Por Mayara Medeiros, nutriNews Brasil, São Paulo, Brasil.
27 out 2026
Região concentra produção de soja e milho, enquanto condições tropicais ampliam a importância do controle de temperatura, umidade e fungos durante a pós-colheita
Por Mayara Medeiros, nutriNews Brasil, São Paulo, Brasil.
A conservação de soja e milho no MATOPIBA, fronteira agrícola que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, depende de uma combinação de infraestrutura, manejo e controle das condições ambientais. Em uma região de clima tropical, manter a qualidade dos grãos após a colheita exige atenção à secagem, à temperatura da massa armazenada e à atividade de fungos, especialmente quando a capacidade de recebimento e armazenagem precisa acompanhar o ritmo da produção.
O desafio ocorre em uma região cuja produção de grãos se concentra principalmente em soja e milho. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) encaminhados para esta reportagem, os dois cultivos somaram 36,80 milhões de toneladas na safra 2025/26 nos estados que compõem o MATOPIBA. No mesmo recorte, a capacidade estática de armazenagem a granel era de 17,06 milhões de toneladas.

Kepler Weber em Correntina (BA) — Foto: Divulgação
A diferença entre os números é de 19,74 milhões de toneladas, mas não representa, isoladamente, o déficit efetivo de armazenagem. A Conab ressalta que a capacidade estática não considera a rotatividade dos estoques, os diferentes calendários de colheita e o escoamento da produção ao longo do ano.
Conforme a companhia, a capacidade estática cadastrada nas regiões Norte e Nordeste totaliza 25,7 milhões de toneladas, diante de uma produção estimada de 58,3 milhões de toneladas para a safra 2025/26, considerando todos os grãos. A comparação indica uma diferença de escala entre produção e estrutura disponível, mas precisa ser interpretada à luz da dinâmica operacional das unidades armazenadoras.

Imagem criada por IA, de acordo com trecho retirado do texto da nutriNews Brasil.
A Conab destaca que a análise mais adequada deve considerar a capacidade dinâmica de armazenagem por safra, uma vez que diferentes culturas ocupam as mesmas estruturas em períodos distintos.
Depois da colheita, a qualidade dos grãos passa a depender de fatores como teor de umidade, temperatura, presença de impurezas, danos mecânicos e condições de ventilação. Quando esses parâmetros não são controlados, o armazenamento pode favorecer a atividade biológica dos grãos, a proliferação de fungos e a ocorrência de insetos-praga.
Segundo Augusto Heck, gerente de categoria de aditivos antimicotoxinas para a América Latina da dsm-firmenich, o desenvolvimento de fungos nos grãos armazenados está relacionado à interação entre umidade, temperatura e oxigênio.
No milho, os gêneros Fusarium e Aspergillus merecem atenção. O primeiro pode infectar a cultura ainda no campo e produzir fumonisinas. Já o Aspergillus flavus pode se desenvolver durante o armazenamento e produzir aflatoxinas, micotoxinas associadas a riscos à saúde e à desvalorização comercial dos lotes.
Na soja, a deterioração também pode comprometer a qualidade dos subprodutos. A atividade microbiana e fúngica pode favorecer alterações nos lipídios, elevar o teor de ácidos graxos livres e prejudicar características do óleo, como odor e estabilidade.
A presença de micotoxinas representa outro ponto crítico. Como explica a área técnica da empresa, essas substâncias podem persistir mesmo após tratamentos térmicos empregados no processamento. A contaminação pode resultar em restrições de uso, desvalorização ou rejeição de lotes, conforme os níveis encontrados e os critérios aplicáveis ao destino do produto.
Para reduzir os riscos, as tecnologias de conservação precisam atuar de forma integrada. A termometria, por exemplo, utiliza sensores distribuídos na massa de grãos para identificar elevações de temperatura que podem indicar atividade biológica ou a presença de insetos.
Entretanto, o monitoramento não elimina o problema por si só. A detecção de pontos quentes precisa ser acompanhada de avaliação técnica e de medidas corretivas, enquanto a distribuição dos sensores e a representatividade das leituras influenciam a capacidade de identificar alterações no interior da estrutura.
A secagem também exerce papel central. No material técnico fornecido pela dsm-firmenich, são indicados teores de umidade próximos de 13% para o milho e 12% para a soja como referências para armazenagem prolongada. Os valores efetivamente adequados, porém, dependem das condições de conservação, do tempo de estocagem e da finalidade dos grãos.
A secagem insuficiente pode favorecer a deterioração, enquanto a retirada excessiva de água pode provocar perda de peso comercial. Além disso, uma secagem heterogênea pode deixar regiões com diferentes teores de umidade, dificultando a conservação uniforme do lote.

