Por Priscila Beck, de Kuala Lumpur, Malásia
22 out 2026
Rabobank prevê crescimento moderado no Brasil para as carnes bovina, suína e de aves entre 2025 e 2035 e aponta a gestão de custos e riscos como decisiva para a rentabilidade
Por Priscila Beck, de Kuala Lumpur, Malásia
Os mercados emergentes deverão responder por 90% do crescimento da demanda global por proteína animal entre 2025 e 2035, segundo a perspectiva apresentada por Nan-Dirk Mulder, especialista global sênior em proteína animal do Rabobank, durante o World Nutrition Forum 2026, organizado pela dsm-firmenich em Kuala Lumpur (Malásia). A expansão, segundo ele, exigirá dos produtores mais capacidade de administrar custos, investir em tecnologia e ajustar a produção às características de cada mercado.
Para o Brasil, o quadro regional apresentado pelo Rabobank classifica como moderado o crescimento dos mercados de carnes bovina, suína e de aves no período. A perspectiva integra uma análise que relaciona as oportunidades de expansão à necessidade de controlar custos, administrar riscos e preservar a capacidade de investimento dos produtores.
Mulder destacou aves, ovos e aquicultura entre os setores mais bem posicionados para acompanhar o aumento do consumo. A elevação da renda e a urbanização estão entre os fatores que sustentam essa perspectiva, especialmente na Ásia e em outras regiões emergentes.
“Os mercados emergentes responderão por 90% do crescimento, liderados pela Ásia, África e América Latina”, afirmou.
Sua análise foi além do potencial de expansão. O economista explicou que a rentabilidade dependerá da capacidade de combinar eficiência produtiva, acesso aos mercados e cadeias preparadas para enfrentar maior instabilidade.
As projeções apresentadas nos slides apontam crescimento global de 16% no mercado de proteína animal entre 2025 e 2035. Para o mesmo período, a expansão prevista é de 22% para aves, 20% para ovos e 17% para pescado, ante 9% para carne suína e 6% para carne bovina, sendo que os percentuais são acumulados nos dez anos, não sendo taxas anuais.
Na distribuição geográfica, o Extremo Oriente concentra 50% do crescimento, a América Latina responde por 20% e o conjunto formado por Oriente Médio e África representa outros 20%. Os mercados desenvolvidos ficam com os 10% restantes.
Segundo Mulder, o aumento da renda modifica tanto a quantidade de proteína animal consumida quanto os canais pelos quais os alimentos chegam às pessoas. Em mercados de menor renda, explicou, o preço limita o acesso aos produtos de origem animal.
À medida que o poder de compra avança, o consumo cresce e passa a envolver supermercados, lojas de conveniência e redes de alimentação. Esse movimento amplia as possibilidades de diferenciação, desenvolvimento de marcas e oferta de produtos com maior valor agregado.
Em mercados mais maduros, o economista descreveu outra dinâmica. Com níveis de consumo já elevados, saúde, conveniência e questões éticas ganham importância nas decisões de compra. Em alguns deles, a perspectiva apresentada inclui retração do consumo de carnes vermelhas.
“Não existe um único modelo que sirva para todos”, afirmou.
Para o especialista, produtores e fornecedores precisam adequar os investimentos ao estágio de desenvolvimento e às exigências dos mercados em que atuam. Oportunidades de crescimento em volume e de geração de valor podem assumir pesos diferentes em cada região.
A comparação entre regiões mostra trajetórias distintas. Enquanto o Brasil aparece na faixa de crescimento moderado nas três carnes, Índia e Vietnã são classificados com crescimento muito rápido para aves. O quadro reforça a necessidade de avaliar cada mercado ao definir investimentos e estratégias comerciais.
Um dos pontos centrais da palestra foi o efeito da geopolítica sobre a organização da produção. Mulder observou que mais países buscam assegurar o abastecimento de alimentos e de recursos considerados estratégicos, favorecendo investimentos próximos dos mercados consumidores.
Essa prioridade pode alterar a lógica de produzir nas regiões com maior vantagem competitiva e abastecer outros países por meio do comércio internacional. Na análise do economista, o movimento pode resultar em uma economia global menos eficiente, com custos de insumos mais elevados e sujeitos a maior oscilação.
