, essa retração indica que Lactobacillaceae tomou território antes dividido com outros grupos.

Somando tudo, a levedura viva não cabe no rótulo de aditivo apenas complementar. Mesmo sobre uma dieta já bem ajustada com xilanase, ela rendeu mais peso, mais ganho diário, melhor conversão, menos diarreia e uma microbiota mais favorável. É o tipo de ferramenta que reforça a robustez intestinal e ajuda a extrair o melhor desempenho do leitão justamente na fase mais crítica da suinocultura moderna.

Referências bibliográficas sob consulta junto ao autor

MAIS CONTEÚDOS DE AB Vista Brasil

Dados da empresa

DESCUBRA
agriNews Play - Los podcast del sector ganadero en español
agriCalendar - O calendário de eventos do mundo agropecuárioagriCalendar
agrinewsCampus - Cursos de formação para o setor pecuário.