Imagem criada por IA, de acordo com trecho retirado do texto da nutriNews Brasil.
A aeração completa esse conjunto de ferramentas. Ao promover a passagem de ar pela massa armazenada, o sistema ajuda a reduzir e uniformizar a temperatura e a controlar a migração de umidade. Sua eficiência, contudo, depende das condições do ar externo e do dimensionamento do sistema.
Na avaliação de Samuel Colpa, gerente comercial regional da AGI Brasil, a expansão agrícola do MATOPIBA exige atenção tanto à resistência física das estruturas quanto às condições internas de conservação.
“Nas áreas de expansão do MATOPIBA, caracterizadas por topografia aberta e grandes extensões de terra, as frentes de rajadas e tempestades severas tornaram-se mais frequentes com as mudanças climáticas. Essa nova realidade meteorológica exige uma mudança profunda no cálculo estrutural dos armazéns para suportar tanto a carga dinâmica interna quanto a pressão atmosférica externa”, afirma.
O executivo ressalta que a segurança estrutural precisa ser acompanhada pelo controle do ambiente interno.
“Não é estratégico uma estrutura que resista aos eventos externos se, do lado de dentro, o microclima do silo estiver descontrolado. O aço protege contra a intempérie, mas é a tecnologia embarcada, com monitoramento e exaustores de alta vazão e sensores psicrométricos, que protege o valor real do patrimônio que está guardado ali dentro”, diz.
Colpa também chama atenção para a atividade respiratória dos grãos após a colheita. Em condições desfavoráveis de temperatura e umidade, a respiração pode aumentar, consumindo matéria seca e contribuindo para perdas de peso. O processo pode ocorrer sem sinais externos imediatamente perceptíveis, enquanto a deterioração compromete a qualidade comercial do lote.
A adoção de sistemas de monitoramento, aeração e exaustão precisa, portanto, ser compatível com as características de cada unidade armazenadora. Em condições nas quais o ar externo não oferece condições adequadas para o resfriamento, sistemas de refrigeração artificial podem ser avaliados como alternativa operacional.
Além dos equipamentos, a conservação depende de procedimentos de manejo. A pré-limpeza remove fragmentos vegetais, poeira e grãos quebrados que podem dificultar a circulação do ar e favorecer pontos de concentração de umidade.
O controle de insetos também é importante. Pragas podem danificar os grãos, favorecer a entrada de microrganismos e contribuir para o aumento da temperatura e da umidade em determinados pontos da massa armazenada. A prevenção exige higienização das instalações, inspeção periódica e uso de métodos de controle autorizados, conforme as recomendações técnicas aplicáveis.
Outra possibilidade é o uso de resfriamento artificial, especialmente quando as condições externas limitam a eficiência da aeração convencional. A tecnologia permite controlar a temperatura do ar insuflado na massa de grãos, mas sua adoção deve considerar as características do produto, a umidade, o tempo previsto de armazenamento e o custo operacional.
A aplicação de conservantes à base de ácidos orgânicos também pode ser considerada em situações específicas, desde que respeitadas as indicações técnicas e regulatórias para o produto e sua finalidade. Esses recursos não substituem a secagem adequada nem dispensam o monitoramento da qualidade.
A disponibilidade de estruturas próprias pode ampliar a flexibilidade de comercialização do produtor, reduzindo a necessidade de escoar toda a produção imediatamente após a colheita. Segundo Colpa, a armazenagem na fazenda permite organizar as vendas de acordo com as condições de mercado e a logística disponível.
“O armazenamento na fazenda é o principal mecanismo de previsibilidade econômica que o produtor possui no MATOPIBA. Quem não tem onde estocar é obrigado a despachar a safra imediatamente após a colheita, aceitando fretes inflacionados e preços deprimidos pelo excesso de oferta”, afirma.
A possibilidade de postergar a venda, entretanto, depende de que os grãos mantenham a qualidade durante o período de estocagem. Por isso, a decisão sobre ampliar a capacidade não deve considerar apenas o volume físico dos silos, mas também a estrutura de recebimento, a capacidade de secagem, a eficiência da aeração e os recursos de monitoramento disponíveis.
No MATOPIBA, a combinação entre produção concentrada em soja e milho, condições climáticas tropicais e limitações de infraestrutura torna a gestão da pós-colheita um componente importante da competitividade agrícola. A conservação eficiente exige que capacidade estática, operação e controle de qualidade sejam avaliados em conjunto, desde a chegada dos grãos à unidade até sua comercialização.
Assine agora a revista técnica de nutrição animal
AUTORES

Digestibilidade e fermentação in vitro em pets: reduzir o uso de animais
Josiane Aparecido Volpato,
A água, o nutriente mais importante na nutrição suína
Juan Gabriel Espino
A próxima margem da nutrição animal está além da fórmula
Priscila Beck
Micotoxinas: critérios técnicos para o uso de adsorventes
Adriano Mallmann,
A Ciência por Trás do Kolin Plus FC: Além da Substituição da Colina
Dra. Reshma R Chandran
Gerenciando o Risco de Micotoxinas em um Clima de Mudança

Micotoxinas em aves: ocorrência, impactos e estratégias de mitigação
Alexandra Weaver
Ingredientes alternativos na alimentação de frangos de corte
Édina de Fátima Aguiar,
Menos Ração, Mais Lucro: Como a Genômica Revoluciona a Eficiência Alimentar
Marcos Vinicius Barbosa da Silva