A segurança do abastecimento passa a influenciar decisões que antes poderiam ser orientadas principalmente pelo custo de produção. Mulder defendeu que o setor repense suas cadeias de abastecimento.
Incluiu nessa discussão a dependência de insumos e tecnologias e a competição por recursos. O cenário exige que empresas e produtores considerem a exposição a interrupções e preservem capacidade financeira para investir e se adaptar.
Para a nutrição animal, a perspectiva de maior volatilidade reforça o peso dos indicadores técnicos na gestão das margens. Mulder destacou a conversão alimentar ao explicar que o setor precisará extrair mais produtividade dos recursos disponíveis.
A eficiência deverá avançar ao longo de toda a cadeia, em um contexto de pressão sobre a disponibilidade de terra e de crescimento da demanda.
“O papel dos produtores, dos agricultores e das empresas de insumos será crucial”, afirmou, ao abordar a necessidade de inovação em parceria com a ciência e as universidades.
O especialista também apontou investimentos em instalações modernas, biosseguridade e tecnologias digitais entre os caminhos para sustentar a produção. Em sua avaliação, a continuidade dos desafios sanitários mantém a proteção dos sistemas produtivos entre as prioridades.
O ganho técnico precisa estar conectado ao resultado econômico. Ao discutir as decisões dos produtores, Mulder associou produtividade à gestão das margens, ao risco e à capacidade de financiar as mudanças necessárias.
A apresentação também identificou a divisão de riscos como um dos pilares da rentabilidade e da viabilidade dos produtores. Parcerias mais fortes, contratos e integração vertical foram apresentados como caminhos para repartir melhor riscos e retornos e dar maior estabilidade às margens e ao fluxo de caixa.
O acesso a capital, o financiamento dos investimentos e a flexibilidade financeira compõem outra parte dessa estrutura. Na perspectiva apresentada, os produtores precisam ter condições de financiar a modernização, os avanços em sustentabilidade e a adaptação às mudanças do mercado.
Mulder apresentou inteligência artificial, sensores, robótica e ferramentas de análise de dados como tecnologias capazes de modificar a produção e a gestão dos negócios. Segundo ele, esses recursos permitem ampliar a avaliação do desempenho.
Além dos resultados financeiros, técnicos e de qualidade, as decisões podem incorporar informações sobre impacto ambiental, saúde e bem-estar animal. O economista descreveu esse movimento como uma passagem de decisões intuitivas para escolhas apoiadas em dados.
Mas identificou um desafio na forma como a transformação digital está avançando. Embora diferentes etapas já desenvolvam suas próprias ferramentas, será necessário conectar essas iniciativas para melhorar a comunicação e a coordenação da cadeia.
Na perspectiva apresentada, a integração das informações pode ajudar a aproximar as decisões da produção das necessidades do mercado. A adoção de tecnologias isoladas representa uma etapa desse processo, que deverá avançar para sistemas mais coordenados.
A busca por rentabilidade também passa pela capacidade de reconhecer quais atributos têm valor para cada público. Mulder citou saúde, segurança dos alimentos, meio ambiente e bem-estar animal entre os temas que influenciam as oportunidades de diferenciação. Ressaltou que sua importância varia conforme a região.
Enquanto o bem-estar animal tem forte presença na discussão europeia, ele destacou o interesse por saúde e segurança dos alimentos em mercados da Ásia e da América Latina, incluindo possibilidades para alimentos funcionais.
Na sessão de perguntas, o especialista também avaliou o espaço das proteínas alternativas. Em sua análise, elas podem participar do crescimento da demanda, mas ainda precisam avançar em aspectos como sabor, preço e percepção de saúde para conquistar maior aceitação.
A expansão do mercado não elimina a necessidade de compreender o consumidor. Para Mulder, produtores e fornecedores deverão aproximar suas estratégias das mudanças no consumo e fortalecer o relacionamento entre os elos da cadeia.
Ao concluir a palestra, o economista reforçou que a produtividade e a rentabilidade dos produtores continuarão essenciais. O futuro descrito por ele exigirá também adaptação tecnológica, coordenação e diálogo com uma sociedade cada vez mais urbana e distante da produção de alimentos.
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