Tecnologias podem reduzir em 30% as emissões da pecuária, diz Marty Matlock

23 out 2026

Tecnologias podem reduzir em 30% as emissões da pecuária, diz Marty Matlock

No World Nutrition Forum 2026, professor da Universidade de Arkansas destacou como nutrição, genética, sanidade e assistência técnica podem diminuir a distância entre o desempenho alcançado no campo e o potencial já demonstrado pela ciência.

Por Priscila Beck, de Kuala Lumpur, Malásia


Ampliar a adoção de práticas já utilizadas em alimentação, sanidade e manejo pode reduzir em até 30% as emissões globais de gases de efeito estufa das cadeias pecuárias. O potencial, apresentado por Marty Matlock durante o World Nutrition Forum 2026, realizado pela dsm-firmenich em Kuala Lumpur (Malásia), sustenta uma das principais mensagens de sua palestra, de que há espaço para produzir mais alimentos com os conhecimentos disponíveis, desde que eles cheguem aos produtores e se convertam em resultados.

Professor do Departamento de Engenharia Biológica e Agrícola da Universidade de Arkansas, nos Estados Unidos, Matlock organizou o desafio de alimentar uma população de aproximadamente 10 bilhões de pessoas em quatro lacunas: produtividade agrícola, desempenho animal, nutrição e saúde humanas e acesso ao conhecimento.

Para a cadeia de nutrição animal, sua análise coloca em discussão a capacidade de transformar genética, alimentação e controle sanitário em produtividade efetiva.

“Não precisamos de mais animais. Precisamos de animais mais produtivos”, afirmou, em tradução do inglês.

O que significa o potencial de 30%

Ao abordar as emissões, Matlock citou o trabalho da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e seu modelo de avaliação ambiental da pecuária, o GLEAM. A estimativa de até 30% está documentada no relatório Tackling climate change through livestock, publicado pela organização em 2013.

Nesse estudo, a redução foi estimada a partir de um cenário em que produtores de um mesmo sistema, região e clima adotassem tecnologias e práticas utilizadas pelos 10% de produtores com menor intensidade de emissões, ou seja, menos gases de efeito estufa por unidade de produto.

Trata-se, portanto, de um potencial global associado à disseminação de boas práticas. O percentual não representa uma redução uniforme para cada fazenda, espécie ou país. A comparação considera diferenças de eficiência dentro de condições produtivas semelhantes, e as oportunidades dependem do ponto de partida de cada sistema.

As intervenções incluem melhorias na alimentação, na saúde e no manejo dos animais, além da gestão de dejetos e do uso de energia. Na palestra, o professor destacou seis fatores interligados que limitam o desempenho: acesso à genética, qualidade e disponibilidade de alimentos, doenças endêmicas, estresse térmico, assistência técnica e acesso a mercados e incentivos.

Leite e ovos expõem a dimensão das diferenças

Para mostrar a distância entre resultados já alcançados e a realidade de outros sistemas, Matlock apresentou uma comparação da produção leiteira. Em seu slide, a média mundial de referência, de 2018, era de aproximadamente 2.500 litros por vaca ao ano, diante de cerca de 10.200 litros nos Estados Unidos. Em países de baixa produtividade, como os exemplos de Mongólia e Nigéria citados na apresentação, o indicador era de até 500 litros. A diferença entre os extremos supera 20 vezes.

Na análise do professor, elevar a produtividade de sistemas de subsistência pode ampliar a oferta de alimentos e criar condições para a comercialização, com efeitos sobre a renda dos produtores e a economia local.

Na avicultura, o contraste apresentado foi entre poedeiras comerciais em sistemas de maior uso de insumos, com produção superior a 300 ovos por ave ao ano, e galinhas de criações familiares sem melhoramento, com aproximadamente 40 a 60 ovos anuais. Matlock também destacou a doença de Newcastle como uma importante restrição às criações de pequena escala.

Esses números foram utilizados para ilustrar diferenças entre sistemas produtivos. Não constituem metas diretamente transferíveis entre propriedades, ou seja, expressar potencial genético exige condições compatíveis de alimentação, saúde e manejo. A enumeração dos gargalos feita pelo palestrante reforça que as intervenções precisam ser avaliadas em conjunto.

Conhecimento precisa mudar a decisão no campo


A transferência de tecnologia ocupou posição central na apresentação. Matlock descreveu quatro problemas dentro da própria lacuna de conhecimento: dados ausentes ou pouco confiáveis, investimento insuficiente e desigual em pesquisa, dificuldade de levar inovações aos usuários e escassez de profissionais capacitados.

Para quem decide investimentos em nutrição e produção animal, essa leitura acrescenta, à avaliação de uma tecnologia, a pergunta sobre quais condições permitem que o resultado demonstrado seja reproduzido na operação. A resposta envolve diagnóstico, orientação técnica e acompanhamento dos indicadores, além da disponibilidade da solução.

Um dos slides mostrou a desigualdade no financiamento da pesquisa agropecuária. Segundo os dados apresentados, com referência ao levantamento ASTI e à base GRAPE, os países de alta renda destinavam US$ 3,07 à pesquisa pública para cada US$ 100 de PIB agropecuário. Nos países de baixa renda, o valor era de US$ 0,44, uma diferença de aproximadamente sete vezes.

Ao tratar da assistência técnica, Matlock afirmou que disponibilizar informação não basta se ela não modificar as decisões dos produtores. A capacidade de medir o desempenho e identificar restrições é parte do caminho para direcionar os investimentos.

Produção precisa chegar à alimentação das pessoas


O professor também relacionou eficiência produtiva ao acesso à alimentação. Em sua avaliação, o desafio envolve a qualidade nutricional das dietas e a capacidade das pessoas de adquiri-las, além da oferta de calorias.

Na sessão de perguntas após a palestra, defendeu que as empresas associem rentabilidade ao desenvolvimento das comunidades em que atuam. Reconheceu o lucro como condição de permanência no mercado, mas argumentou que a prosperidade das pessoas também precisa integrar a visão de negócio.

Ao encerrar a apresentação, Matlock sintetizou sua leitura sobre os obstáculos à produção de alimentos: “São lacunas de investimento, de aplicação e de conhecimento”, afirmou, em tradução do inglês.

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