01 set 2026
O cenário de juros elevados, câmbio favorável às exportações e possibilidade de valorização dos grãos deve manter as commodities no centro das atenções do agronegócio brasileiro nos próximos meses. Análise do Rabobank, que projeta Selic em 14% ao ano até abril de 2027 e dólar a R$ 5,35 no fim de 2026, aponta para um ambiente de maior volatilidade externa e pressão sobre custos.
As projeções estão próximas das estimativas da Safras & Mercado. Segundo Fernando Iglesias, coordenador de Inteligência de Mercado da consultoria Safras & Mercado, a expectativa é de Selic na faixa de 14% e dólar entre R$ 5,30 e R$ 5,40. Para o agronegócio, esse patamar cambial tende a favorecer a competitividade das exportações, mas os juros elevados criam um contraponto ao encarecer o crédito e limitar investimentos.
“Nós estamos imaginando uma Selic nessa faixa dos 14% também aqui no Safras & Mercado e um câmbio de R$ 5,30 a R$ 5,40 operando nessa banda”, afirma Iglesias.
Na avaliação do analista, a relação entre câmbio e exportações é positiva para as principais cadeias do agronegócio. Um dólar mais valorizado melhora a conversão das receitas externas para reais e aumenta a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional.
“Essa paridade cambial é muito boa para a exportação. Então ela motiva a exportação de commodities, de grãos, de proteínas de origem animal, de algodão, entre outras commodities que nós temos aqui no país”, explica.
O benefício cambial, porém, ocorre em um ambiente de crédito restritivo. Para Iglesias, a manutenção dos juros elevados reduz o estímulo aos investimentos produtivos e pode levar empresas a priorizarem aplicações financeiras em vez de novos aportes nos negócios.
“O grande problema é que essa combinação de juros muito altos ainda acaba estrangulando a atividade econômica, torna o crédito mais caro e vai fazer com que muitos empresários Brasil afora sigam optando pela renda fixa como principal alternativa e não reinvestindo dentro do próprio negócio”, avalia.
O efeito dessa combinação chega também às cadeias de proteína animal, nas quais as decisões de compra de insumos e gestão de custos são determinantes para a rentabilidade.
É nesse ponto que o comportamento de milho, soja e farelo ganha importância. Para avicultores e suinocultores, uma alta significativa dos grãos representa pressão direta sobre o custo da alimentação e pode reduzir as margens de produção.
“Para o caso da suinocultura, para o caso da avicultura, o cenário pode ficar mais dramático se nós observarmos uma alta contundente dos preços dos grãos”, afirma Iglesias.
O risco é ampliado pelas incertezas climáticas para a próxima temporada. Segundo o analista, o El Niño já está no radar do mercado e pode acrescentar volatilidade às cotações e à oferta de soja e milho.
A preocupação é especialmente relevante porque a alimentação representa uma parcela expressiva dos custos de produção de aves e suínos. Assim, movimentos persistentes nos preços dos grãos podem alterar rapidamente a relação entre custo de produção e preço de venda das proteínas.
O câmbio acrescenta uma segunda variável a essa equação. Ao mesmo tempo em que o dólar mais valorizado melhora a remuneração das exportações, ele pode contribuir para manter firmes os preços domésticos de commodities com referência internacional.
A pressão sobre as margens se torna mais sensível em um ambiente de demanda interna enfraquecida. Para Iglesias, juros elevados, endividamento e menor dinamismo econômico podem restringir o consumo brasileiro de proteínas.
“As dificuldades em torno do crescimento econômico remetem a consumo deprimido no país”, afirma.
Nesse cenário, produtores e indústrias podem encontrar maior dificuldade para repassar integralmente eventuais aumentos de custos ao consumidor. A consequência é uma pressão adicional sobre as margens, especialmente se os preços de milho e farelo avançarem mais rapidamente que as cotações das carnes.
Por outro lado, o mercado externo aparece como uma alternativa para sustentar a demanda pelas proteínas brasileiras. Iglesias mantém uma perspectiva positiva para as exportações de frango e carne suína nos próximos meses.
“Para as exportações, eu continuo vendo tanto a carne suína quanto a carne de frango ganhando cada vez mais tração nos próximos meses, ganhando cada vez mais espaço dentro dessa corrente de comércio global.”
Diante da combinação entre risco climático, juros elevados, câmbio e possíveis oscilações nos preços dos grãos, a gestão de estoques surge como uma das alternativas apontadas pelo analista para reduzir a exposição às variações do mercado.
“Tem uma estratégia muito pertinente hoje para você trabalhar, que é na composição de estoques. Se você tiver condições técnicas de fazer isso, enfim, você pode carregar estoque de um ano para o outro, tanto de soja quanto de milho, para você conseguir atravessar por esse período mais complexo dentro do mercado”, explica Iglesias.
A estratégia pode ser considerada tanto por produtores de soja e milho quanto por empresas das cadeias de aves e suínos que tenham estrutura para armazenar ou antecipar a aquisição de matérias-primas. A lógica é reduzir a exposição a compras em momentos de alta, especialmente diante da possibilidade de alterações na oferta provocadas pelo clima.
A decisão, entretanto, exige avaliação financeira e operacional. Capacidade de armazenagem, capital disponível, qualidade do produto e custo de carregamento precisam ser considerados. Com a Selic ainda elevada, manter estoques também implica custo financeiro e, portanto, não significa necessariamente que comprar antecipadamente será sempre vantajoso.
Para as cadeias de grãos e proteína animal, o cenário projetado pelo Rabobank e pela Safras & Mercado reforça a importância da gestão de risco. O câmbio pode abrir espaço para as exportações, enquanto juros, clima e preços da alimentação podem pressionar os custos. Nesse ambiente, acompanhar a formação das cotações de milho, soja e farelo e ajustar o momento de compra e venda pode ser decisivo para preservar as margens nos próximos meses.
Por redação nutriNews Brasil.
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